*por Vítor Antunes (com colaboração de Sebastião Uellington Pereira)
Uma novela que marcou uma geração de crianças por conta de uma abertura bem-humorada — e, ao mesmo tempo, gerou controvérsia por ser considerada pouco adequada ao público infantil. Uma protagonista que pediu para sair, outra que adoeceu, um casamento criativo que não se sustentou entre diretor e autor. Assim se desenharam os bastidores turbulentos de “Vira Lata”, produção de 1996 ,que retorna 30 anos depois ao Globoplay, carregando consigo não apenas a memória afetiva, mas também o rastro de suas próprias fraturas.
A trama sofreu mudanças significativas ainda em curso, com substituições no elenco e reconfiguração de personagens — uma espécie de novela paralela que se desenrolava fora da tela. O autor Carlos Lombardi diz: “Aprendi algo com ‘Vira Lata’: a bater mais o pé nas escalações. Eu achava que a novela estava mal escalada e percebi isso, infelizmente, no final do primeiro capítulo. Meu colaborador estava ao meu lado e disse: ‘Cara, isso é Lombardi no máximo’. Eu falei: ‘Não, deu tudo errado’. No final do primeiro capítulo me veio muito claro que eu devia ter insistido mais na escalação, que estava errada. Adoraria dizer que no dia seguinte, quando fui escrever o próximo capítulo, tudo veio na minha cabeça, mas demorei para ajustar a trama. Escrevi a novela arrastando, indo para frente com dificuldade. Mas, aí, achei um plot para centralizar a história e recomeçar a novela. Demorei dois meses para conseguir isso. Primeiro, o Jorge Fernando (1955-2019) saiu da direção – e nós estávamos em ritmos diferentes”.

Gloria Menezes foi uma das protagonistas de “Vira Lata” (Foto: Arquivo Globo/Reprodução)
A dissintonia entre autor e direção não era exatamente um segredo de bastidor. Em 27 de junho de 1996, a Tribuna da Imprensa registrava o mal-estar: “Carlos Lombardi está triste com o diretor Jorge Fernando. O autor só topou escrever esta novela com a condição de que Jorge fosse o diretor, e (…) Fernando se mantém à distância”. O relato sintetiza uma tensão que atravessou a produção.
Felicidade de uns é tristeza de outros. E eu nunca tento agradar a todos, porque sei que não dá certo. Tentar agradar a todos é como comer o strogonoff que dormiu fora da geladeira. Eu sei que, como autor, agrado a uns e desagrado a outros. E como a TV ainda é de graça, as pessoas não valorizam tanto – Carlos Lombardi
Em entrevista a O Globo, Lombardi ofereceu uma espécie de teoria prática do ofício: “Uma novela só existe, de fato, quando entra no ar. A gente nunca sabe o que vai acontecer. O autor escreve de acordo com o que vê e recebe no ar”. A mesma reportagem observava que as tramas incendiárias do autor lhe renderam a fama de excêntrico. Ele relativizava: “Eu sou uma das pessoas mais caretas que conheço — assegura Lombardi. — Chego a ser desagradavelmente careta, mas tenho uma imaginação louca. E meu ponto de vista sobre as coisas é bem irônico”.
A instabilidade também atingiu o elenco. “A Andréa Beltrão ficou doente e precisou se afastar. Foi aí que eu encontrei a personagem da Carolina Dieckmann, que virou a mocinha. O tom da novela mudou com a assinatura do Rogério Gomes (Papinha) na direção. Facilitou muito”, disse Lombardi. Antes disso, o autor cogitara Malu Mader para o papel principal, enquanto Boni defendia o nome de Débora Bloch. A escolha final, no entanto, não resultou em harmonia: Lombardi e Beltrão não estabeleceram uma relação fluida durante a produção. No livro A Seguir, Cenas do Próximo Capítulo, ele chegou a classificar a atriz como “chata”. Algo na mesma direção aparecia em reportagem do Jornal do Brasil, assinada por Vera Jardim: “O interlocutor tem que se munir de paciência, ouvir respostas lacônicas e às vezes acompanhadas de expressões que questionam o valor da pergunta”.
A atriz também enfrentava tensões com colegas de cena — entre eles, Humberto Martins, segundo O Globo. Em meio às gravações, engravidou e, com dois meses de gestação, precisou se afastar temporariamente da novela, agravando a sensação de instabilidade que já rondava a produção.

