*Por Rodrigo Otávio
Recentemente, o SBT trouxe de volta o clássico telejornal “Aqui Agora“. Famoso nos anos 1990 pelo estilo declaradamente sensacionalista — e, muitas vezes, grotesco — o programa se notabilizou por lançar mão de recursos inusitados para entreter, como colocar o ex-pugilista Maguila (1958-2024) para comentar economia. A fórmula incluía uma linguagem extremamente coloquial, ausência de filtros na exibição de cenas de violência e até suicídios. Na nova versão, mais contida pelas normas do que se convencionou chamar de “politicamente correto”, o programa tenta manter o apelo popular, mas aposta agora em um humor pontuado por quadros e intervenções. Dentro desse formato, foi criado o boletim “Notícias Curtas”, apresentado pela influenciadora Juliana “Fofa” Alves, uma mulher com nanismo.
É nesse ponto que a reflexão se impõe: “Fofa” é carismática e demonstra talento diante das câmeras. A presença de uma jornalista com nanismo poderia – e deveria – significar um passo relevante para a inclusão de pessoas com deficiência no telejornalismo. No entanto, a forma como o programa estrutura o quadro levanta a dúvida: estamos ampliando a visibilidade ou reforçando estereótipos historicamente associados à sua condição? A própria aparição de “Fofa” na TV, quando era casada com o assistente de palco de Geraldo Luís na Record, o Anão Marquinhos, já revelava seu perfil extremamente profissional. “Fofa” é, também, um fenômeno nas redes sociais, compartilhando sua experiência com a fé evangélica. Não à toa tem quase 1 milhão de seguidores.
Inclusão verdadeira exige mais do que contratar: exige contexto, respeito e o compromisso de mostrar que a pessoa está ali por sua competência, e não para ser o fecho de uma piada.
A pergunta que orienta esta crítica é, na verdade, o ponto de partida para uma reflexão mais ampla: estamos diante de um avanço na representatividade ou de um retrocesso disfarçado de humor?

Fofa Alves no “Aqui Agora” no boletim “Notícias Curtas” (Foto: Reprodução/SBT)
Um levantamento publicado pelo site Heloisa Tolipan mostrou que, na televisão brasileira, os exemplos de jornalistas e comunicadores com deficiência são raríssimos: a repórter do Fantástico Flávia Cintra, o apresentador do Esporte Espetacular, Fernando Fernandes, e o repórter do Carnaval Globeleza Pedro Henrique França estão entre os poucos nomes visíveis no jornalismo nacional. Nessas trajetórias, a deficiência é parte da identidade, mas não o centro da narrativa — algo naturalizado, sem transformar a condição física em objeto de humor.
Os números confirmam a invisibilidade. Segundo artigo do Centro Universitário Anhanguera (2023), assinado por Sarah Gomes Silva, Lislei do Carmo Tavares Carrilo, Silvia Terezinha Torreglossa e Maurício Manoel Jarra, nos cursos de Jornalismo e áreas correlatas (Cinema e Audiovisual; Rádio e TV; Rádio, TV e Internet; Comunicação Social – Rádio e Televisão) de municípios paulistas, há 26.650 estudantes matriculados. Apenas 144 possuem alguma deficiência, o equivalente a 0,54% do total. Entre eles, 54 têm deficiência visual e 52, física; o restante inclui autismo, deficiência auditiva, intelectual e múltipla.
O estudo destaca a “invisibilidade dos jornalistas com deficiência e como ela pode impactar diretamente ou indiretamente a vida de deficientes e das empresas, trazendo uma maior conscientização sobre o assunto e visando a inclusão no mercado de trabalho”.

Fofa Alves é comunicadora e influenciadora e atua no “Aqui Agora” (Foto: Reprodução/Facebook Fofa Alves)
É justamente por essa escassez de representatividade que a presença de Juliana “Fofa” Alves no “Aqui Agora” deveria ser celebrada como um marco. Mas, para que seja de fato inclusiva, sua participação não pode estar amarrada à lógica de ser o “elemento engraçado” do quadro. Transformar a diversidade em caricatura, ainda que de forma sutil, pode perpetuar uma tradição de estereotipar corpos diferentes — algo recorrente na dramaturgia e, lamentavelmente, agora também no telejornalismo.
Inclusão verdadeira exige mais do que contratar: exige contexto, respeito e o compromisso de mostrar que a pessoa está ali por sua competência, e não para ser “alívio cômico”.
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