Atriz de ‘Arcanjo Renegado’, Larissa Nunes quer romper estereótipos de ‘favela movie’ e a forma de retratar periferia


Atriz integra uma geração que busca ressignificar o chamado “favela movie”, substituindo estereótipos por narrativas enraizadas na verdade das comunidades. Em seus trabalhos, ela defende o compromisso e o respeito com as pessoas retratadas, refletindo uma arte política e consciente. Larissa protagoniza o longa-metragem “Por Nossa Causa”, de Sérgio Rezende – sobre mulheres, política e ideais e ainda na série de comédia “Clube Spelunca” para HBO Max e TNT Brasil. Uma fase de amadurecimento criativo, explorando novas camadas da própria identidade

*por Vítor Antunes

Depois de “Cidade de Deus”, o termo “favela movie” passou a designar, sobretudo no olhar estrangeiro, um subgênero brasileiro: produções ambientadas nas favelas, frequentemente marcadas por uma estética da violência e por estereótipos sociais. Hoje, esse conceito é revisto – e há quem queira ressignificá-lo. Uma das vozes nesse movimento é a da atriz Larissa Nunes. “Eu acho que o termo “favela movie” acaba sendo muito usado para trazer uma ideia de gênero, desses filmes que são ambientados em comunidade e em periferia. Isso é muito mais uma questão de quem está fazendo essas histórias do que exatamente se deve ser feito ou não, porque esses ambientes existem. Eles são vivos, cheios de história e de gente que também sabe contar a própria história”, pontua.

Para Larissa, boa parte dessa revisão de olhar sobre a comunidade nasce de iniciativas como AfroReggae – idealizadora e coprodutora da série “Arcanjo Renegado”, exibida no Globoplay, em cuja próxima temporada ela interpreta papel de destaque. “AfroReggae é uma produtora audiovisual que foi oriunda de uma ONG e que tem uma atuação de mais de 30 anos nas favelas do Rio de Janeiro. E ela tem uma coisa muito específica, que é a verossimilhança. Então, para se fazer um filme dentro de qualquer comunidade, você precisa ter é comprometimento com as pessoas daquela comunidade e respeito. Isso é a base para se contar qualquer história e é o que vemos na AfroReggae”.

A gente ainda precisa dar nome a essas favelas, ao contexto, saber quem é quem dentro daquela comunidade. Então, eu acho que esse cuidado, respeito, compromisso são premissas para quem fala sobre o cinema dentro da periferia ou discute cinema periférico. Para mim isso é muito imprescindível – Larissa Nunes

Larissa Nunes em “Arcanjo Renegado” (Foto: Divulgação/Globo)

O momento é fértil para Larissa Nunes. Entre gravações, estreias e festivais, ela parece atravessar uma fase de consagração. “Eu estou em um momento da minha carreira muito, muito importante no sentido de muitas estreias e que finalmente a gente está conseguindo agora estrear e compartilhar com o público. Desde o início do ano, eu me dediquei muito ao teatro e a trabalhos no audiovisual. Eu estreei no Festival do Rio o longa-metragem “Por Nossa Causa”, do Sérgio Rezende, e que eu protagonizo ao lado da Denise Weinberg, que foi muito especial de fazer – sobre mulheres, sobre política, ideais. Além deste, recentemente, estreou uma série de comédia chamada “Clube Spelunca” para HBO Max e TNT Brasil.”

LIRA PAULISTANA 

Nos últimos anos, a Globo vem estimulando entre suas emissoras e afiliadas a produção de telefilmes regionais, gravados com artistas locais. Um desses projetos, atualmente em fase de finalização, é o telefilme produzido em São Paulo, dirigido por Christian Duurvoort, que marca a estreia do diretor em um trabalho solo e traz Larissa Nunes no papel principal.

“O Christian me apresentou o projeto de fazer um filme dirigido pela primeira vez sozinho. A minha personagem é a protagonista, uma jornalista muito dedicada, workaholic, que tem vizinhos, moradores da Santa Cecília que sofrem com um incêndio numa pensão, e ela vai atrás de justiça por essas pessoas, que foram negligenciadas depois do incêndio. A gente fala muito sobre gentrificação na cidade, sobre urbanização, o dia a dia das pessoas de São Paulo, o corre-corre, como a galera se ajuda”. O enredo busca retratar um outro tipo de São Paulo – uma cidade menos endurecida, mais solidária, feita de pequenas alianças entre os que dividem o peso da rotina.

Por mais que as pessoas achem que ‘não exista amor em SP’, a gente tem esse intuito de trazer no filme a solidariedade mesmo, que existe entre as pessoas, das mais diferentes classes sociais e realidades, mas principalmente a galera trabalhadora que se ajuda, mesmo quando não tem, mesmo quando precisa de ajuda. Enfim, é um filme muito bonito que eu fiz, que ano que vem a gente vai estrear na TV Globo – Larissa Nunes

Larissa fala de São Paulo com o afeto de quem a observa por dentro, e com o espanto de quem a reaprende a cada esquina. “Eu acho que São Paulo cada vez mais me mostra como é possível uma cidade dedicada ao trabalho. As pessoas vêm para morar, trabalhar, ganhar a vida. Eu acho que a gente perde um pouco esse sentido de que São Paulo também é humanizada. Até porque é feita de gente assim de todos os cantos e lados. É uma cidade plural, diversa. A gente precisa ressignificar mesmo o que sempre acreditou que São Paulo fosse. Sair do estereótipo do paulistano. E estamos vivendo um momento bem interessante na dramaturgia, porque as novelas começam a se voltar de novo para São Paulo, trazendo esse novo olhar”.

