*por Rodrigo Otávio
Pode-se dizer muito sobre o remake de “Vale Tudo“, que é ruim ou bom, mas não se pode negar que foram muitas as polêmicas nas redes sociais e bastidores das gravações. Na reta final da trama das nove, vários os artistas reclamaram do andamento de seus personagens, de modo que até a autora foi cobrada a falar. Em entrevista à “Revista Quem”, Taís Araújo não escondeu sua indignação com os rumos de Raquel. Segundo a atriz, na versão original da trama, exibida em 1988, Raquel seguia uma curva ascendente de conquistas, tornando-se cada vez mais rica e poderosa, a ponto de enfrentar a icônica vilã Odete Roitman (Debora Bloch). Já na nova versão, a personagem sofreu uma reviravolta radical: perde tudo, voltou a vender sanduíches na praia para reconquistar em segundos novamente o trabalho como empreendedora da área gastronômica. Em entrevista ao Fantástico, a autora disse apenas: “Novela é obra colaborativa”, o que reacendeu a possível rusga entre elas. Sobre o mesmo mote, do empobrecimento de Raquel, a atriz Letícia Vieira também queixou.
Ainda em ‘Vale Tudo”, Luiz Lobianco reclamou do rumo das personagens lésbicas Cecília (Maeve Jenkins) e Laís (Lorena Lima). Uma delas morria na primeira versão da trama. Na segunda a história delas foi abandonada. “Tinha a expectativa que a história delas fosse melhor desenvolvida (…). Realmente imaginei que elas entrariam mais na trama, mas isso não aconteceu”. Alexandre Nero foi outro a ponderar sobre Marco Aurélio, em entrevista ao jornalista Sérgio Santos, o “Zamenza”: “Marco Aurélio é um personagem conhecido. Se não tivesse referência nenhuma, seria só um picareta legal. Mas as pessoas imaginavam, e eu também, que ele seria muito mais terrível. Mas a Manuela decidiu não fazer ele tão terrível.”
Há pouco tempo, destacamos aqui no site Heloisa Tolipan o descontentamento de Maeve Jinkings e Lorena Lima, intérpretes das personagens Cecília e Laís. Em razão dos problemas na abordagem do tema, Lorena Lima e Maeve responderam no Instagram a uma crítica feita pelo coletivo Dupla Maternidade. “Que tenhamos mais chances de contar nossas histórias. É imenso meu respeito e admiração pelo coletivo e por todas as mulheres que o formam. Guardo com muito carinho os presentes que mandaram e deixo meu desejo forte de encontrar com vocês (logo)”, disse Letícia. Já Maeve, “Todo meu amor e respeito ao coletivo, e a todas as mães adotivas e casais de mulheres. Desde o início busquei compreender a alma dessas famílias”.

Laís (Lorena Lima) e Cecília (Maeve Jinkings), mães adotivas da pequena Sarita (Luara Telles), em ‘Vale Tudo’, foram inseridas numa narrativa morna (Foto: Divulgação)
Esses, porém, não são os únicos atores a reclamar de novelas nas quais trabalhavam. Juliano Cazarré já fez o mesmo quando atuava em “Amor à Vida”, e nomes como Marcello Antony, Marina Ruy Barbosa e Ricardo Tozzi também criticaram abertamente novelas das quais participaram. Ítala Nandi foi outra que tornou pública sua frustração com o desenvolvimento de sua personagem em “O Pulo do Gato“, a ponto de vê-la esvaziada no roteiro. Houve até um folhetim, “Pecado Rasgado“, em que todo o elenco se amotinou contra o autor — um episódio que entrou para os bastidores da teledramaturgia. Betty Faria e Vera Fischer foram outras a reclamar. Relembre:

