Assim como Rainha da Sucata, outras novelas de Silvio de Abreu empacaram na audiência nas reprises. Saiba


Mesmo celebradas em suas exibições originais, as novelas de Sílvio de Abreu vêm enfrentando sucessivos tropeços no’ Vale a Pena Ver de Novo’. ‘Belíssima’ (2018) retornou com desempenho modesto, e agora ‘Rainha da Sucata’ repete o padrão, acumulando índices irregulares e algumas das piores marcas recentes da faixa. O histórico é consistente: entre 2000 e 2025, ‘A Próxima Vítima’, ‘Deus Nos Acuda’ e ‘Belíssima’ fracassaram na reprise, derrotadas até por atrações concorrentes como Chaves e Maria do Bairro. O cenário reforça a hipótese de que Abreu funcione melhor no inédito, dependente do calor da obra aberta e da sintonia com o espírito do tempo

*por Rodrigo Otávio

“Ele é o autor que sabe tudo” Foi com essa credencial — meio reverencial, meio marqueteira – que a Globo anunciou, em 2018, a reprise de “Belíssima” no Vale a Pena Ver de Novo. O folhetim de Sílvio de Abreu havia sido, em 2005, um dos maiores êxitos do horário nobre, alcançando índices que qualquer executivo guarda em planilha até hoje. O retorno, no entanto, contrariou a lógica das glórias passadas e registrou apenas um desempenho modesto. Sete anos depois daquela tentativa frustrada, uma nova criação de Abreu reaparece na faixa vespertina da emissora. Agora é “Rainha da Sucata”, produção de 1990 que, não sem surpresa, ressurge 35 anos após sua estreia. A novela da “sucateira” chega ao ar enfrentando uma espécie de maldição aritmética: herdou do sucesso de “A Viagem” uma audiência elevada, mas se mostrou incapaz de sustentar o patamar. Em poucos dias, empurrou o horário para baixo e inaugurou uma sequência de índices erráticos.

Nas duas primeiras semanas de novembro, o comportamento do ibope foi uma gangorra. O folhetim chegou a marcar 13,6 pontos de média, número que se tornou a pior audiência do “Vale a Pena Ver de Novo” em cinco meses – apesar de seguir na liderança do horário. A novela também registrou 12,2 pontos, seu recorde negativo no encerramento da primeira semana. O capítulo de terça-feira (11), protagonizado por Regina Duarte, anotou 13,5 pontos, mas perdeu fôlego: foi a pior terça-feira do Vale a Pena em seis meses. Com os sete primeiros capítulos, Rainha da Sucata acumulou 13,8 pontos de média, um dos desempenhos mais fracos do programa nos últimos anos.

É verdade que o déjà vu não é de todo inédito. Em 1990, no lançamento original, a trama também patinou no início – muito por causa do seu humor farsesco, da comédia escrachada, que demorou a encontrar o tom. Quando Abreu reajustou o eixo narrativo e deslocou o foco para o melodrama, a audiência reagiu. Ou seja: em tese, há margem para uma recuperação agora.

Mas um detalhe incômodo se impõe: nas últimas duas décadas, quase todas as novelas de Abreu exibidas no “Vale a Pena Ver de Novo” fracassaram em reconquistar o público. A constatação já ganhou ares de síndrome. Entre 2000 e 2025, três obras suas reapareceram na faixa – “Deus Nos Acuda”, “Belíssima” e “A Próxima Vítima”. Nenhuma delas encontrou tração suficiente. O caso mais evidente talvez seja Deus Nos Acuda, massacrada pela edição compacta e, com frequência vexatória, derrotada por uma das incontáveis reprises de Maria do Bairro. Repetiu-se, ali, o ritual habitual: truncamentos, cortes drásticos, readequações de última hora para tentar salvar o que já havia desandado.