Carolina Dieckmann e Luciano Vianna em “Vira Lata” (Foto: Divulgação/Globo)
Outra aposta de Lombardi, a personagem Stella, foi descrita por ele como “a mais problemática”, muito em razão dos próprios conflitos da personagem. O autor também travou batalha para incluir Glória Menezes no elenco. A saída da atriz, porém, foi abrupta: “foi algo completamente inesperado. Desconfio que ela não leu a sinopse em detalhes, porque ficou ofendida achando que eu estava usando coisas da vida dela para a personagem, e eu confesso que não sabia de absolutamente nada disso. Seria muito desagradável, não faria isso com alguém com quem eu queria muito trabalhar. Isso foi um infortúnio, mas já passou, sem mágoas”. Oficialmente, a emissora atribuiu o afastamento a um quadro de estafa. Segundo a Tribuna da Imprensa, o descontentamento não se restringia a casos isolados: além de Glória Menezes, outros atores cogitavam deixar o elenco, entre eles Andréa Beltrão.
Nem mesmo o protagonista escapou das trocas. O papel inicialmente pensado para Marcos Palmeira — e anunciado como certo pela revista Amiga — acabou nas mãos de Murilo Benício. A geografia da novela também foi redesenhada: prevista para se passar em Ribeirão Preto, a história acabou transferida para Florianópolis, em razão da coincidência temática com O Rei do Gado, que ocuparia o interior paulista no horário nobre. Ironicamente, Murilo estava escalado justamente para a novela de Benedito Ruy Barbosa antes de migrar para Vira Lata.
O personagem de Murilo Benício chamava-se Bráulio Vianna — nome que, por si só, já carregava uma camada involuntária de comentário social. À época, uma campanha publicitária popularizava o uso de “Bráulio” como sinônimo de pênis, o que rapidamente transbordou para o repertório de piadas do público e, inevitavelmente, da própria novela. Em um gesto que misturava ironia e autopreservação, o personagem passou a exigir ser chamado apenas de Vianna. A escolha do sobrenome, por sua vez, não era casual: tratava-se de uma homenagem de Carlos Lombardi ao colaborador Vinícius Vianna, num daqueles acenos internos que a televisão raramente explicita, mas frequentemente cultiva.
O desempenho aquém do esperado de Vira Lata não chegou a provocar uma intervenção drástica em sua duração — ainda que tenha deixado marcas. Dos 160 capítulos inicialmente previstos, cinco foram suprimidos, um ajuste modesto para os padrões da época, mas sintomático de uma narrativa que parecia sempre à beira de um novo rearranjo. No elenco, as idas e vindas seguiam o mesmo padrão: Luana Piovani, inicialmente escalada para viver a empregada doméstica Dô – que acabou vivida por Thalma de Freitas – , foi afastada durante a trama e, mais tarde, retornou em outro registro, como Wanda — uma reentrada que dizia tanto sobre a flexibilidade da obra quanto sobre sua instabilidade.