Betty Faria em “Baila Comigo”. Atriz foi Joana na novela de Manoel Carlos (Foto: Divulgação/TV Globo)
Marina Ruy Barbosa e Juliano Cazarré em “Amor À Vida”
O jornal O Dia, à época da exibição de Amor à Vida (2013), publicou uma declaração contundente de Juliano Cazarré sobre o personagem que interpretava na trama de Walcyr Carrasco: “Estou doido para tirar de vez a zica desse Ninho”. Embora a novela tenha sido um enorme sucesso — muito por conta do carismático Félix, vivido por Mateus Solano — o personagem de Cazarré passou por mudanças bruscas: começou como um hippie pobre, enriqueceu, teve momentos de bondade, mas acabou sendo transformado em vilão, assumindo parte das artimanhas que antes cabiam a Félix, tornado mocinho ao longo da narrativa. Essa instabilidade no desenvolvimento do personagem levou o ator a desabafar com o mesmo veículo: “[Recebo] um personagem novo aos 45 minutos do segundo tempo. Ninho não se defende. Sinto falta de ele mostrar o seu lado na história. (…) Ele é sempre arrastado pelos planos dos outros, nunca tem vontade própria. (…) Não estou decepcionado com o rumo do Ninho. Mas continuo sem saber quem ele é. Ele é um vilão? Não. É um mocinho? Também não”, disse Cazarré, sem ter clareza sobre os rumos que a novela daria ao personagem.
Ao Jornal Extra, o ator aprofundou a crítica: “Recebia as mudanças no desespero. Ah, meu Deus: agora ele é rico? Não era pobre e hippie? Tá bom, vamos lá. Conversei com Walcyr um pouco durante a novela. Pedi uns caminhos para ele. Ele falou comigo e me ajudou. Fui me adaptando. O Ninho é muito diferente do personagem que eu fiz no primeiro capítulo. Mas é bacana, porque é um desafio, e a gente cresce no desafio”.
Cazarré não foi o único integrante do elenco a expor insatisfação. Ricardo Tozzi afirmou no “Mais Você” que seu personagem “não tem atitude”. Marcello Antony também se desentendeu publicamente com o autor. Já Marina Ruy Barbosa não apenas reclamou da trama, como se recusou a cortar os cabelos — atitude que resultou em punição por parte de Walcyr Carrasco. Os dois só voltaram a se aproximar anos depois. Cazarré voltaria, anos mais tarde, a fazer novelas de Walcyr. Esteve em “O Outro Lado do Paraíso” (2017).
“O que o Walcyr escrever, vou fazer da melhor maneira possível. Eu não estou torcendo por nada, porque não adianta torcer. É gastar energia à toa. Vou fazer o que chegar – Juliano Cazarré, em 2012.

Juliano Cazarré foi Ninho em “Amor à Vida”, e reclamou de seu personagem (Foto: João Cotta/TV Globo)
Ítala Nandi em “O Pulo do Gato”
Inicialmente escalada para “O Pulo do Gato” (1978), Ítala Nandi teve desentendimentos com Daniel Filho e com a direção da Globo, chegando a criticar duramente a emissora nos jornais da época. Como consequência, sua personagem foi esvaziada da trama. A atriz chegou a afirmar que aquela seria sua última novela, promessa que não se concretizou, já que ela retornou à emissora em produções como “Direito de Amar” (1987).

Ítala Nandi se indispôs com a Globo durante a novela “Pecado Rasgado” (Foto: Divulgação/Globo)
Vera Fischer, em “Salve Jorge”
Em 2020, quando começaram as especulações sobre novelas que poderiam ocupar o horário do Vale a Pena Ver de Novo, o jornalista Duh Secco citou Salve Jorge (2012) como uma das candidatas à reprise. Durante uma live, Vera Fischer reagiu sem rodeios: “Salve Jorge, não! Oh, novela ruim!”.
Embora tenha mantido uma parceria sólida com Gloria Perez, autora da trama, a atriz não escondeu a frustração com o papel de Irina: “Irina não tem cenas fortes, não dá para decolar. Quando vi o caminho em que as coisas estavam indo, pensei: ‘Bom, deixa, é mais uma novela, acaba, o público esquece, e tal.’ Se fosse em outra época, eu daria um chilique”, confessou.
A personagem ficou marcada por sua passividade, passando boa parte da novela sentada. Isso gerou uma hashtag irônica no Twitter, a #levantairina. Em uma das poucas cenas em que a personagem se levantou — no capítulo final — Irina foi abordada pela polícia e disse a frase que virou meme: “Eu só faço a contabilidade”. A fala passou a ser usada como piada para personagens irrelevantes em outras tramas. Ao O Globo, Vera Fischer ainda desabafou:
Para uma atriz como eu, com quase 40 anos de TV Globo, que fez milhares de trabalhos de qualidade, não precisava estar ali fazendo esse papel. Não precisavam me chamar para fazer a novela [Salve Jorge]. Não precisavam de mim. Poderiam colocar alguém que está começando, que precisa. É um personagem, que para mim, é quase que humilhante. (…) Só espero que o próximo personagem que me apresentem seja um com alguma dignidade, porque estou cansada de fazer papelzinho que não é para mim e sim para uma pessoa que está começando na carreira – Vera Fischer, em 2013

