Ator e músico, Marco França, de “Guerreirros do Sol”, fala sobre uso de IA nas músicas e critica redução do Nordeste à seca


Ator, músico e multi-instrumentista potiguar, Marco França integra o elenco da novela’ Guerreiros do Sol’, do Globoplay, onde interpreta um cangaceiro sanfoneiro — papel que o conecta à tradição e aos estigmas em torno da figura do nordestino. Com fala lúcida, critica a folclorização da região e defende sua diversidade cultural. Natural de Natal, Marco vê no Nordeste múltiplas identidades, que vão muito além dos clichês

*por Vítor Antunes

Um ator em movimento, que carrega consigo a essência do Nordeste. Mas, afinal, de que Nordeste estamos falando? Existe um Nordeste real — para além daquele idílico, imaginado e plastificado no imaginário nacional? Marco França, ator e músico potiguar, integra o elenco de “Guerreiros do Sol”, novela de George Moura em exibição pelo Globoplay. A produção vem conquistando público e crítica ao retratar, com justeza — ou com o máximo possível dela —, as múltiplas camadas do sertão. “Tive a sorte de estar fazendo essa novela e de ter a Márcia Andrade como produtora de elenco — a mesma de “Mar do Sertão”. Tanto uma quanto a outra têm um elenco com bastante presença de artistas nordestinos. Meu personagem é um cangaceiro que toca sanfona”, conta o ator.

Ao interpretar um sanfoneiro, nordestino e cangaceiro — três arquétipos frequentemente associados à região —, Marco se vê diante de um desafio que ultrapassa o ofício: desconstruir estereótipos que ainda contaminam o olhar sobre o Nordeste. “Acho, sim, que ainda existe uma folclorização do Nordeste, apesar de vivermos num mundo tão globalizado. A globalização, que foi tão falada durante tantos anos, hoje se tornou algo comum, quase banal. Temos uma quantidade imensa de informação, literalmente na palma da mão, com os smartphones que nos conectam a qualquer lugar do mundo. Ainda assim, persiste uma romantização e uma visão profundamente equivocada sobre o que é o nosso Nordeste”.

Ele continua: “Muita gente ainda pensa que o Nordeste é apenas seca, pessoas usando sandálias e chapéus de couro, andando entre caveiras de boi no meio da rua. É uma ideia estereotipada, quase caricatural. O Nordeste, na verdade, é uma invenção — sobretudo quando se tenta reduzi-lo a uma massa homogênea. Sempre que se massifica uma classe ou uma região, torna-se mais fácil manipulá-la. Isso acontece há mais de cem anos. E, curiosamente, só recentemente começamos a falar mais em termos como ‘Sudeste’, o que já representa uma tentativa de contraponto à maneira como se fala do ‘nordestino’, como se fosse um tipo único”.

Marco França ressalta que deve haver um olhar plural para o Nordeste (Foto: Caio Oviedo)

Para Marco, é essencial lembrar que o Nordeste é múltiplo, diverso e longe de ser um bloco uniforme. “O Nordeste é formado por nove estados completamente diferentes, cada um com seus próprios sotaques, sua musicalidade, suas paisagens — inclusive com vegetações bastante distintas. Eu, por exemplo, venho de Natal, uma cidade urbana e litorânea. Tenho também uma relação forte com o interior do Rio Grande do Norte e conheço bem as diferenças entre as regiões do Oeste, do Agreste, do Sertão e do Seridó — que é riquíssima em cultura e história”.

Ainda existe muita fantasia e ignorância quando se pensa no Nordeste. Esquece-se, por exemplo, que o Espírito Santo faz parte do Sudeste. Normalmente só lembram de São Paulo, Rio e Minas. Quando se generaliza assim, colocando tudo no mesmo baú, perde-se de vista a complexidade. E a verdade é que tudo tem suas particularidades, suas essências próprias – .

Como músico, Marco tem seu fazer artístico profundamente entrelaçado com o modo como a música é trabalhada e produzida. Ele observa, com senso crítico, o empobrecimento de certos arranjos contemporâneos, sobretudo quando comparados ao trabalho de compositores consagrados que marcaram gerações. “Se a gente for analisar do ponto de vista do cuidado na composição — especialmente no que diz respeito aos arranjos — muitas vezes falta complexidade, falta o esmero de uma estrutura harmônica mais sofisticada”, aponta. “Penso, por exemplo, em compositores como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim… Eles trazem uma identidade muito forte, com acabamento harmônico e melódico refinado em seus trabalhos. Acho que há uma sofisticação no que eles fizeram que explica o lugar que ocupam na história da música brasileira”.

Para Marco, o cenário atual parece refletir certa carência de personalidade artística. “O que se vê hoje, de modo geral, é uma falta de identidade. Muita coisa soa parecida, genérica, sem uma assinatura sonora clara. Acho que quem realmente tem competência e uma identidade própria e essas pessoas conseguem usar as ferramentas tecnológicas para potencializar o que já existe de bom. Mas, para quem não tem esse fundamento, muitas vezes deixa a máquina trabalhar por elas”.

O tema ganhou novo fôlego na última semana, quando versões de músicas populares recriadas por inteligência artificial viralizaram nas redes sociais. Perguntado sobre essa mudança de paradigma, Marco enxerga o processo com cautela, mas sem catastrofismo. “Tem muitos artistas, muitos compositores… Eu acho que ainda vamos errar muito até encontrar um equilíbrio. Foi assim também quando surgiram os instrumentos eletrônicos. No meu caso, o teclado. Depois vieram os sintetizadores, os samples, os plugins usados nos softwares de gravação… Muita gente achava que tudo isso iria substituir os músicos. Mas, no fim das contas, essas tecnologias nunca ocuparam o lugar de absolutamente ninguém. São ferramentas. E a gente aprendeu a lidar com elas, a incorporá-las ao nosso fazer artístico”.

