Barbara Reis vive fase intensa em “Três Graças” e no cinema e abre o jogo sobre bastidores e maternidade


Aos 36 anos, casada desde 2023 com o também ator Raphael Najan, diferentemente de Lena, personagem em “As Três Graças”. que idealiza a maternidade como resposta para seus conflitos, Barbara não se move pela pressão social. A atriz está nos cinemas com a comédia policial ‘Agentes Muito Especiais’, além de produzir teatro com o marido, Raphael Najan, a atriz reflete sobre amadurecimento, tempo possível, autonomia feminina e os próximos desafios da carreira: “Me tiraria da zona de conforto uma personagem que me obrigasse a desconstruir completamente a imagem que construíram de mim. Alguém contraditório, capaz de provocar desconforto e fascínio ao mesmo tempo, fora do lugar da força óbvia. Sonho com personagens femininas densas, que transitam por muitas camadas emocionais sem pedir absolvição”. E, como exercício, aproveita para formular uma pergunta ainda não realizada para ela em entrevistas que deu: “Gostaria que me perguntassem o que aprendi ao não corresponder às expectativas. E responderia que aprendi a me respeitar. Entendi que frustração alheia não pode ser bússola de vida”

*Por Brunna Condini

Entre o drama que a firmou na teledramaturgia e a comédia que agora a provoca no cinema, Barbara Reis atravessa um dos momentos mais inteiros da sua trajetória. No ar como Lena, personagem intensa e impulsiva da novela das 21h da Globo, ‘Três Graças’, ela estreou na telona mês passado em um registro inédito com a comédia policial ‘Agentes Muito Especiais’, ao lado de Marcus Majella e Pedroca Monteiro. “Transitar entre o drama e a comédia me oxigena como atriz”, diz. Fora de cena, Barbara fala com franqueza sobre maternidade, o peso das expectativas sobre o corpo feminino, a proximidade dos 40 como lugar de aterramento e o orgulho de ter construído uma carreira sem se diluir. “Me orgulho da mulher que me tornei dentro e fora do trabalho. Talvez tivesse sido menos dura comigo em alguns momentos, mas também reconheço que essa dureza foi parte do caminho que me trouxe até aqui”, avalia.

Aos 36 anos, casada desde 2023 com o também ator Raphael Najan, diferentemente de Lena, de “As Três Graças”. que idealiza a maternidade como resposta para seus conflitos, Barbara não se move pela urgência nem pela pressão social. Para a atriz, ser mãe é um desejo, nunca uma obrigação, e o tempo certo é aquele que faz sentido para o corpo e para a vida possível:

Na prática, diferenciar desejo genuíno de expectativa externa exige silêncio interno. É um exercício diário de escuta. É perguntar a si mesma: ‘isso é meu ou é do mundo?’. A maternidade, especialmente para mulheres públicas, acaba virando quase um projeto coletivo. Todo mundo opina, projeta, cobra. Tento tirar o ruído e observar meu corpo, minha rotina, meus afetos. Quando o desejo é genuíno, ele não vem com culpa nem pressa. Ele vem com presença Bárbara Reis

Entre o drama e a comédia, Barbara Reis fala de maturidade, maternidade sem pressão e sonhos na teledramaturgia (Foto: Gabi Andrade/Divulgação)

Entre o drama e a comédia, Barbara Reis fala de maturidade, maternidade sem pressão e sonhos na teledramaturgia (Foto: Gabi Andrade/Divulgação)

Barbara conta que esse entendimento foi um marco importante na forma como passou a olhar para a maternidade, e para si mesma. “O momento para a realização desse desejo precisa vir de mim e não do tempo social. Entendi que nenhuma experiência profunda pode ser usada como solução para vazios. A maternidade não resolve, ela transforma. E transformação pede tempo, disponibilidade e escolha. Essa compreensão veio com maturidade emocional e com o reconhecimento de quem sou hoje, e não de quem esperavam que eu fosse”.

Barbara Reis como Lena na novela 'Três Graças' (Foto: Divulgação/Globo)

Barbara Reis como Lena na novela ‘Três Graças’ (Foto: Divulgação/Globo)

A reflexão se amplia quando o assunto é o chamado “relógio biológico”, ainda tão presente na vida das mulheres:

Acho que precisamos falar menos de prazo e mais de contexto. O relógio biológico existe, claro, mas ele não pode ser a única régua. Cada mulher tem uma história, um corpo, um desejo e um momento. Reconfigurar essa narrativa passa por tirar a culpa da equação. Eu e o Raphael conversamos sobre isso com carinho e responsabilidade, mas sem datas rígidas. Planejar, para nós, é criar um ambiente possível, emocional, afetivo e prático, e não marcar um dia no calendário – Bárbara Reis

Barbara Reis e o marido, o também ator Raphael Najan, estão junto desde 2023 (Foto: Acervo pessoal)

Barbara Reis e o marido, o também ator Raphael Najan, estão junto desde 2023 (Foto: Acervo pessoal)

Momento profissional

Esse trânsito entre registros tão distintos, o drama que a consolidou e a comédia que agora a provoca; aparece como motor criativo no discurso de Barbara. Ela descreve a experiência sem hierarquias, como um jogo de oxigenação constante: “Transitar entre o drama e a comédia me oxigena como atriz. Um gênero limpa o outro. A comédia exige precisão, escuta e ritmo, e isso refina muito o trabalho. Me considero mais dramática por natureza, mas descobri que tenho humor, muito ligado à observação do cotidiano. Em ‘Agentes Muito Especiais’, minha personagem me permitiu brincar, relaxar e acessar uma leveza que também faz parte de mim”.

