Arianne Botelho debate maus-tratos a animais e reforça impacto de “Caramelo”, filme da Netflix mais comentado do ano


Um dos filmes mais vistos da Netflix no semestre projetou Arianne Botelho internacionalmente e reacendeu debates sobre a causa animal. Defensora da adoção (ela tem uma gato adotado) e de leis mais rígidas contra maus-tratos, a atriz revela que nos bastidores enfrentou preparação intensa com cães, marcada pela convivência decisiva com Amendoim, o protagonista canino. Paralelamente, prepara-se para o lançamento do longa “A Prisioneira”. “É um filme que mostra a vida de uma mulher, mas também todo o ambiente machista e opressor em que ela vivia no Brasil Império. Se hoje já vivemos essas situações, imagine naquele tempo em que a mulher não tinha voz para absolutamente nada”

*por Vitor Antunes

Um dos filmes mais vistos da Netflix no segundo semestre é brasileiro: “Caramelo“. O feito projetou mundialmente seus nomes centrais: Arianne Botelho, Rafael Vitti e o diretor Diego Freitas. Também reavivou discussões sobre a causa animal e sobre a natureza, muitas vezes ambivalente, da relação entre humanos e seus bichos de estimação. Antes mesmo de entrar no set, Arianne já carregava um repertório amplo sobre o tema. “Quando eu descobri que faria o filme, acompanhava vários ativistas. Mergulho em trabalhos de pessoas que dedicam suas vidas à causa animal e ONGs que resgatam bichos da rua. Com certeza sou completamente contra essa prática de ter um cachorro para reprodução de filhotes, ainda que saiba haver lugares regularizados que não maltratam os animais. Mas sou sempre a favor da adoção. Acredito que temos tantos animais de rua que são constantemente abandonados e rejeitados, eu mesma tenho um gato adotado”.

As leis para proteger os animais são escassas e falhas. Há muitas pessoas que os maltratam, são presas e 24 horas depois estão soltas, começam outra matriz e continuam. Quantos canis clandestinos não existem pelo Brasil, sem que as pessoas tomem conhecimento, e quantas pessoas os maltratam, fazem coisas cruéis, absurdas e nada acontece? Agora está começando a mudar. Há alguns políticos que defendem essa pauta e que estão se empenhando, mas acredito que as leis precisam ser muito mais rigorosas. Os animais merecem mais respeito de nós – Arianne Botelho

O sucesso, conta ela, era esperado – mas nunca nessa escala. A equipe sabia que filmes de cachorro têm um apelo universal, uma espécie de gatilho emocional de fácil acionamento. “A gente sabia que alcançaria muitas pessoas. Mas não tínhamos essa dimensão de ser TOP 2 mundial. Há pessoas da Tailândia falando conosco. Outro dia um rapaz da Índia gravou um vídeo falando sobre o filme e marcou a ele e ao pessoal do elenco. Estamos muito felizes com todo esse impacto que o filme alcançou”.

Rafa Vitti, Arianne Botelho e Amendoim: “Estamos felizes com o impacto que o filme gerou” (Foto: Divulgação/Netflix)

Nos bastidores, porém, o trabalho era menos idílico do que a leveza do enredo sugeriria. Arianne recorda um processo de preparação que exigia precisão técnica – quase a disciplina de um ofício paralelo. “Tivemos de aprender a adestrar, tosar, dar banho e passear, porque passear exige técnica. Eu tinha de passear com muitos cachorros. Havia uma cena em que eu precisava atravessar uma rua com aproximadamente 15 cachorros na coleira. Uma pessoa que faz isso normalmente, que lida com isso todos os dias, faz com facilidade. Já eu precisava adquirir essa habilidade de passear com os cachorros de uma maneira muito natural, normalizar essa ação, dar banho, tosar e adestrar. Além disso, cada cachorro tem sua própria personalidade. Treinávamos muito com vários animais diferentes, e com o próprio Amendoim – cachorro que, na trama, dá vida ao personagem protagonista – e eles também estavam aprendendo os exercícios de adestramento conosco e com a equipe que nos treinava”.

