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Arlindo Lopes interpreta gay internado como louco em série do Canal Brasil: ‘Vivemos essa moralidade de novo’

Em ‘Colônia’, que estreia no ano que vem e conta, em dez capítulos, parte da história do famoso manicômio de Barbacena transformado em campo de concentração, o personagem do ator é levado para o hospício pela própria mãe, como costumava acontecer na vida real

Publicado em 09/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Em 2007, quando estrelou a peça “Ensina-me a Viver” ao lado de Glória Menezes, o ator, diretor e produtor Arlindo Lopes realizava um sonho de menino. Aos nove anos, ele tinha visto na televisão o filme inspirado na peça de Colin Higgins (“Harold and Maude”) e ficara impressionado com o romance entre o jovem mórbido obcecado pela morte e a senhora octogenária apaixonada pela vida. A oportunidade de contar a história surgiu em 2004, quanto interpretou o baixista do Barão Vermelho, Dé Palmeira, na cinebiografia “Cazuza, o Tempo Não Para”, de Sandra Werneck e Walter Carvalho, e teve um papel na novela “Sabor da Paixão”, da Globo: com o dinheiro, daria para comprar os direitos. No entanto, foram necessários mais quatro anos tentando arrumar patrocínio, inúmeras negativas das empresas (até chegar ao ponto de ninguém mais acreditar que o jovem montaria peça alguma). A concretização do sonho só viria em 2007. O resultado foi um estrondoso sucesso de crítica e público e a fama imediata por conta da saga, contada por toda a imprensa. Pois é, atualmente, Arlindo Lopes está envolvido em dois projetos apaixonantes. Mais uma vez.

O ator poderá ser visto no ano que vem na série “Colônia”, do Canal Brasil, que conta, em dez capítulos, parte da história do Hospital Colônia, fundado em Barbacena (MG) em 1903. “Quando o André (Ristum, diretor da série) me mandou a sinopse, li tudo de uma vez. Começou como casa de tratamento, virou hospício e se transformou em depósito de gente, de excluídos”, revela o ator. “Quando acabei de ler, disse para o André que era muito atual. Meu personagem é gay e a mãe o manda para o manicômio porque o pároco diz que ele precisa se curar daquela doença. Lembra o Roberto Benigni em ‘A Vida É Bela’, acha tudo maravilhoso no hospício. Era tão sufocado do lado de fora, tão reprimido, que acaba encontrando a liberdade naquele horror”.

O ator tornou-se conhecido do grande público em 2007, quando estrelou ‘Ensina-me a Viver’ (Foto de Rodrigo Lopes)

Arlindo participa de um núcleo de personagens que não apresentam doenças mentais (como cerca de 70% dos internos na vida real) – entre eles a protagonista, uma jovem grávida internada à força pelo pai vivida por Fernanda Marques; a prostituta Elisa, interpretada por Andreia Horta; e o alcoólatra, papel do ator e cantor congolês naturalizado brasileiro Bukassa Kabengele. “De todos, só o alcoólatra tem uma doença. Quando não está bêbado, está tomando eletrochoque. Esses personagens vão enlouquecendo aos poucos. Não apenas por conta do convívio com os que realmente têm problemas mentais, mas graças aos remédios pesados e aos choques”, diz.

Mais de 60 mil pessoas morreram no Hospital Colônia, que teve seu pior período entre os anos 1960 e 1970 e encerrou suas atividades nos anos 1980. Graças aos métodos de tortura e às condições de vida impostas aos pacientes, chegou a ser comparado com os campos de concentração nazistas: o local era, literalmente, um abatedouro de indesejáveis como gays, amantes de políticos, prostitutas, alcoólatras, militantes, mães solteiras, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos etc.