Humberto Martins e Marcello Novaes em “Vira Lata” (Foto: Divulgação/Globo)
Se a ficção já acumulava sobressaltos, os bastidores adicionavam uma camada quase acidental de realismo. Em uma cena de violência, Rômulo Arantes (1957-2000) deveria simular o estrangulamento da personagem de Cinira Camargo. O que se viu, porém, ultrapassou o limite da representação: o ator empregou força excessiva, e a atriz acabou hospitalizada, tendo de usar colar ortopédico. Não foi um caso isolado. A atriz mirim Alessandra Aguiar sofreu uma queda de um escorregador durante as gravações e fraturou a clavícula, interrompendo temporariamente sua participação.
Houve ainda incidentes que pareciam conspirar contra o cronograma. Parte do cenário foi destruída por uma ressaca marítima, obrigando a produção a rever locações e o autor a reescrever sequências inteiras. No plano humano, os contratempos se acumulavam: Marcello Novaes adoeceu, vítima de uma verminose, enquanto o próprio Lombardi enfrentou um quadro de desidratação que o afastou momentaneamente do trabalho.
SOBRE ENTRAR – E SAIR – DO BONDE ANDANDO
A dificuldade na escalação de Vira Lata deveu-se, em larga medida, à antecipação de sua estreia. Carlos Lombardi estava previsto para voltar ao ar apenas em abril de 1997, mas a engrenagem da programação girou antes do esperado, comprimindo prazos e reduzindo o leque de escolhas. A crítica da época notou um certo ar de repetição no elenco — como se os rostos circulassem de uma novela a outra sem intervalo suficiente para a renovação. Lombardi, no entanto, tratou de afastar qualquer leitura estética dessa recorrência. “Quando fui escalar só havia disponíveis os atores de ‘Quatro por Quatro’”, disse à Contigo, deslocando a questão do gosto para a contingência: não se tratava de preferência, mas de disponibilidade.
Nesse ambiente de escassez relativa, as confirmações tornavam-se provisórias. Eduardo Moscovis, por exemplo, chegou a ser anunciado como parte do elenco — seu nome, inclusive, permaneceu na abertura durante toda a exibição —, mas não integrou a trama como previsto. Escalado inicialmente para viver Frederico, acabou remanejado para Anjo de Mim, a novela das seis seguinte. Antes disso, havia um movimento de bastidores para tirá-lo de “74,5 – Uma Onda no Ar”, da Manchete. No fim, a solução encontrada foi outra: Mateus Carrieri assumiu o papel. Havia, porém, um detalhe quase farsesco nessa substituição — o ator já participava da novela como os gêmeos Cacetada e Cratera, personagens cômicos que nada tinham a ver com o novo Frederico. A sobreposição de registros evidenciava o grau de improviso a que a produção havia chegado.
Nem todos aceitaram entrar nesse jogo. Cleyde Yáconis recusou o convite para integrar a novela. Segundo a Tribuna da Imprensa, Lombardi chegou a escrever personagens pensando diretamente em seus intérpretes — um para Ary Fontoura, outro para Nair Bello (1931-2007)—, numa tentativa de atrair nomes capazes de estabilizar o conjunto. Era um método antigo, quase teatral: criar o papel já com o corpo do ator em mente, na esperança de que ele aceitasse habitá-lo.

O cachorro Funk viveu Zé, um dos personagens importantes da trama e que nomeava a novela (Foto: Acervo/Globo)
A saída de Glória Menezes abriu mais um flanco. Para recompor a estrutura dramática, Susana Vieira foi convocada e entrou em cena apenas no capítulo 84, assumindo a função narrativa da personagem ausente. O convite partiu do próprio Jorge Fernando (1955-2019), como a atriz relatou à Tribuna da Imprensa. Ao aceitar, resumiu o espírito da empreitada: “Espero não cair desse trem em movimento”. Sabia pouco sobre a personagem — Laura era, segundo lhe disseram, “rica, fresca, divertida e má” .
A novela também marcou a estreia de Kananda Raia, sobrinha de Cláudia Raia, que mais tarde se afastaria da carreira artística. Pequenos começos como esse conviviam com grandes instabilidades, compondo um mosaico irregular. Curiosamente, Vira Lata não foi concebida, de início, como uma trama estritamente das 19h. Em algum momento do planejamento, chegou a ser cogitada para a faixa das 18h, como substituta de “Tropicaliente”.

Nair Bello em “Vira Lata” (Foto: Arquivo/Globo)
Quando finalmente chegou ao ar, a novela já operava no limite. Com os sucessivos ajustes, perdeu a chamada “frente” — a margem de capítulos prontos que garante respiro à produção. O episódio exibido em 8 de junho de 1996, um sábado, foi editado e finalizado na véspera, um indicativo claro de que a máquina trabalhava em regime de urgência.
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