O primeiro encontro com Amendoim, o cão-protagonista, foi decisivo. Durante o teste presencial, Arianne chegou antes do diretor e de Rafael Vitti. O cão também estava lá, à espera – e a neutralidade do ambiente de teste se dissolveu. “Já no teste presencial, de imediato conheci o Amendoim. No momento em que o encontrei, comecei a brincar e rolar com ele no chão. Quando o diretor e o Rafa chegaram, eu estava toda descabelada, uma loucura, brincando sem parar. Tenho relação afetiva com os animais. Amo cachorro, amo animais desde que me entendo por gente. Sempre fui muito apaixonada pelos bichos. Quando vi a descrição da personagem e percebi que ela seria dona de abrigo, veterinária, que cuidaria dos bichos e teria relação direta com eles, pensei: ‘Essa personagem tem de ser minha, porque tenho tudo a ver com ela’. Já fui ao teste com essa convicção”.

Arianne Botelho: Atriz está num dos projetos mais bem sucedidos da Netflix deste ano (Foto: Carlo Locatelli)

MULHER

Arianne segue conduzindo a carreira entre projetos populares e trabalhos de busca pessoal. Em São Paulo, ela pode ser vista no Teatro do Incêndio até 15 de dezembro, na montagem “Vocês Não Entenderam Nada”, dirigida por Marcelo Marques Fonseca. Paralelamente, prepara-se para o lançamento do longa “A Prisioneira”. No filme, dirigido por Francisco Ramalho Júnior e estrelado também por Leopoldo Pacheco, Dan Stulbach, Bianca Rinaldi e Lucas da Purificação, ela interpreta uma mulher injustamente condenada por dois crimes que não cometeu. A história se passa no Brasil Império, cenário que, para a atriz, revela continuidades desconfortáveis com o presente. “Infelizmente, é algo ainda muito corriqueiro de acontecer, as mulheres ainda sofrem muitas injustiças. Esse é um filme que mostra a vida dessa mulher, mas também todo o ambiente machista e opressor em que ela vivia no Brasil Império. Se hoje já vivemos essas situações, imagine naquele tempo em que a mulher não tinha voz para absolutamente nada”.

É evidente que levo minha pauta feminista a todos os lugares em que estou, porque acredito que nossa existência nesses espaços já é uma forma de ocupar e levantar essa bandeira. Apenas por estarmos nesses lugares, por estarmos no protagonismo, por contarmos histórias de mulheres, já estamos afirmando essa presença. Há personagens que permitem mais espaço para esse debate e outros que não – Arianne Botelho

Na análise que faz de sua personagem, Arianne explica que o diretor descreve “A Prisioneira” como um filme feminino, mas ela vê em Maria, a protagonista, um gesto mais contundente. “Segundo o diretor, não está em um filme feminista, mas em um filme feminino. Considero que a presença da Maria, minha personagem, e a trajetória dela são profundamente feministas e fortes. É uma mulher que teve garra, força e que enfrentou muito machismo da época. Em algum grau, sempre há debate sobre feminismo. Levanto a bandeira porque minha existência depende disso. Sabemos que ser mulher hoje ainda não é fácil. Há muitas questões a melhorar e a debater. Não estamos perto do melhor dos mundos para nós mulheres, mas acredito — preciso acreditar — que isso mudará algum dia. Se eu tiver uma filha, espero que ela viva em um mundo melhor do que o que vivo hoje. E que a filha dela viva em um mundo melhor ainda. Espero que daqui a 100 anos vivamos em um mundo mais justo para as mulheres. E com certeza a dramaturgia tem muito a contribuir para isso, assim como para outras pautas. Hoje vemos muitas mulheres negras ocupando protagonismo nas novelas, o que é maravilhoso. A pauta LGBT, a pauta das pessoas transexuais. Acredito que todas as bandeiras dentro da dramaturgia têm muito a somar às nossas causas”.

