*por Vítor Antunes
O príncipe está só. Revelado ainda adolescente como o protagonista de “Xuxa e o Mistério de Feiurinha (2009) — em que fazia par romântico com a então aspirante a atriz e hoje diretora criativa de moda Sasha Meneghel —, Bernardo Mesquita amadureceu diante das câmeras. Aos 35 anos, o ator e cantor atravessa uma nova fase pessoal e profissional. Depois de alguns anos de casamento com Julia MacKenzie, com quem tem um filho, Bento, Bernardo está solteiro há poucos meses.Profissionalmente, o carioca vive um momento de reinvenção. Depois de interpretar o Arcanjo Miguel em “A Vida de Jó”, produção bíblica da Record, ele se prepara para encarar um formato inédito: a primeira novela vertical do TikTok. Em “Chefe”, dirigida por Yana Sardenberg, ele dá vida a Caio Velanova.
“Eu estou deixando a vida me levar, já dizia Zeca Pagodinho. Estou bem tranquilo. A gente vive o processo para lá na frente viver o propósito. Se o meu propósito for encontrar uma pessoa, isso vai acontecer no momento certo. No momento, estou muito focado no meu trabalho e no meu filho”. O término, no entanto, não passou ileso. “Passei por um processo complicado depois da separação. Acabei ficando um tempo sem treinar direito, vivendo o processo do luto. Faz parte”, admite o ator, sem rodeios.
Apesar da ruptura recente, Bernardo fala com maturidade sobre o papel de pai e sobre a boa convivência com a ex-mulher. “Graças a Deus, tenho um relacionamento muito bom com a mãe do meu filho, o que é fundamental, já que a gente vai ter esse elo eterno. Isso é importante para a gente e para ele”, afirma. “Entre os desafios de ser pai solteiro, tento ser um homem presente na vida do Bento. Eu e a mãe dele nos ajudamos muito — pegamos a criança quando precisamos, combinamos as rotinas e levamos tudo de uma forma super respeitosa e saudável.”

Bernardo Mesquita e seu filho, Bento (Foto: Dan Delmiro/AgNews)
“Estou nessa expectativa do lançamento da novela vertical, muito curioso para ver a repercussão”, conta. A trama terá 80 capítulos de apenas um minuto cada — pensada para o público que consome dramaturgia direto do celular. “Na verdade, é uma tentativa de atualização. As emissoras, os streamings e as redes sociais estão se reinventando. Hoje, as pessoas passam muito mais tempo com o telefone na mão do que assistindo à TV”, reflete.
Para ele, a novidade é o futuro. “Essa sacada é muito esperta. Acho que esse formato vai ganhar muita força, porque é dinâmico. As histórias são curtas, diretas, cheias de cortes interessantes. A gente tem que passar uma novidade a cada minuto, senão o público se dispersa. É um desafio delicioso”.

Bernardo Mesquita vai estrelar a primeira novela vertical do TikTok (Foto: Divulgação)
O LADO HUMANO DO PRÍNCIPE
Bernardo Mesquita tinha apenas 18 anos quando a vida mudou de uma hora para outra. O então aspirante a ator foi escolhido entre centenas de candidatos no concurso “Procura-se um Príncipe”, promovido pelo TV Xuxa. O prêmio era estrelado: viver o protagonista jovem do longa Xuxa e o Mistério de Feiurinha (2009), fazendo par romântico com Sasha Meneghel. “A minha vida mudou por completo depois que conquistei esse concurso”, lembra. “Em questão de amadurecimento, tanto pessoal quanto profissional, foi um divisor de águas. Eu era uma pessoa totalmente anônima e, no dia seguinte, estava sendo reconhecido pelo Brasil inteiro. Por onde eu andava, as pessoas vinham tirar foto, conversar… Depois do filme com a Sasha, já entrei em Malhação. Foi tudo muito rápido”.
A fama veio muito cedo, e de certa forma eu me deslumbrei. Comecei a ganhar dinheiro, a ser reconhecido, a chamar atenção — afinal, eu tinha o arquétipo do príncipe. E, mesmo tendo uma educação maravilhosa dos meus pais, é difícil segurar. Quando você é muito jovem, quer aproveitar tudo. Tudo está muito fácil. A facilidade do dinheiro chegar rápido é um problema se você não tiver cabeça. Mesmo com o suporte dos meus pais, gastei com muita besteira. Eu precisava amadurecer. – Bernardo Mesquita

Bernardo Mesquita ao ser escolhido como o protagonista jovem do filme de Sasha (Foto: Divulgação)
A vida tratou de colocar as coisas em perspectiva. Pouco tempo depois, ele conheceu Julia MacKenzie, com quem viveu um relacionamento de anos e teve o filho, Bento. “Desde os 15 anos eu dizia para minha mãe que queria ser pai. Sempre tive isso em mim. Acho que a criança emana luz na vida das pessoas, e falo com propriedade: realmente é assim. Meu filho é a luz da minha vida. Ele veio num momento complicado, mas transformador. Hoje, quero ser uma pessoa melhor a cada dia, para que isso também seja transformador na vida dele”. A paternidade, diz ele, redefiniu prioridades. “Depois que o Bento nasceu, tudo mudou. A minha forma de ver o trabalho, as relações, a fé… Ele me trouxe uma noção muito forte de propósito.”
E a fé, aliás, é um dos pilares do artista. Bernardo se define como uma pessoa espiritualizada, mas sem rótulos religiosos. “Criei um conteúdo no meu Instagram chamado Conversa com Deus, e tem tido uma repercussão muito grande. É o meu jeito de falar com Deus sem tocar em religião. Acho importante acordar e rezar, orar do seu jeito, independente da crença. O que importa é alimentar a espiritualidade”, explica. Ele completa, com uma serenidade que parece fruto de muitas voltas da vida: “Sempre aprendi que, se você não cuida da sua fé, a matéria não funciona. Hoje eu sei disso, na prática. A fé me equilibra, me ancora e me lembra de quem eu sou.”
Quando fala sobre espiritualidade, Bernardo Mesquita baixa o tom de voz. “Eu sou uma pessoa muito espiritualizada”, diz, entre pausas. “Criei um conteúdo no meu Instagram chamado Conversa com Deus, e isso tem tido uma repercussão muito forte, muito bonita”. A ideia nasceu de maneira despretensiosa, mas ganhou força. No espaço, Bernardo fala sobre fé, propósito e reconexão — temas que passaram a ocupar um lugar central na sua vida nos últimos anos. “É o meu jeito de falar com Deus sem tocar em religião. Acho que é importante você acordar e rezar, orar da forma que quiser, independente da religião”, explica. “Como eu sempre digo, conversar com Deus é alimentar a espiritualidade”. A fé, para ele, é o eixo que sustenta a matéria. “Eu sempre aprendi muito sobre isso. Se você não cuida da sua fé, a sua matéria não funciona. É como um motor: pode até ter combustível, mas se não estiver alinhado por dentro, não anda”.
Hoje, o príncipe que encantou uma geração parece ter guardado a coroa no fundo da gaveta. No lugar dela, carrega um amuleto invisível: a consciência de que o tempo é o único diretor que não aceita improviso. Entre fé e reinvenção, Bernardo Mesquita segue em cena, menos preocupado com o aplauso e mais atento ao propósito. Porque, afinal, como ele mesmo diz, “a gente vive o processo para lá na frente viver o propósito” – e é nesse intervalo que o verdadeiro espetáculo acontece.
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