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Azarão no Festival de Cannes! Drama francês sobre imigração “Dheepan” derruba Cate Blanchett e leva a Palma de Ouro!

Com essa premiação, o júri da Seleção Oficial da 68ª edição do festival prestigia a inovação estética e lança os olhos para questões europeias do momento: migração, integração e violência nas periferias das cidades

Publicado em 25/05/2015 | Por Alexandre Schnabl

*Por Flávio Di Cola, diretamente de Cannes, e Alexandre Schnabl, do Rio

Faltou espetáculo na premiação. Como uma espécie de resposta à parcela xiíta do público que bradava contra a submissão do evento ao cinema mainstream norte-americano, a 68ª edição do Festival de Cannes elegeu filmes de nacionalidade francesa como os principais vencedores da Palma de Ouro na cerimônia que premiou o melhor do cinema mundial na visão do júri encabeçado pela dupla de irmãos-cineastas Ethan e Joel Cohen. “Dheepan”, de Jacques Audiard, drama sobre imigrantes na França foi considerado ‘Melhor Filme’, desagradando a turma de cinéfilos que apostavam com fervor na qualidade clássica de “Carol”, o filme de época com temática homoerótica e Cate Blanchett catalisando atenções pela sua atuação como protagonista.

Festival de Cannes 2015: o diretor Jacques Audiard comemora no palco, ladeado pelos seus atores, ao receber a Palma de Ouro por "Dheepan" (Foto: Divulgação)

Festival de Cannes 2015: o diretor Jacques Audiard comemora no palco, ladeado pelos seus atores, ao receber a Palma de Ouro por “Dheepan” (Foto: Divulgação)

O resultado ainda desagradou em cheio a imprensa italiana, que via seu país como protencial candidato aos prêmios principais, com o vencedor do Oscar de ‘Melhor Filme Estrangeiro’ Paolo Sorrentino – de “A grande beleza”, apontado como um dos favoritos por seu “Youth” – ou creditando a excelência da sua produção cinematográfica através da boa repercussão da fábula fantástica dirigida por Matteo Garrone“Il racconto dei racconti” – fora do páreo de apostas, mas encantador na opinião dos críticos.

Michael Caine e Harvey Keitel estrelam "Youth", de Paolo Sorrentino: derrota italiana em Cannes desagradou parte da imprensa (Foto: Divulgação)

Michael Caine e Harvey Keitel estrelam “Youth”, de Paolo Sorrentino: derrota italiana em Cannes desagradou parte da imprensa (Foto: Divulgação)

Embora exótico, “Dheepan” é apenas o nome de um imigrante do Sri Lanka (antigo Ceilão) que migra para a França a fim de reconstruir a sua vida depois de penar no seu país de origem imerso em guerras internas. Para facilitar a sua entrada na Europa como refugiado, Dheepan constitui uma família “postiça” com mulher e filha para acabar se defrontando com questões de adaptação num contexto social explosivo comoos bairros da banlieu de Paris já saturados de imigrantes. Outro prêmio concedido a uma obra de forte cunho social foi a conquistada pelo veterano ator Vincent Lindon na categoria ‘Interpretação Masculina” em “La loi du marché” sobre a crise do mercado de trabalho abordado com um olhar quase documental.

Confira abaixo um trecho de “Dheepan”, cujo ttrailer ainda nem está disponível (Reprodução):

O prêmio de ‘Melhor Direção’ foi para o chinês Hou Hsiao-Hsien por “The assassin”, dispendioso drama histórico ambientado na China do século IX que tomou 10 anos da vida do diretor para se concretizarnas telas. A atriz francesa Emmanuelle Bercot (também diretora do filme que abriu o destival, “La tête haute”) dividiu o prêmio de ‘Interpretação Feminina’ com a americana Rooney Mara, respectivamente pelos filmes “Mon roi”, também dirigido por uma cineasta, Maïwenn, e “Carol”, elegante drama gay ambientado na Nova York do anos 1950 dirigido por Todd Haynes. O filme-provocação do festival, “The lobster”, do diretor grego Yorgos Lanthimo, que chamou a atenção por sua originalidade e sarcasmo, mas cujo radicalismo não dispensou do elenco nomes consagrados do establishment cinematográfico como John C. Reilly, Colin Farrell, Rachel Weisz e Léa Seydoux acabou levando o Prêmio do Júri.