Contabilizando 10 anos de trajetória na televisão desde ‘Velho Chico’ (2016), de uma carreira de 15, iniciada no teatro; Barbara expressa que o desejo de seguir em movimento se torna ainda mais explícito. Hoje ela busca personagens que desmontem expectativas. “Me tiraria da zona de conforto uma personagem que me obrigasse a desconstruir completamente a imagem que construíram de mim. Alguém contraditório, capaz de provocar desconforto e fascínio ao mesmo tempo, fora do lugar da força óbvia. Sonho com personagens femininas densas, que transitam por muitas camadas emocionais sem pedir absolvição”. E quando pensa em um remake, o nome surge com precisão:

"Me orgulho da mulher que me tornei dentro e fora do trabalho" (Foto: Gabi Andrade/Divulgação)

“Me orgulho da mulher que me tornei dentro e fora do trabalho” (Foto: Gabi Andrade/Divulgação)

Adoraria viver a Flora, de A Favorita’ (trama de João Emanuel Carneiro de 2008), uma personagem absolutamente complexa, que circula entre o escárnio e o humor, a frieza e a paixão, e que exige da atriz precisão, coragem e entrega total – Barbara Reis

Autoconhecimento como bússola

O fio condutor dessas escolhas é o autoconhecimento, palavra que volta quando fala sobre o seu momento hoje. E, como exercício, aproveita para formular uma pergunta ainda não realizada para ela em entrevistas que deu: “Gostaria que me perguntassem o que aprendi ao não corresponder às expectativas. E responderia que aprendi a me respeitar. Entendi que frustração alheia não pode ser bússola de vida”. A proximidade dos 40, completos no espaço de três anos, aparece como consequência desse percurso interno, não como crise. “Isso tem mexido comigo, sim, mas de um jeito bonito. Me sinto mais inteira, mais dona de mim. Menos ansiosa para provar e mais disponível para viver. Os 40 se aproximam como um lugar de aterramento, não de perda”, define.

"Os 40 se aproximam como um lugar de aterramento, não de perda” (Foto: Gabi Andrade/Divulgação)

“Os 40 se aproximam como um lugar de aterramento, não de perda” (Foto: Gabi Andrade/Divulgação)

Esse aterramento também dialoga com sua origem. A menina que saiu do Méier, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, segue presente como estrutura emocional e ética:

A menina do Méier ainda vive em mim na curiosidade, no pé no chão e na capacidade de rir de mim mesma. O maior desafio foi acessar espaços que não foram pensados para corpos como o meu e permanecer neles sem me diluir. Me firmar exigiu paciência, consistência e verdade – Barbara Reis

E confidencia, que mesmo com os desafios e dificuldades, em nenhum momento a desistência entrou como opção. “Nunca pensei em desistir. Algo dentro de mim sempre disse que essa não era uma opção, que eu conseguiria viver do meu sonho profissional. Mesmo nos momentos de dúvida ou instabilidade, havia uma certeza silenciosa que me sustentava. Não era sobre facilidade, era sobre convicção. Seguir adiante nunca foi uma escolha heroica, foi a única possível”.

“Quero continuar construindo uma vida coerente com as minhas escolhas, com afeto, presença e espaço para transformação” (Foto: Gabi Andrade/Divulgação)

“Quero continuar construindo uma vida coerente com as minhas escolhas, com afeto, presença e espaço para transformação” (Foto: Gabi Andrade/Divulgação)

E olha para a frente mantendo a mesma coerência. No profissional, ela segue entre o audiovisual e o teatro, como produtora, aprofundando a pesquisa autoral ao lado do marido, Raphael Najan. “No palco, tenho projetos muito especiais ao lado do Raphael, como ‘Limítrofe’, que reestreia em sua segunda temporada no Teatro Ipanema, em março de 2026. É um trabalho profundamente autoral, que representa um lugar de pesquisa e risco para nós dois. Além dele, temos outros dois projetos em desenvolvimento, prestes a sair do papel, que nascem desse desejo de criar juntos, com liberdade e profundidade”. No plano pessoal, a diretriz é a mesma: “Quero continuar construindo uma vida coerente com as minhas escolhas, com afeto, presença e espaço para transformação”.

Raphael Najan e Barbara Reis dão seguimento em 2026 ao projeto autoral 'Limítrofe' no teatro (Foto: Acervo pessoal)

Raphael Najan e Barbara Reis dão seguimento em 2026 ao projeto autoral ‘Limítrofe’ no teatro (Foto: Acervo pessoal)