*por Vítor Antunes
Ele não é um rosto novo na televisão nem no teatro. Pelo contrário, já está há pelo menos 30 anos em cena. Porém, em “Volta por Cima”, atual novela das 19h, conseguiu um dos primeiros personagens robustos de sua carreira, estando no centro de um debate importante da trama de Cláudia Souto: o uso de anabolizantes para fins estéticos. Na história, Gil Hernández vive Rafa, um professor de Educação Física que faz o contraponto a outra professora — sua namorada na ficção —, que indica o uso da substância a um aluno. “Debater esse tema na novela é oportuno, porque não se pode falar sobre anabolizantes sem abordar o atravessamento das redes sociais, essa comparação que as pessoas fazem. Mas os anabolizantes sempre estiveram aí. Isso virou um problema, um câncer. Sempre fui mais do esporte do que da academia — que é algo que nunca gostei —, mas nunca usei esse artifício. As pessoas acabaram dando importância à aparência, à vaidade, a querer aparecer, e isso se revelou como novidade. Há de se questionar não só o uso dos anabolizantes, mas também a qualidade desse material”.
A observação do ator é pertinente, pois, em janeiro deste ano, uma ação da Polícia Federal — a Operação Kairos — prendeu 15 pessoas envolvidas na fabricação de anabolizantes falsos. Em alguns desses produtos, até mesmo repelentes de insetos constavam na fórmula.

Gil Hernández acredita que o debate sobre o uso de anabolizantes é proveitoso na novela (foto: Kontraluz)
Filho de uma brasileira e de um venezuelano, Gil nasceu no Rio de Janeiro — mais especificamente no bairro da Penha —, mas viveu parte da vida na Venezuela e ainda visita o país com frequência. Conhece de perto a realidade daquela nação, que há anos convive com o caos social e, especialmente, político. Para ele, não há meias palavras: “A Venezuela é uma ditadura militar narcotraficante, um país muito corrupto, claro, como todos os países da América Latina. Há quem apoie, mas é um horror!”, dispara. Hoje, o pai de Gil mora na Venezuela, enquanto a mãe vive em Miami (EUA).

Gil Hernández está na novela “Volta por Cima” (Foto: Kontraluz))
RAMAL CARACAS-SARACURUNA
O nome do ator é uma homenagem ao cantor Gilberto Gil. Seus pais, hoje separados, formavam um casal multicultural: a mãe, brasileira; o pai, venezuelano. Embora tenha nascido no Rio de Janeiro, passou parte da infância na Venezuela, para onde foi ainda pequeno, retornando ao Brasil entre os 7 e 8 anos de idade. “Da noite para o dia, estava no Brasil, no terceiro ano do fundamental, sem saber falar português, totalmente um estrangeiro, enquanto meu pai ficou por lá, onde constituiu uma nova família. Passei a adolescência sem pai e sem dinheiro, ainda que fosse à Venezuela visitá-lo. Em uma conversa séria, falamos sobre esse distanciamento e nos emocionamos muito. Mas fui criado pela minha mãe e pela minha avó”. Gil é casado com a artesã e artista plástica Melissa Andersen, com quem tem duas filhas: Manuela, de 16 anos, e Helena, de 12.
Há uma frase recorrente entre filhos de imigrantes: “não tenho medo de trabalho”. O ator confirma esse pensamento, pois começou a trabalhar desde cedo, inicialmente em uma rede de fast-food, até conseguir estabilidade financeira. Quando veio a pandemia, no entanto, as contas apertaram de maneira significativa, exigindo uma mudança de planos. “Na juventude, eu trabalhei no McDonald’s e saía vestido com o uniforme, tinha carteira assinada e tudo. Graças a Deus, nunca tive problemas com trabalho. Inclusive, isso foi fundamental para mim na época da pandemia, porque fiquei totalmente sem poder atuar. Minha casa, que estava alugada no Rio, teve problemas com o locatário, e eu morava em São Paulo, pagando aluguel. Acabei trabalhando como pintor de parede e motorista de aplicativo. Houve quem dissesse que eu tinha ‘um rosto conhecido’, inclusive”.

Gil Hernández é formado em teatro e acredita ser fundamental o estudo e aprofundamento na arte (Foto: Kontraluz)
Durante esse período, Gil recebeu um convite especial para um monólogo desafiador, que abordava um tema forte e relevante. “Na pandemia, me foi oferecido um monólogo sobre um garoto de programa, um texto incrível, falando da era Collor e da chegada do HIV no Brasil. O monólogo se chama Boy, e quem me ofereceu foi o Isaac Bernat. Inicialmente, fiquei preocupado por não ter lugar de fala, já que sou hétero, mas deu tudo certo. Fiz duas temporadas em São Paulo, na época em que estava morando lá”.
No solo Boy, de Rogério Corrêa, apresentado na Galeria Café, Gil Hernández interpretou Fernando, um garoto de programa que trabalha em uma sauna gay desde o governo Collor, nos anos 1990. Em 2022, trinta anos após o impeachment do ex-presidente, o personagem está no bar da sauna relembrando como aqueles anos marcaram sua vida. A partir dessas memórias, a peça retrata um período conturbado no país: o surto de AIDS, que causou a morte de vários amigos do protagonista, além da crise política, econômica e social e o fim da ditadura. Foi o primeiro monólogo da carreira de Gil, e ele pretende retomá-lo assim que encerrar sua participação na novela.

Gil Hernández vive um professor de Educação Física na novela das 7 (Foto: Kontraluz)
Sobre os jovens talentos da atuação, Gil se mostra entusiasmado. Formado desde 1997 — o mesmo ano de nascimento de sua parceira de cena na novela, a atriz Gabriella Dias —, ele destaca que as novas gerações chegam bem preparadas. “Eu acho que essa garotada que tá chegando aí é muito boa, muito talentosa, muito bonita. Acho que a galera está dando um tempo na ansiedade, vindo bem preparada, porque não é brincadeira. Mas, aqui, é um lugar de ofício, cara. Eu amo o meu ofício. Tenho prazer em ver o campo, em exercitar a articulação, em construir as cenas. Por aí, eu não tenho tempo pra nada, entendeu? E agora estou fazendo uma novela, fiz uma peça e estou querendo voltar com Boy. Descobrir o que se gosta é enxergar a vida como uma grande diversão”.
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