Autoras de Encantado’s e do especial “Coisa de Novela” estão sendo cotadas para assumir horário das 19h


Thais Pontes e Renata Andrade, criadoras da bem-sucedida série Encantado’s, estão cotadas para escrever uma novela na TV Globo. A dupla participou de uma oficina de desenvolvimento voltada para o horário das 19h, com mentoria da experiente autora Thelma Guedes. Ambas revelam que escrever uma novela é o principal sonho profissional. Recentemente, assinaram o especial ‘Coisa de Novela’, exibido na Sessão da Tarde, reforçando sua conexão com a teledramaturgia. O sucesso e a representatividade de Encantado’s, com elenco majoritariamente negro e trama ambientada no subúrbio carioca, consolidam a trajetória das autoras. Com mais de 30 anos de amizade, Thais e Renata unem afeto, técnica e visão social na criação de suas histórias. A expectativa agora é que essa parceria chegue ao horário nobre da dramaturgia brasileira

*por Vítor Antunes

Uma das séries de maior êxito recente da TV Globo, já a caminho de sua terceira temporada, é Encantado’s. Criada por Thais Pontes e Renata Andrade, a produção conquistou crítica e público, consolidando o nome de suas autoras como promissoras candidatas à cobiçada posição de roteiristas do horário das 19h. É o que revela Thais: “Essa é uma grande vontade das duas. A Globo nos deu a oportunidade de participar ano passado de uma oficina de desenvolvimento e aceleração de autores de novela, voltada para o horário das 19h. Tivemos a mentoria da Thelma Guedes nesse processo e saí com ainda mais vontade de colaborar em novela e, no futuro, quem sabe, ser titular. Sei que é um trabalho árduo, mas quero muito entrar nessa. Eu e Renata compartilhamos dessa vontade e conversamos bastante sobre isso e sobre ideias. Estamos trabalhando.”

A aspiração é compartilhada por Renata, que resume com emoção o significado pessoal desse sonho: “Nós temos muitos sonhos profissionais, mas escrever novela, sem dúvida, é o principal deles. Cresci assistindo e cada uma delas marca muito profundamente momentos da minha vida. Sempre me interessei em contar esse tipo de história e tão logo entrei na Globo, estabeleci isso como meta. Eu e Thais conversamos muito a respeito, temos algumas ideias já pensadas e torcemos muito para que elas ganhem vida um dia”.

Thais e Renata celebraram um novo marco: a exibição de um especial na faixa da “Sessão da Tarde”, intitulado “Coisa de Novela”, estrelado por Susana Vieira e Valentina Herszage. Parte das comemorações pelos 60 anos da Globo, o projeto nasceu a partir de uma ideia da roteirista Lívia Leite, como explica Thais: “A ideia original surgiu da Lívia  – uma das roteiristas – que queria falar dessa relação de avó e neta e do sonho dessa avó conhecer a Globo. A partir dessa ideia base, criamos o argumento e escrevemos o filme em trio. Foi um processo incrível de muita troca, diversão e lembranças afetivas relacionadas à televisão e às nossas avós. Acho que isso foi o mais legal: apesar do trabalho duro, a gente se divertiu muito criando e escrevendo essa história”.

Thais Pontes acredita que a ocupação de espaço é o que vai fazer diferença para artistas negros (Foto: Divulgação)

O especial também foi uma forma de revisitar o próprio afeto pela teledramaturgia, como destaca Thais: “O longa é ‘Uma Noite no Museu’, dentro da Globo. Eu sou uma noveleira de base,  raiz mesmo. Então escrever “Coisa de Novela” foi um presentão para aquela criança telespectadora que hoje é autora. A gente não precisou de pesquisa externa. A pesquisa veio do vasto repertório noveleiro do trio. O filme tem muitas referências de novelas, cenas, personagens e diálogos marcantes. Enfim, foi um processo muito divertido e feliz.”

Questionadas sobre a responsabilidade de criar um filme que homenageia a própria empresa na qual trabalham, ambas foram unânimes em afirmar que receberam liberdade criativa total. Para Thais, o convite foi mais estímulo do que pressão: “Pelo contrário, nos deixaram bem livres para criar e pirar. O convite foi recebido como uma responsabilidade, claro, mas também com muita alegria. A Globo faz parte do cotidiano brasileiro, milhares de pessoas sonham ver de perto esse lugar meio mítico que são os Estúdios Globo. Com o filme, a gente coloca a lente do humor, do afeto e da fábula e leva o público pra conhecer esses bastidores. Terminei o trabalho ainda mais fã. Sair de um trabalho amiga da Susana Vieira não é pouco. Pra mim, já valeu”, diverte-se.