Vera Fischer. Papel em “Salve Jorge” foi “humilhante” (Foto: Alex Carvalho/TV Globo)
Betty Faria, em “Baila Comigo”
No início dos anos 1980, Betty Faria já era um nome consolidado na televisão e no cinema. Tinha atuado em Duas Vidas (1976), apresentado o programa Brasil Pandeiro (1978) e protagonizado Água Viva (1980), quando foi convidada para integrar o elenco de Baila Comigo (1981), primeira novela de Manoel Carlos no horário nobre da Globo. Em uma trama cujo título remetia à dança, coube à atriz ser a representante da arte no folhetim: Joana, sua personagem, era professora da academia que servia de cenário para algumas das principais sequências, e, já no capítulo inaugural, protagonizou um número de jazz.
Um dos diretores da novela, Roberto Talma (1949-2015), destacou ao O Globo (06/03/1981) os motivos de sua escalação: “A versatilidade de Betty Faria, uma das poucas artistas da sua geração a saber atuar, cantar e dançar motivou a sua entrada na novela. (Joana trata-se) de um personagem que, a princípio, terá menor participação na história, mas que, por conta da versatilidade de Betty, pode crescer.”
Apesar de ser uma participação especial, Betty insistiu em aceitar o papel — algo de que se arrependeu depois. Em sua autobiografia Rebelde por Natureza, ela recordou: “Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, diretor da Globo] tentou me alertar que não havia um personagem bom para mim, (…) mas insisti em fazer. (…) Ela não era protagonista – e eu vinha de Pecado Capital, Duas Vidas, Brasil Pandeiro, Bye Bye Brasil e Água Viva. (…) Joana ficou confinada naquele único cenário da academia, sem fazer parte do núcleo central da história. Foi ruim para mim, porque fui chata. E quando a gente é chata isso se espalha. Tenho certeza que aborreci o Manoel Carlos querendo que ele melhorasse o meu papel.”
Manoel Carlos, por sua vez, defendeu a personagem em entrevista à Revista Manchete: “Joana, para mim, realizou-se plenamente, tal como foi projetada. Se pareceu pouco aproveitado ou inacabado (o personagem), me faltou capacidade para passar essa realização para o público. O papel era exatamente esse. Talvez fosse pequeno para uma Betty Faria, (…) que sempre soube tratar-se de uma participação especial e, (…) como sempre em sua carreira, (a atriz) esteve em grande nível.”
Nunca mais o Manoel Carlos me chamou para trabalhar em novela alguma sua. Possivelmente não deixei uma boa impressão – Betty Faria, em 2006
Elenco de Pecado Rasgado
Alguns anos antes, Betty havia participado de Pecado Rasgado (1978), novela de Silvio de Abreu que entrou para a história pelos bastidores conturbados. Em sua autobiografia “Um Homem de Sorte”, o autor descreveu a experiência como traumática: “Apesar de ter tido uma boa audiência, porque na TV Globo, naquela época, tudo tinha audiência, foi uma péssima experiência, perto de um pesadelo. Acabei em um estresse terrível, decepcionado, briguei com Régis Cardoso, com muitos atores, com a diretoria da Globo, briguei com todo mundo. Meu contrato acabou no meio da novela e só aceitei renová-lo até o final daquele tormento. Com minha carta de exoneração da emissora na pasta, pedi para falar com Boni. (…) Estava tão irritado e fora de mim que o melhor executivo da televisão brasileira nem deu um dos seus berros famosos e me mandou desaparecer da sua frente; pode ter sido ilusão minha, mas tenho a impressão que até me olhou com respeito. Saí com a convicção de que jamais colocaria os pés dentro daquela emissora novamente e queria sumir dali o mais depressa possível”.

Rogério Fróes puxou um motim contra a novela (Foto: Divulgação/Globo)
Em “No Princípio Era o Som”, Régis Cardoso relatou a rebelião do elenco, causada por atrasos na entrega dos roteiros e por condições precárias de gravação, especialmente em um navio: “O elenco se rebelou, veio falar comigo e eu fiz ver a eles que toda a culpa daquela improvisação era do atraso da entrega dos capítulos. Eles, então liderados por Rogério Fróes, fizeram um abaixo-assinado e enviaram para o então diretor do departamento de novelas. Ele me pediu que fizesse um memorando relatando o acontecido. Fiz e recebi de volta uma acusação de Silvio de que ele escrevia uma novela cômica e eu a teria transformado num drama”. O clima nos bastidores afetou também os atores. Cláudio Cavalcanti (1940-2013) declarou: “Na Globo eu fiz o pior papel da minha carreira, em Pecado Rasgado. Tudo ali era tão ruim que eu não conseguia gravar nem mesmo os textos.”
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