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Todo grande balneário tem a sua passarela, como o Rio tem a Av. Atlântica, e onde rola o mais democrático trottoir. Em Cannes, é na Croisette – em cuja extremidade oeste fica o Palácio dos Festivais que é possível encontrar pessoas e situações um pouco diferentes das manjadas caras-com-crachá que HT viu nestes 12 dias seguidos de festival. Vamos dar uma última pinta por ali? Confira abaixo (Fotos: Flávio Di Cola): 

Camelô da crise: o senegalês que está ilegalmente na França e agora vende chapéus, óculos de sol e paus de selfie, reclama de tudo:
“Os turistas não estão comprando quase nada e este sol nem na África!”

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Ambulante no calçadão: sim, a crise está braba e vale vender de tudo para driblar o estômago roncando, até pau de selfie

Cannes, capital da pelle nuda: os postais de Cannes promovem as tentações típicas de um balneário lindo, quente e charmoso.  Mas é o Rio de Janeiro e Salvador que acabam levando a fama de cidade devassa.

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Como em Hollywood (quase): o tour no trenzinho pelo circuito das estrelas dura uma hora, tempo suficiente para você perceber que pagou um mico.

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Tem areia na pipoca: os duros não foram esquecidos pelos organizadores do festival. Em todas as noites, às 21h, rolou sessão grátis na programação do Cinéma de la Plage.

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Diva moments! Um rosto para não esquecer : o sorriso de Ingrid Bergman iluminou cada loja e vitrine de Cannes.

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Momento-mico: Naomi Watts e Matthew McConaughey fazem a linha “desconsolados” nas entrevistas pós-vaia generalizada da sessão de gala de “The Sea of Trees”, nova produção de Gus Van Sant, outrora queridinho do festival.

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Hora do rush : nem dando muitas voltas no quarteirão se conseguia uma vaga para estacionar no Le Vieux Port de Cannes durante as semanas do festival.

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Cinéfila Blue Jasmin: a cansativa prática de ficar na saída do Palácio dos Festivais para descolar sobras de convites não desanimou a bem-humorada fã de Woody Allen.

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Sorriso Colgate: muita gente pensou que elas estavam panfletando na Croisette para o filme “Duas garotas num conversível”, mas estavam mesmo a serviço de uma empresa de telefonia

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Pra frente, Brasil!: embora o nosso país não tenha emplacado nenhum filme nas seleções oficiais competitivas,a bandeira brasileira tremulou bonita no Village International da Croisette, um dos vários mercadões de filmes de Cannes.

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E, na fraca presença do Brasil na competição e no red carpet, nada como tirar casquinha do festival e prestigiar marca de cerveja gringa em rega-bofe com viagem paga. Gracinhas como Thaila Ayala, Paloma Bernardi e Milena Toscano merecem esse mimo, não é mesmo?

Cannes com sua presença fulgurante  (Foto: Felipe Panfili / Divulgação)

Beldades brazucas iluminaram Cannes com sua presença fulgurante no almoço-degustação da Stella Artois (Foto: Felipe Panfili / Divulgação)

Confira abaixo a lista completa dos laureados que mostra a hegemonia do cinema da França nesta edição do festival e o naufrágio total das esperanças da Itália e dos seus fortes candidatos:

Palma de Ouro (Melhor Filme): “Dheepan”, de Jacques Audiard

Grande Prêmio do Júri: para o filme “Saul Fia” (Le fils de Saul), de László Nemes

Prêmio de ‘Melhor Direção’: Hou Hsiao-Hsien por “The assassin” (Nie yinniang)

Prêmio de ‘Melhor Roteiro’: Michel Franco por “Chronic”

Prêmios de ‘Interpretação Feminina’: Emmanuelle Bercot por “Mon roi” e Rooney Mara por “Carol”

Prêmio de ‘Interpretação Masculina’: Vincent Lindon por “La loi du marché”

Prêmio do Júri: “The lobster” de Yorgos Lanthimos

Melhor Primeiro Filme: “La tierra y la sombra” de Cesar Augusto Acevedo

Palma de Ouro de Curta-Metragem: “Waves’98” de Ely Daghier

Palma de Honra : para a diretora francesa Agnès Varda

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