A ALMA DAS COISAS

Um dos últimos trabalhos de Larissa Nunes é o longa “Por Nossa Causa”, dirigido por Sérgio Rezende e apresentado no Festival do Rio. O filme, que também conta com Denise Weinberg no elenco, aborda o encontro entre duas mulheres de gerações, origens e raças distintas. “Hoje se aprende muito com os nossos contrastes. As personagens do filme me trazem um tipo de força que eu acho extremamente necessária para uma pessoa preta: a de não ter medo do próprio ponto de vista, de questionar, de instigar o seu redor. Então, a política vem muito dentro desse comportamento”.

Larissa Nunes: “Minha arte é política” (Foto: Balbinox)

O pensamento político, para Larissa, não se limita ao discurso. Ele se manifesta nas escolhas artísticas. “Eu tenho para mim que, quanto mais o mundo vai para os extremos, menos a gente tem possibilidade de fazer algo efetivo na política, na cultura, nos nossos direitos. Então, eu tenho muito observado qual é a dimensão prática do meu discurso. E hoje, é assim que eu considero as minhas escolhas na arte. Elas são escolhas políticas. Eu sei que existe um propósito muito objetivo quando eu faço arte, sendo uma pessoa preta. O nosso trabalho revela muito dos nossos ideais, porque existe uma permissão para você fazer aquilo e com responsabilidade”.

A atriz reflete sobre a identidade como ponto de partida, não como limite. “Ser uma atriz preta é ser uma atriz preta, ponto. Eu decido e vivo as coisas a partir disso. Eu sou uma atriz que tenho feito trabalhos muito diferentes entre si, e eu me permito ser diferente em cada personagem. Eu tenho essa sensação de que a maturidade – eu vou fazer 30 ano que vem – é também muito sobre entender que o meu tempo vai ter o seu próprio desenrolar. Que cada carreira é um organismo vivo. Eu sou uma pessoa que não sabe de tudo, eu estou sempre aprendendo, mas eu também nunca estou de mala vazia, porque as pessoas não podem desvalidar a lição que você já aprendeu. Essas são as coisas que têm me motivado a ser a atriz que eu sou hoje e ser uma atriz, ponto. E eu luto muito por isso, por conta de a gente também estar toda hora tendo que se definir. Eu sou uma atriz que se desafia a se transformar sempre. E essa é a minha contribuição principal, sendo a pessoa que eu sou – e sim, uma pessoa preta”.

“Em algum momento da história foi necessário me afirmar atriz preta” (Foto: José de Holanda)

Larissa reconhece a importância dos discursos afirmativos, mas recusa o enquadramento. “Hoje eu estou muito preocupada no que eu posso fazer a partir disso. A gente não é só trabalho, a gente é vida pessoal, é crença, é ideal. Então, eu queria que as pessoas, que o público pudesse me ver para além do meu ofício e ver também esse ser humano, artista, essa mulher que eu estou me tornando”.

Para ela, a presença crescente de mulheres e artistas negros na cena é resultado de um movimento histórico e coletivo. “Eu acho que eu faço parte de um movimento muito complexo. Para que eu estivesse aqui hoje falando com vocês, a Taís Araújo teve que estar e passar por tudo que ela passou, e outra atriz teve que avançar, uma terceira teve que parar, a outra engravidou e foi se dedicar à família, o outro ator preto tentou ir, mas não conseguiu, o outro faleceu no meio do caminho, o outro esteve, ganhou tudo, perdeu tudo e agora está de um jeito. Todos os movimentos, os avanços, os recursos – tudo isso é movimento e me faz chegar até aqui. E todos os meus movimentos também vão reverberar nas outras pessoas. Então, eu não comparo a minha trajetória com a de nenhuma atriz contemporânea a mim, justamente porque cada trajetória é muito única. E o público precisa reconhecer trajetórias únicas, particulares, porque são artistas diferentes, momentos diferentes, e que, sim, pertencem a um grande movimento que está acontecendo. É importante reconhecer coletivamente o que significa isso, mas é muito importante lembrarem dos nossos nomes.”

Formada pela Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo, Larissa não vê a formação acadêmica como determinante, mas reconhece seu papel. “A formação do artista sempre é muito múltipla. Existem artistas incríveis que sequer passaram pela academia, outros para quem a academia foi essencial para se tornarem quem são e serem referências para nós hoje. Então, eu tenho uma visão muito mais autoral do que cada artista vai considerar. Isso me formou. A formação é múltipla. Eu concordo que o acesso à universidade, o acesso à academia, quando é uma escolha, precisa ser uma escolha facilitada – e é isso que o nosso país ainda falta muito oferecer com o ensino artístico”.

“O ensino precisa ser um acesso para todo mundo, mas ele também é escolha” (Foto: José de Holanda)

Há em Larissa Nunes uma consciência rara: a de quem entende que existir é também um ato político – e que a arte, quando nasce do corpo e da vivência, torna-se testemunho. Seu percurso parece guiado por um desejo silencioso de permanência, não no sentido da fama, mas da relevância: deixar no mundo algo que respire depois do aplauso. Ao falar das favelas, de São Paulo, da própria pele, ela amplia o vocabulário do que pode ser chamado de cinema brasileiro. Sua trajetória não se faz de rótulos, mas de presenças – a atriz que se transforma sem se diluir, que entende o tempo não como ameaça, mas como matéria. E talvez seja isso o que define Larissa: uma mulher que se reinventa sem alarde, mas com a força de quem sabe que cada gesto, cada escolha, cada silêncio é também uma forma de permanecer.