*por Vítor Antunes (com colaboração de Sebastião Uellington Pereira)
Durante os anos 1980, a novela “Pantanal” foi oferecida à Globo, mas rejeitada pela emissora carioca, que inicialmente a cotava como uma novela das seis. Anos depois, a trama explodiria na TV Manchete como o maior sucesso da extinta emissora. Somente em 2024 a Globo reconheceu o erro e produziu “Pantanal”, novamente com êxito. Em 2026, “Dona Beja” vem registrando relativo sucesso na HBO Max como remake da obra de Wilson Aguiar Filho (1951-1991), exibida pela Manchete há quarenta anos. Nossa equipe de reportagem localizou que, a exemplo da trama pantaneira, a história de Ana Jacinta de São José (1800-1873) também passou pela emissora do Jardim Botânico. À época, seria protagonizada por Maitê Proença — que, ao fim, cumpriria esse papel na versão da Manchete.
Segundo reportagem do Correio Braziliense, de março de 1986, a Globo desistiu do projeto por considerá-lo “oneroso demais”. E, de fato, não se tratava de uma produção barata. A Manchete chegou a gastar cerca de 140 milhões de cruzeiros por mês, num contexto em que o salário mínimo era de Cz$ 804,00 — o equivalente a 174.129 salários mínimos. A emissora aguardou o término do contrato de Maitê com a Globo para então convidá-la oficialmente para a trama.

Dona Beja foi exibida pela Manchete em 1986 e reexibida diversas vezes na América Latina [Foto: Reprodução/Pantel]
O projeto, inicialmente assinado por Aguinaldo Silva e Alcione Araújo, teria 20 capítulos, depois ampliados para 60, antes de ser abandonado. Ainda em 1982, era apontado como o projeto mais caro da Globo, conforme registro em coluna de Zózimo Barrozo do Amaral. Ainda segundo o Correio Braziliense, Aguinaldo Silva e Alcione Araújo (1945-2012) escreveriam “Dona Beja” para a Globo com direção de Roberto Farias (1932-2018) — que estrearia na televisão — e José Carlos Pieri . Desde então, já se cogitava que Maitê viveria a personagem-título. Roberto Farias, porém, reprovou a atriz, que também chegou a ser considerada para “Sol de Verão”, papel que acabou com Isis de Oliveira. O Jornal do Brasil registrou que Maitê foi mantida “por ordens de cima”.
A novela já contava com um elenco pré-escalado, que incluía Tânia Alves, Regina Dourado (1953-2012), Antônio Pompeo (1953-2016), Sérgio Mamberti (1939-2021), Ney Latorraca (1944-2024), Cláudio Marzo (1940-2015), Zenaide Silva (1956-2011), Arthur Muhlenberg, Nildo Parente (1934-2011) e Carlos Poyart. Ana Lúcia Torre também integraria o projeto. Na Manchete, o papel que seria de Cláudio Marzo acabou ficando com Carlos Alberto (1935-2007). Sérgio Mamberti, por sua vez, também viria a participar da versão da Manchete. Nos bastidores, a Globo pretendia escalar o carnavalesco Arlindo Rodrigues (1931-1987) para os figurinos, enquanto a cenografia ficaria a cargo de Mário Monteiro e Raul Neves. No entanto, Arlindo deixou a emissora e migrou para a Manchete, onde assinou tanto a cenografia quanto os figurinos da produção.

Jayme Periard e Maria Isabel de Lizandra em “Dona Beja” (Foto: Reprodução/Revista Manchete)
Os jornais também apontaram que Vera Gimenez chegou a ser cogitada para o papel-título ainda em 1982, mas foi posteriormente preterida em favor de Maitê. Cláudio Marzo, inclusive, chegou a deixar a peça “Hedda Gabler” com a expectativa de integrar o elenco de “Dona Beja” na Manchete — o que não se concretizou. A trilha sonora, na concepção original da Globo, ficaria a cargo de Egberto Gismonti. Na versão efetivamente levada ao ar pela Manchete, a música foi assinada por Wagner Tiso e Fernando Brant (1946-2015).
Quando o projeto chegou à extinta emissora, uma série de nomes de peso foi sondada para o papel-título. Bruna Lombardi e Sonia Braga recusaram. Vera Fischer chegou a ser dada como certa, mas também não avançou. Gloria Pires e Christiane Torloni figuraram entre as possibilidades consideradas. Até mesmo Xuxa, segundo o Jornal dos Sports, teve seu nome citado — com a maliciosa ressalva de que “contanto que Beja use pouca roupa”. Àquela altura, Xuxa já era apresentadora do “Clube da Criança“. Inicialmente, “Dona Beja” era tratada como uma minissérie na Manchete. Mas o otimismo em torno do projeto acabou impondo outra lógica: a história foi esticada de 60 para 100 capítulos. No fim, ficou em 89.
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