Arianne Botelho traz a luta feminista para a sua arte (Foto: Carlo Locatelli)

A trajetória televisiva de Arianne começou cedo. Um de seus primeiros papéis de destaque foi em Malhação, quando interpretou uma jovem com transtornos alimentares. A experiência, conta ela, a aproximou de adolescentes que enfrentavam dilemas semelhantes — e lhe devolveu a memória das próprias vivências. “Eu tinha vivido isso de perto na minha própria adolescência. Uma das minhas melhores amigas do colégio enfrentou a anorexia e bulimia, então, na época, não entendíamos muito bem o que era. Não era muito falado. Eu tentava ajudar, mas não conseguia entender totalmente o que se passava na cabeça dela. Eu também, na época em que estudava, tinha complexos com meu corpo, mas era porque eu era magra demais. Sofri bullying por muito tempo por conta disso”.

Acrescenta que, com o tempo, a amiga fez terapia e conseguiu se curar. “Depois conheci outras amigas que também tiveram isso na adolescência, e esse é um problema muito comum, infelizmente. Quando fui chamada para fazer Malhação, eu já entendia um pouco da proporção do problema, da dimensão do que tínhamos a abordar sobre a doença. Mas, quando comecei a receber mensagens de adolescentes falando dos próprios problemas, compreendi o quanto era importante falar sobre aquilo em uma novela teen. Acredito que nossa profissão tem o dever de comunicar e é também uma profissão social. Então, se através dos meus personagens estou transformando para melhor a vida de alguém, estou com o meu papel cumprido como artista”.

Entre os hábitos discretos que alimenta longe das câmeras, o desenho ocupa uma posição singular. É uma prática íntima, quase confessional, que ela cultiva desde criança e que ocasionalmente divide com o público. “Eu resolvi criar um Instagram para postar. Não é algo que eu alimento com frequência. Agora que voltei a desenhar, publiquei novamente. É uma habilidade que tenho desde criança e que gosto porque me faz bem e é terapêutica. Acredito que consigo me expressar melhor também no papel. É um processo muito particular e bom, e acabei compartilhando. Vi que as pessoas gostaram, então foi interessante. Já desenhei personagens e coloquei no papel coisas que vieram à minha mente, e isso me deu clareza de alguns pensamentos que o próprio personagem poderia ter em cada cena”.

Atriz trouxe em “Malhação” o debate sobre anorexia e bulimia (Foto: Carlo Locatelli)

Leitora voraz, ela comenta também o livro que a acompanha no momento e o impacto que produziu em sua vida. “É um livro da Louise Hay, palestrante americana, e o livro se chama Você Pode Curar a Sua Vida: Como Despertar Ideias Positivas, Superar Doenças e Viver Plenamente. Esse livro me transformou. É a segunda vez que estou lendo; a primeira foi em 2018. Foi um livro de autoajuda que transformou meu ponto de vista e minha maneira de pensar sobre as coisas. E uma das coisas que me transformou foram as afirmações positivas. Eu faço afirmações positivas como um ritual toda manhã: afirmações sobre mim mesma, sobre o que quero realizar, sobre o que quero fazer na minha vida, sobre quem sou, o que quero me tornar, alimentando minha autoestima, meu autocuidado, principalmente pensamentos positivos em relação ao que quero realizar”.

A trajetória recente de Arianne Botelho parece mover-se entre intensidade e delicadeza disciplinada, como se cada personagem exigisse dela uma forma específica de respiração. O sucesso do filme, a rigidez quase coreográfica do adestramento, o encontro acidental com Amendoim, o estudo da mulher que resiste no Brasil Império, os desenhos guardados em silêncio e as afirmações ditas ao amanhecer se sobrepõem como camadas de uma mesma jornada. Em todas elas, Arianne se aproxima de um país que muda pouco e de um público que muda devagar, sustentada por convicções que atravessam as décadas e por uma crença persistente de que contar histórias — de mulheres, de animais, de vulneráveis de toda ordem — ainda pode reorganizar alguma parte do mundo.