 

O ator poderá ser visto no ano que vem na série “Colônia”, do Canal Brasil, que conta, em dez capítulos, parte da história do Hospital Colônia, fundado em Barbacena (Foto: Rodrigo Lopes)

Como fazer para encontrar alegria num lugar desses? “Ele dança, conta piadas… Eu tinha sido convidado pela família do (pintor, desenhista e escultor) Leonilson (1957-1993) para fazer uma performance durante uma exposição de obras dele no SESI, em São Paulo. Visitei a rua em que cresceu, onde havia um hospício. Soube que ele e os irmãos achavam os loucos o máximo, eram fascinados. A performance começava com uma coletiva de imprensa na qual eu só falava palavras das obras do Leonilson, nada foi criado. Aos poucos, no espetáculo, o artista ia enlouquecendo. O Leonilson, um gay não assumido, ‘abafado’ como o personagem da série. Então, usei a leveza dele, os delírios que tinha quando tomava AZT (uma das primeiras drogas aprovadas no combate ao HIV) para compor o personagem”, conta Arlindo. “O homossexual que interpreto na série cresceu intimidado pela Igreja e se sente mais livre dentro do hospício. Tanto que acaba se apaixonando pelo personagem do Bukassa, o alcoólatra e se conforma com migalhas de afeto, nunca amor. Infelizmente, estamos vivendo essa moralidade de novo”.

As coincidências parecem ser bastante frequentes na vida do ator. No mínimo, acima da média: “Outro dia peguei um uber em São Paulo e estava falando no celular sobre ‘Colônia’ com uma amiga. Vi que a motorista estava muito emocionada. Depois, ela me contou que a mãe dela havia passado décadas internada lá. Disse que, quando foi com o pai resgatá-la, depois de tempos sem vê-la, estava com o olhar vidrado e com cascões de sujeira. Não reconhecia mais a filha e o marido. A família escondia, ninguém mais sabia dessa internação”.

Barra pesada. Outro projeto que emociona Arlindo Lopes é o musical infantil “Ombela”, dirigido por ele, que está em cartaz no Oi Futuro do Flamengo até 17 de novembro. O espetáculo mereceu a deferência especialíssima de ter sua temporada esticada por mais um mês, coisa raríssima nos teatros da Oi. Arlindo, claro, está sorrindo à toa. “Ombela – A Origem das Chuvas” é baseada no livro homônimo do escritor angolano Ondjaki e relata a história de uma menina africana, deusa das chuvas, que questiona a origem de suas lágrimas. Seu pai conta que chorar pode ser bom e que há uma hora para sorrir e outra para chorar. E ela aprende que suas lágrimas doces e salgadas dão origem a mares e rios.

‘O gay que interpreto na série se sente mais livre dentro do hospício’ (Foto de Rodrigo Lopes)

“Convidei o Bukassa para fazer a peça. Já tínhamos feito ‘Malhação’ juntos, estávamos fazendo a série… Dei um texto da Conceição Evaristo para ele ler. Essa peça reverberou muito em mim. Falo sobre tribos africanas, a própria África, a mitologia que chegou ao Brasil e ajudou a construir crenças e religiosidades. Outro dia, uma menina de cinco anos disse que, com esse vazamento de óleo nas praias, Iemanjá deve estar triste. Incrível, não é?”, pergunta Arlindo, que fez questão de ter muitas mulheres em sua equipe para poder contar com a sensibilidade feminina em um trabalho tão delicado.

O ator, diretor e produtor também marca presença na telona em quatro longas: “Beijo no Asfalto”, em que faz a célebre cena do beijo final com Lázaro Ramos; “A Voz do Silêncio”, em que interpreta o protagonista, portador do vírus HIV e filho da personagem de Marieta Severo; “Berenice Procura”, baseado no romance homônimo de Luiz Alfredo Garcia-Roza; e “Alguém Como Eu“, em que atua ao lado de Paolla Oliveira. Incansável. Arlindo comprou, com o ator Pierre Baitelli, os direitos de “The Normal Heart”, filme sobre o começo da epidemia de Aids passado em 1981, quando a doença era conhecida como “câncer gay”. O longa era estrelado por Julia Roberts e Mark Ruffalo e Arlindo fará o papel que foi do ator. No Brasil, a adaptação para o teatro vai se chamar “O Coração Normal” e tem estreia marcada para o segundo semestre de 2020.

 

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