*por Rodrigo Otávio
No início dos anos 1990, a TV Globo elaborava a ideia de abrir o ano de 1991 com minisséries. Três projetos chegaram a ser anunciados, mas só dois — “Meu Marido” e “O Portador” — efetivamente foram ao ar. Antes deles, planejava-se exibir “A Cilada”, escrita por Cassiano Gabus Mendes (1927-1993) e dirigida por Roberto Talma (1949-2015), com um elenco que reunia Cássio Gabus Mendes, Beatriz Lyra, Alexandre Lippiani (1964-1997), Adriana Esteves e Nena Camargo. O projeto foi gravado e arquivado, mas acabou soterrado por razões nunca plenamente esclarecidas. Segundo fontes, permanece guardado no acervo da emissora, ainda não digitalizado e indisponível para acesso online.
“A Cilada” marcaria também o retorno mais rumoroso de Darlene Glória, hoje com 82 anos e afastada das telas desde meados dos anos 1970, quando abandonou a carreira artística, converteu-se à religião evangélica e passou a se apresentar como Helena Brandão, nome de casada que adotou inclusive ao participar da novela “Carmem”, exibida pela Rede Manchete em 1987. Na trama, viveria uma cantora de cabaré e ex-atriz de pornochanchadas cuja conversão religiosa estava prevista para o capítulo 80, mas acabou empurrada para o 101. Haveria ainda uma recaída alcoólica no capítulo 105, suprimida quando Darlene se recusou a gravar a cena e propôs, em substituição, uma sequência edificante na qual a personagem resistia à tentação enquanto lia um salmo.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, “A Cilada” permanece um objeto inacabado: gravada, porém não finalizada nem sonorizada. A direção da emissora não teria gostado da série, o que motivou seu engavetamento. Ainda que a Globo não tenha respondido aos contatos da reportagem, em outra ocasião, contudo, ao ser questionada pelo site Heloisa Tolipan sobre obras censuradas como “Despedida de Casado” e “Roque Santeiro” (1975), a plataforma Globoplay informou que apenas produções efetivamente exibidas entram no catálogo — o que torna remota, a hipótese de resgate desta trama.
A Gloria me roubou 20 capítulos na conversão, não foi correta comigo no nosso trato. E agora a Ester está aparecendo bem menos. No capítulo 101, a autora ficou triste porque na hora da conversão eu fiquei possessa. Mas, como Gloria me devia 20 capítulos, eu assumi a libertação.

Darlene Glória seria um personagem de destaque em “A Cilada” (Foto: Divulgação)
Após “Carmem”, Darlene Glória voltaria a ocupar posição de destaque em “A Cilada”, aposta da TV Globo para abrir sua temporada de minisséries antes de “Meu Marido”, levada ao ar apenas em maio de 1991. A produção foi concluída e entregue na segunda metade de 1990, quando ambos já acumulavam novas incumbências: Cassiano iniciaria a novela “Meu Bem, Meu Mal” para o horário nobre; o diretor mergulharia nas gravações de “Perigosas Peruas”, cuja estreia acabaria empurrada para o ano seguinte.

Cassiano Gabus Mendes é o autor de “A Cilada” (Foto: Reprodução/Memória Globo)
Contratada pela Globo, Darlene acabou reaparecendo somente no fim daquele ano de 1991, em “Araponga”, já reconciliada com o nome artístico que a consagrara e definitivamente afastada da identidade de Helena Brandão. Nos bastidores, a reviravolta profissional coincidiu com outra, bem menos midiática: o marido, Marcos Brandão, deixara-a por uma mulher de vinte anos. Hoje, aos 82 anos, Darlene vive reclusa. Sua última novela foi “Os Mutantes“, em 2009
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