A recorrência do tropeço levanta a hipótese de que o autor funcione melhor no calor do inédito, com a obra ainda aberta às intervenções – cortes, enxertos, reviravoltas – ou talvez dependa de um certo espírito de contemporaneidade que se dissolve quando o título volta ao ar muitos anos depois. Confira as novelas de Sílvio de Abreu que fracassaram no “Vale a Pena ver de Novo”:

Tony Ramos em “Rainha da Sucata” (Foto: Divulgação/Globo)

A PRÓXIMA VÍTIMA (1995, reprisada em 2000)

No ano 2000, a Globo se viu diante de um dilema: o Vale a Pena Ver de Novo cambaleava. Após a reapresentação morna de “Tropicaliente”, a emissora acumulava derrotas para o SBT no horário das 14h30. Para estancar a sangria, recorreu a um de seus então trunfos recentes: “A Próxima Vítima”, que apenas cinco anos antes havia galvanizado o país com o enigma do assassino mascarado. Além da reapresentação, a Globo anunciou um chamariz adicional – um final inédito.

A aposta, contudo, se dissolveu. A audiência ficou muito abaixo do que os executivos imaginavam, e as derrotas para o “Chaves” , do SBT, tornaram-se frequentes. O revés foi tão acentuado que A Próxima Vítima, outrora um êxito irretocável do horário nobre, converteu-se, na reprise, num fiasco exemplar. A sucessora, “Roque Santeiro” – uma novela que, nas exibições originais, representara um triunfo incontornável – também naufragou no retorno. Era como se, no início dos anos 2000, a faixa vespertina tivesse se transformado em um território onde nem mesmo clássicos eram capazes de sobreviver.

Claudia Ohana em “A Próxima Vírtima”. Personagem foi agredida e esfaqueada por ser adúltera (Foto: Acervo/Globo)

DEUS NOS ACUDA (1992, reprisada em 2004)

Quando foi exibida em 1992, Deus Nos Acuda flertava com a casa dos 40 pontos de audiência – números que, na métrica industrial da época, configuravam pleno sucesso. Mas, doze anos depois, ao regressar no Vale a Pena Ver de Novo, a novela já não encontrou o mesmo apetite coletivo.

A reexibição terminou com 14,4 pontos, acumulando derrotas humilhantes para duas novelas mexicanas recicladas pelo SBT: Maria do Bairro (1995) e Pérola Negra (1998). Em dezembro de 2004, no trecho de trinta minutos em que as tramas coexistiam no ar, Maria do Bairro venceu Deus Nos Acuda com frequência constrangedora.

Durante toda a última semana de novembro daquele ano, o SBT liderou com 16 pontos, enquanto a Globo, com o folhetim de Silvio de Abreu mutilado pela edição, ficou com 14. E a situação não era exatamente nova: o Vale a Pena vinha desidratado desde a reprise de Terra Nostra (1999), que havia debilitado o horário.

Como se não bastasse o encolhimento da audiência, a novela carregava um dado extratelevisivo que ganhara ares de curiosidade histórica: Edson Celulari e Claudia Raia – par romântico do folhetim – engataram, à época, o relacionamento que se espraiaria para além das câmeras. A sucessora na faixa foi Laços de Família, unanimidade crítica e popular, escolhida pela Globo como uma espécie de antídoto para o estrago acumulado.

Carmem Verônica em “Deus Nos Acuda”, de Sílvio de Abreu (Foto: Nelson di Rago/Globo)

BELÍSSIMA (2005, reprisada em 2018)

Quando estreou em 2005, “Belíssima” se impôs como um monumento de audiência. Era a segunda novela mais vista da história recente, alcançando algo em torno de 60 milhões de espectadores e ficando atrás apenas do furacão “Senhora do Destino” (2004). Na média consolidada, atingiu 54 pontos, superando inclusive a própria “Senhora do Destino”, cuja média geral foi de 47 pontos.

Treze anos depois, no entanto, a reprise revelou outra natureza – menos épica e mais burocrática. Mais de 30 capítulos foram comprimidos para caber no formato vespertino, embora a novela ainda tenha permanecido anormalmente extensa para o horário. O resultado não empolgou: seu desfecho marcou média de 14 pontos, repetindo o fracasso da antecessora “Celebridade” (2003), igualmente punida pelo desinteresse do público na reapresentação. Após o tropeço, a Globo acionou um título mais recente e mais palatável para recuperar o terreno: “Cordel Encantado”.

Carlos Takeshi e Iris Bruzzi em “Belíssima” (foto: Reprodução/Globo)