Estou na Globo há quase 7 anos, amo o que eu faço e ter a oportunidade de falar em um filme de uma paixão nacional foi um privilégio. Coisa de Novela foi, sem dúvida, um compromisso que eu abracei com muita vontade, com muito carinho e muito respeito. É um filme feito por pessoas muito apaixonadas por novelas e, sobretudo, por contar histórias. Prestar essa homenagem à empresa foi uma responsabilidade e tanto, mas eu acredito que a gente fez o dever direitinho – Renata Andrade

Thais Pontes e Renata Andrade, autoras de “Coisa de Novela” também são as autoras de “Encantado’s” (Foto: Divulgação)

TELA ENCANTADORA

Com “Encantado’s”, uma das produções mais elogiadas da TV Globo nos últimos anos, um dos elementos que mais chamou a atenção desde o início foi o elenco majoritariamente composto por pessoas negras e oriundas das periferias urbanas. A presença desses corpos e vozes em posições de protagonismo, embora celebrada, também gera críticas por parte de alguns espectadores, que alegaram um suposto excesso de militância ou uma abordagem panfletária. Diante dessa tensão entre representatividade e narrativa, surge a pergunta: como equilibrar esses registros sem comprometer a potência da mensagem? Para Thais, o caminho está na naturalização da presença negra dentro e fora das telas. É preciso naturalizar as nossas presenças tanto atrás das câmeras como na frente delas. Do mesmo jeito que eu não preciso escrever só sobre raça, os projetos com atores negros não precisam ser só sobre racismo, dor, sofrimento. Acho que partindo desse ponto, tudo fica muito mais fácil. Trazer o protagonista negro é fundamental, é urgente, é potente e acho que aos poucos essa virada está acontecendo. O importante agora é amplificar as presenças, os olhares, os lugares e criar novos imaginários. Eu tenho muita gratidão pelo que já foi feito, orgulho do que está sendo construído e bastante esperança no que está por vir.”

Renata compartilha da mesma visão e reforça a ideia de que a ocupação de espaços por profissionais negros não deve se limitar à tematização da dor. A série, segundo ela, consegue inserir as questões raciais dentro da estrutura da comédia, fazendo da leveza uma ferramenta política. “A partir do momento em que a gente dá protagonismo para atrizes e atores negros sem se render a estereótipos, a gente já cumpre isso. Por outro lado, não há ainda como falar de um projeto com presença majoritariamente negra sem passar minimamente pelos aspectos raciais. Só nós sabemos o que é ser negro no Brasil e quais coisas temos de lidar cotidianamente, mas, na série, escolhemos tratar disso de um outro jeito. Encantado’s é, antes de tudo, uma série de humor e isso eu e a nossa equipe trazemos as questões raciais a serviço do gênero. A situação surge contextualizada à trama, nossos protagonistas reagem comicamente e, ao mesmo tempo, passam o recado. Todo mundo entende. Não é panfletário. É pela ótica do humor”.

Renata Andrade e Thais Pontes as criadoras da série ‘Encantados’, e suas famílias (Foto: Divulgação)

Além da abordagem cuidadosa das questões identitárias, “Encantado’s” também mergulha de forma afetiva e autêntica no universo das escolas de samba — uma paixão comum às duas autoras e que perpassa suas memórias mais íntimas. Para Thais, o samba está diretamente ligado à sua formação pessoal: “Uma das paixões em comum minha e da Renata é o samba e as escolas de samba. Minha mãe tinha o hábito de fazer minhas fantasias e, desde pequena, me levava para os blocos, para os desfiles de rua e para ver os carros alegóricos. Uma das minhas lembranças de infância é dela colocar o colchão na sala e fazer cachorro-quente para assistirmos juntas os desfiles na TV madrugada afora. Essas memórias, de alguma forma, vão alimentando a criação também. De cara, sabíamos que queríamos falar de escolas de samba, mas não as escolas de samba da Sapucaí. A gente queria sair dos holofotes e falar dos desfiles da Intendente Magalhães, que é chamada de Passarela do Povão e é o berço de grandes estrelas do carnaval”.

Renata, que cresceu próxima à Estrada Intendente Magalhães, reconhece o lugar como parte essencial da sua vivência e inspiração: “É onde a Joia do Encantado, escola de samba da série, desfila. Sempre foi um hábito meu e da minha família assistir tanto aos desfiles quanto aos ensaios que acontecem ali. Eu e Thais frequentávamos sempre e quando criamos Encantado’s, não tivemos dúvida de que o Carnaval da Intendente seria uma das arenas da nossa série. O mergulho para escrever para esse universo foi um mergulho interno”. Esse “mergulho interno”, como ela define, está diretamente vinculado à experiência de viver o subúrbio não como observadora, mas como alguém que o habita em sua totalidade — com suas dores, alegrias, contradições e beleza.

