*por Rodrigo Otávio
Entre todas as emissoras de TV aberta, a Band, se fosse uma pessoa, seria alguém da classe média: sem dinheiro sobrando, arriscando pouco por necessidade, mas sempre tentando crescer. Quando erra nas contas, sofre. Quando acerta, se fortalece. E agora parece estar em um momento de ascensão, buscando mais protagonismo. Só neste ano, já anunciou duas novelas — “Beleza Fatal” e “Romaria” —, fez a grande contratação de Galvão Bueno e sua equipe, e tem conseguido bons números com o Campeonato Carioca. Na última semana, a emissora anunciou a contratação de Otaviano Costa, que volta à emissora depois de mais de 20 anos.
Desde 2022, com a chegada de Faustão e a aquisição da Fórmula 1, ficou claro que a emissora do Morumbi queria se reestruturar e se tornar mais competitiva. Se a transmissão das corridas trouxe uma resposta positiva do público, a aposta em Faustão, com um programa caro, não teve o mesmo retorno esperado. Agora, a Band tenta um novo trunfo: Galvão Bueno. O narrador deverá repetir parcerias conhecidas, trazendo para seu novo programa dois ex-companheiros da Globo. Segundo o jornalista Flávio Ricco, Mauro Naves já foi contratado, e Casagrande está próximo de fechar com a emissora. Naves cobriu a seleção brasileira por 31 anos na Globo, enquanto Casagrande comentou ao lado de Galvão por mais de duas décadas. Além deles, um terceiro integrante ainda será definido para compor o time.

Jayme Monjardim confirmou novela na Band, antecipou detalhes da trama e reativação do núcleo de dramaturgia da TV (Foto: Divulgacao/Globo)
Este será o retorno de Galvão Bueno à Band após 45 anos. Ele trabalhou no canal entre 1977 e 1980, antes de fazer história na Globo. Em meados dos anos 90, chegou a se transferir para a Rede OM — que mais tarde se tornaria a CNT —, mas sua passagem foi breve, e ele logo voltou para a Globo, onde permaneceu até 2024.
Apesar de apresentar números sólidos em algumas frentes, a Band enfrenta o desafio de se tornar mais atrativa para os telespectadores. No entanto, a emissora parece determinada a consolidar seu nome. O diretor Jayme Monjardim já garantiu que a emissora voltará a produzir novelas — ainda que em regime de coprodução. Isso não acontecia desde 2008, quando a Band lançou “Água na Boca“, que não teve grande repercussão. Monjardim fará sua estreia no canal com “Romaria“, prevista para outubro de 2025.
Antes disso, em março, a Band exibirá “Beleza Fatal“, fenômeno do streaming da Max. A trama tem 40 capítulos, mas pode sofrer cortes na versão para TV aberta. Essa será a primeira obra nacional exibida na emissora em anos, ainda que não seja uma produção própria.
A exibição de “Beleza Fatal” será estratégica: acontecerá no final do fracasso global “Mania de Você” e no início da exibição de “Vale Tudo“, na Globo. A Band já usou táticas similares no passado. Em 1983, quando a Globo exibia uma reprise de “O Casarão” no horário nobre, a Band anunciou nos jornais: “A novela das oito mudou de canal. Quem não sabe que a Carolina não vai casar com João Maciel? Dia 4, mude de atitude. A Bandeirantes não reprisa emoção, cria.” Na ocasião, “Sabor de Mel” despertou algum interesse, mas não foi páreo para a concorrência, especialmente para “Louco Amor“, de Gilberto Braga.

Sandra Bréa e Clodovil Hernandes em “Sabor de Mel” (Foto: Reprodução)
Agora, a grande incógnita é saber se “Beleza Fatal” e “Romaria” conseguirão bater de frente com as concorrentes, especialmente o SBT, que ainda mantém uma vantagem de mais de um ponto sobre a Band.
Quem vê tamanha ousadia para 2025 nem imagina que a televisão esteve à beira da falência. Em 2019, a emissora fez um acordo com um grupo chinês, o que lhe permitiu se manter viável e sonhar mais alto nos anos seguintes. No entanto, sofreu um novo baque com os altos custos da montagem do programa de Faustão, o que mais uma vez limitou suas finanças. Agora, parece estar em uma onda positiva, apostando em novas produções e contratações de peso para reforçar sua grade.
O desafio da audiência
Atualmente, a Band ocupa o quarto lugar na audiência média em São Paulo, registrando cerca de 1 ponto. No Rio de Janeiro, os índices são um pouco menores, mas ascenderam com a transmissão do Campeonato Carioca. Em 2024, tanto o futebol como o – elogiado – desfile das escolas de Samba de Série Ouro também tiveram seu valor. Em comparação com suas concorrentes diretas, a distância ainda é considerável. A RedeTV! tem uma média diária de 0,3 ponto, enquanto o SBT gira em torno de 2,6 pontos. No entanto, a crise enfrentada pelo canal de Silvio Santos tem resultado em quedas sucessivas nos números, o que pode abrir uma oportunidade para a Band ganhar mais destaque. Ainda assim, nos últimos 15 dias, o SBT tem mantido uma vantagem consolidada.
Veja o comparativo da média-dia:
- 28/01: SBT – 2,8 | Band – 1,2
- 01/02: SBT – 2,4 | Band – 0,9 | RedeTV! – 0,2
- 02/02: SBT – 2,7 | Band – 0,9 | RedeTV! – 0,2
- 03/02: SBT – 3,1 | Band – 1,1
- 04/02: SBT – 2,7 | Band – 1,1
- 05/02: SBT – 2,7 | Band – 1,2

Transmissão do Band Folia. Cobertura de carnaval foi uma lufada de audiências satisfatórias para a Band (Foto: Reprodução)
Os números deixam claro que o desafio da Band não é pequeno. Para se consolidar como uma concorrente mais forte, a emissora precisa elevar sua média diária para pelo menos 1,5 ponto. Uma das estratégias pode ser o fortalecimento do horário nobre, aproveitando a boa audiência do “Jornal da Band”, que frequentemente disputa espaço com o SBT e pode servir como trampolim para alavancar as novas novelas e demais atrações do canal.
Se a Band deseja conquistar um espaço mais relevante no cenário televisivo brasileiro, precisará não apenas de bons produtos, mas também de uma estratégia eficiente para fidelizar o público e aumentar seus índices de audiência. A ousadia das novas apostas sinaliza uma emissora que busca crescimento e reconhecimento, mas a trajetória ainda exige cautela e consistência. O sucesso de “Beleza Fatal” e “Romaria”, assim como a recepção ao retorno de Galvão Bueno, serão determinantes para o futuro da emissora. Se esses investimentos trouxerem os resultados esperados, a Band pode, enfim, começar a reduzir a distância que a separa de suas concorrentes e consolidar sua posição como uma alternativa viável e competitiva na TV aberta.
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