Marco França não vê um catastrofismo no uso da inteligência artificial na música (Foto: Caio Oviedo)

SOB O SOL

Marco acaba de estrear o espetáculo “Vermes Radiantes”, em cartaz no Sesc Pompeia, ao lado de Maria Eduarda Carvalho e Rui Ricardo Dias. A peça tem grandes chances de seguir para o Rio de Janeiro ainda neste segundo semestre, embora as negociações estejam em andamento. Paralelamente, o artista também se dedica à direção musical de dois novos espetáculos e à preparação para o lançamento de seu álbum autoral, além de uma série de shows com composições próprias.

O ator conta que começou a gravar “Guerreiros do Sol” enquanto ainda participava das gravações de “Mar do Sertão”, e que foi justamente a equipe desta última produção que o indicou à nova novela — ambas marcadas pela presença expressiva de artistas nordestinos no elenco. “Essa possibilidade de fazer um personagem que também tivesse uma relação com a sanfona — instrumento pelo qual tenho grande paixão, embora não seja o meu principal como músico — foi muito especial. A pesquisa musical e a presença da música em cena aprofundaram essa conexão com o instrumento”, afirma. “Desde que soube que a novela seria sobre o cangaço, isso me brilhou os olhos. Despertou em mim um desejo muito grande de viver esse personagem, ainda mais sabendo que haveria esse cuidado e esse olhar para escalar muitos atores nordestinos para habitar esse universo”.

Marco França: “Essa possibilidade de fazer um personagem que também tivesse uma relação com a sanfona — instrumento pelo qual tenho grande paixão — foi muito especial” (Foto: Caio Oviedo)

Sobre o retorno ao mesmo personagem, Marco comenta o curto intervalo entre uma novela e outra. “Mar do Sertão terminou em 2022, e o último capítulo, se não me engano, foi ao ar em março de 2023. Já Rancho Fundo veio em 2024, com pouco mais de um ano de intervalo. Nunca imaginei que revisitaria esse personagem em tão pouco tempo. A novela manteve quase toda a mesma equipe, e conta também com o texto do Mário Teixeira e a direção do Allan Fiterman, o que certamente favoreceu essa continuidade”.

Nascido no Rio Grande do Norte, Marco é cantor, ator e multi-instrumentista. Ao ser questionado sobre o rótulo de “música regional” — comumente associado a artistas fora do eixo Rio-São Paulo —, ele reflete sobre os preconceitos que podem estar embutidos nesse tipo de categorização: “Quando se fala em ‘música regional’, tudo parece estar relacionado a uma região específica. Isso nos leva de volta à discussão sobre o que é ser nordestino e o que é ser sudestino. O Sudeste, por exemplo, abriga uma cidade como São Paulo, formada por gente do Brasil inteiro — em grande parte por nordestinos, aliás. Tenho, sim, utilizado bastante a sanfona nos meus trabalhos, como agora em “Guerreiros do Sol”, onde ela está bastante presente. Mas sou um músico multi-instrumentista. No teatro, toco vários instrumentos. Em “Vermes Radiantes”, por exemplo, faço toda a trilha ao vivo: toco contrabaixo e bateria, instrumentos que nunca havia tocado antes. Meu instrumento principal é o teclado, o piano. Em outros espetáculos já toquei clarinete, percussão…”

E completa: “Sim, há uma expectativa quando se pensa num ator nordestino que toca sanfona — como se fosse só isso. Mas eu já toquei absolutamente de tudo: jazz, samba, tango, estilos variados. Existe essa fantasia de que o artista nordestino só pode tocar algo que esteja ligado ao chamado ‘regional’. Mas, se for isso, se música regional é a música feita na região, então posso garantir que o Nordeste tem uma pluralidade incrível — na música, na vestimenta, na culinária, no cinema… em tudo”.

Marco França é multiinstrumentista e quer fazer um trabalho solo para 2025 (Foto:Caio Oviedo)

Em seus projetos como diretor musical, Marco precisa mergulhar no universo de outros artistas para construir as trilhas sonoras de espetáculos. Ele descreve o processo com naturalidade, fruto de uma trajetória marcada pela diversidade musical. “No começo, antes mesmo de atuar, trabalhei bastante com publicidade, fazendo jingles — aquelas musiquinhas para vender produtos. Fiz muitos. E ali, você tem que passar uma informação em 30 segundos. Gravei de tudo: rock and roll, blues, jazz, bossa nova, samba, forró… tudo o que se possa imaginar. Toquei em banda baile também, onde se toca o que o evento pedir. Sempre tive muita facilidade para transitar entre os gêneros musicais”.

Marco França caminha entre palcos, sets e partituras como quem desbrava territórios — não com armas, mas com acordes, sotaques e inquietações. Seu fazer artístico é também um fazer político: rompe cercas simbólicas, desafia rótulos e reivindica a complexidade de ser nordestino sem caricatura. Ele não quer apenas representar o Nordeste. Quer ressignificá-lo, ampliá-lo, devolvê-lo ao país em toda a sua riqueza e contradição. É um artista em travessia, desses que afinam a alma antes do instrumento. E se, como disse certa vez Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”, Marco segue provando que viver – e fazer arte – é também um gesto de reinvenção e coragem cotidiana.