Eu sou suburbana raiz. Sou de Oswaldo Cruz, mas minha vida toda foi também passando por Madureira, Marechal Hermes, Méier, Cascadura… Minha identidade foi toda construída lá e eu, sem dúvida, trago isso para o meu trabalho. Além disso, minha família mora no subúrbio e assim eu preservo essa conexão e minhas raízes. Faz diferença, sim, mas acho que um profissional que acredita na história que vai contar, consegue se apropriar dessas vivências. Foi o que aconteceu com os redatores finais Antonio Prata e Chico Mattoso, paulistanos com origens muito diferentes das nossas. A mesma coisa aconteceu com a Hela Santana, baiana que mora em São Paulo. Nos tornamos esse grupo harmônico que contou essa história suburbana com muita propriedade, até porque ela não é uma vivência exclusivamente carioca. É uma vivência brasileira – Renata Andrade

Renata Andrade e Thais Pontes, durante as gravações de “Coisas de Novela” (Foto: Divulgação)

AMIZADE

Thais Pontes e Renata Andrade cultivam uma amizade que atravessa décadas. São quase 30 anos de convivência, afeto e cumplicidade — uma trajetória que começou muito antes da parceria profissional que hoje vem ganhando reconhecimento no mercado audiovisual. Essa longa história em comum, construída com base na confiança e na admiração mútua, tornou-se também um dos pilares do processo criativo que compartilham como roteiristas.

Quando se trata do método de trabalho, não há rigidez na divisão de tarefas. A colaboração entre elas é orgânica e absolutamente integrada, com cada etapa sendo realizada de forma conjunta — do desenvolvimento dos argumentos à elaboração da escaleta e dos diálogos. Para Thais, a intimidade pessoal fortalece diretamente o entrosamento criativo: “A amizade só fortalece o nosso trabalho. Fizemos as contas outro dia e a gente se conhece há quase 30 anos. É muito tempo… Já passamos muitas coisas legais e, principalmente, muitos perrengues juntas. Acho que conseguimos trazer essa base da confiança e da intimidade para o processo de trabalho. A gente torce uma pela outra. Isso ajuda muito. Fora que, para além da amizade, eu admiro muito a Renata como profissional. Somos pessoas completamente diferentes, mas temos um olhar parecido para a vida e muito comprometimento com o trabalho. Isso ajuda muito no dia a dia da profissão”.

Renata compartilha dessa percepção e reforça a natureza colaborativa da parceria, destacando a ausência de vaidade e a presença de uma escuta ativa e generosa entre as duas: Quando estamos juntas criando, pensando possibilidades de histórias e, de fato, pondo a mão na massa, fazemos um pouco de tudo. “Não há nada feito exclusivamente por uma ou por outra. Debatemos e fazemos tudo: o argumento, a escaleta, os diálogos, tudo. A nossa parceria dá certo primeiro porque a gente tem uma relação de profunda confiança e admiração e porque sabemos como podemos ser complementares. Tem dado certo e eu acredito que ainda vamos criar muitas outras histórias juntas”.

Renata Andrade é cria do subúrbio (Foto: Divulgação)

O sucesso dessa colaboração está justamente na harmonia entre as diferenças e na comunhão de propósitos. Embora tragam bagagens e perspectivas individuais, Thais e Renata compartilham o mesmo compromisso com a narrativa e a sensibilidade necessária para escutar a outra, abrir mão de uma ideia em nome de algo maior e confiar no processo coletivo. O resultado é uma escrita coesa, vibrante e com identidade própria — uma fusão rara entre técnica, afeto e visão de mundo.

Thais e Renata escrevem como quem costura memória, amizade e sonho numa mesma trama. São autoras de uma escuta generosa e de uma imaginação afiada, que aprenderam desde cedo que contar histórias é também um jeito de ocupar espaços e de ampliá-los. Com o brilho de Encantado’s, o calor de Coisa de Novela e o desejo confesso de um dia assinarem uma obra no horário nobre, elas seguem pavimentando seu caminho na dramaturgia brasileira com a leveza de quem sabe rir, a firmeza de quem sabe o que quer e a doçura de quem, mesmo diante dos holofotes, ainda conversa como se estivesse na calçada de casa. O futuro, como elas mesmas escrevem, já parece começar com um samba ao fundo e uma ideia na ponta do lápis.