*Por Brunna Condini
O final do ano para Kelzy Ecard chega mais com espírito de renovação do que de encerramento de ciclo. Ela recebe 2026 transformada. A atriz está de volta às novelas em ‘Três Graças’, folhetim das 21h da Globo, como Helga, a nova cuidadora contratada por Arminda (Grazi Massafera) para acompanhar a matriarca Josefa (Arlete Salles). Kelzy retorna ao horário nobre em um momento profundamente simbólico da própria vida. Aos 60 anos, vive uma fase de reconstrução física, emocional e profissional após atravessar um tratamento intenso contra um câncer de mama agressivo (descoberto no final de 2022), experiência que reordenou prioridades, ativou um instinto radical de preservação e ampliou sua fome de vida, de trabalho e de histórias para contar. “Resolvi me cuidar melhor. E tudo melhora: sono, disposição, energia. Me sinto mais jovem agora do que há cinco anos. Me sinto renovada”.
O corpo que chega à novela é outro. A atriz emagreceu quase 40 quilos com acompanhamento médico e nutricional, em um processo que começou como consequência direta do tratamento oncológico, concluído em 2024. “O tratamento compromete muito a musculatura, a massa magra. Me carregar estava muito difícil, e a obesidade é um fator de risco. Então, resolvi emagrecer. Não foi vaidade, foi necessidade. Vontade de viver”.
E ainda salienta: “Minhas vaidades passam por outros lugares. São o que eu posso apresentar para o mundo no sentido do que produzo, não da minha aparência”. A transformação também chegou ao visual. Louríssima, por escolha própria, antes mesmo do convite para a novela, ela assume que a mudança teve motivação profissional: romper ‘prateleiras’, deslocar percepções e ampliar possibilidades de escalação. “Pensei: ‘Quero mudar, quero que as pessoas me vejam de uma maneira diferente’. Porque tem uma coisa que é uma visão do audiovisual, que parece que têm tipos que você encaixa e isso se repete, quis ampliar possibilidades. E é impressionante como se, de alguma maneira, isso realmente funciona”.
Fui muito escalada para o papel de pobre sofredora. Quero fazer outras coisas também, tenho muitas possibilidades como atriz. É preciso ficar atenta, porque a TV, o audiovisual, podem colocar os atores em ‘caixinhas’ – Kelzy Ecard

Após o câncer, Kelzy Ecard volta às novelas renovada internamente e fisicamente aos 60 e afirma: “Não foi vaidade, foi vontade de viver mais e melhor” (Foto: Claudia Brandão)
Em ‘Três Graças’, escrita por Aguinaldo Silva em parceria com Virgílio Silva e Zé Dassilva, sua personagem é uma figura rígida, carrancuda, silenciosa, que parece observar mais do que agir. “Esse novo visual combinou muito, a caracterização gostou e mantivemos”. Se vive uma vilã ou não, nem a atriz sabe ao certo: “Eles criam mistério até pra gente. Faço parte do núcleo dos vilões, mas ela ainda não fez nenhuma maldade exatamente. Novela é obra aberta e tem esse encanto: cada capítulo chega e você se surpreende. Vamos ver o que Helga reserva”.
Entrar em uma novela já em andamento, e em uma trama que reconquistou o prazer do público em acompanhar e comentar os folhetins, não assustou Kelzy. “Claro que é uma loucura entrar em uma produção que já tem seu ritmo. Mas entrei em um sucesso e me senti acolhida”. Ainda assim, ela admite alguns receios. “Estava até com medo. Pensei: ‘Meu Deus, vão cair de pau em mim, porque eu substituí a outra cuidadora, que foi atropelada’ (Claudia, vivida pela atriz Lorrana Mousinho). Achei que iam acabar comigo (risos). Mas as pessoas estão achando divertida essa figura lá com a dona Josefa”.

Kelzy Ecard contracena com Arlete Salles em ‘Três Graças’ (Foto: Divulgação/Globo)
Parte dessa sensação de pertencimento vem do fato de Kelzy já ter cruzado caminhos com vários integrantes do núcleo ao longo da carreira. “Tive muita sorte. Fiz ‘Dona Beja’ com a Grazi. E o Paulo Mendes, que faz o filho da Arminda, o Raul, fez meu neto em ‘Dona Beja’, quando a novela mudou de fase”, diz, mencionado a trama do HBO Max que estreia em 2 de fevereiro. Ela lembra de outros encontros profissionais que facilitaram sua chegada. “Com a Arlete eu não contracenei exatamente, mas fizemos ‘Segundo Sol’(2018) . E com a Sophie Charlotte, fiz ‘Todas as Flores’ (2022). Não éramos do mesmo núcleo, mas nos esbarrávamos. Então, caí em casa. Você vai rodando na vida, a carreira vai andando, e no final conhece todo mundo, conhece a equipe. Não teve esse choque de ‘está chegando uma estrangeira’.” E conclui: “Foi como se eu já fizesse parte daquela turma toda ali”.
Curiosamente, o novo visual e a construção da personagem têm provocado um efeito raro para quem tem mais de três décadas de carreira: o anonimato momentâneo.
As pessoas não estão me reconhecendo mais. Acho isso fabuloso. Um amigo meu assistiu à uma cena da novela em que eu estava e disse: ‘você não apareceu hoje’. E eu estava lá. É uma sensação de recomeço, de novidade mesmo – Kelzy Ecard

“Fui muito escalada para papel de pobre sofredora. Quero fazer outras coisas também, tenho muitas possibilidades como atriz” (Foto: Claudia Brandão)
Entre a Helga de ‘Três Graças’, a estreia próxima de ‘Dona Beja’ , em que interpreta Augusta Costa Pinto; e o impacto afetivo do sucesso ‘Caramelo’ da Netflix, filme que, segundo ela, “abraça e acolhe”, longa que tem a possibilidade de uma continuação no horizonte; Kelzy celebra a possibilidade de exercer sua versatilidade artística: “O ator é isso: vestir vidas diferentes. Mas a TV adora colocar a gente em ‘caixinhas’. É muito bom poder sair delas”.
Ressignificando viver
Fora de cena, o cuidado continua: alimentação sem ultraprocessados, terapia, exercício físico, meditação, um caminho escolhido para atravessar a ansiedade que veio depois do fim do tratamento. “Quando a medicação acabou, veio uma ansiedade muito grande. Você entra em uma paranoia, fica imaginado como seu corpo vai se comportar agora…tratei um câncer muito agressivo, então deu realmente um negócio. Aí o meu clínico geral falou: ‘Olha, eu estou fazendo um processo de meditação, é muito bom’. E fui experimentar, porque não queria entrar em uma coisa de me medicar para isso. Já havia ficado quase dois anos tomando remédios. Queria uma coisa que agredisse menos o meu corpo. Tem funcionado”.

“As pessoas não estão me reconhecendo mais. Acho isso fabuloso. É uma sensação de recomeço, de novidade mesmo” (Foto: Claudia Brandão)
A experiência da doença reorganizou sua relação com o tempo e as urgências do cotidiano: “Estar viva realmente ganha um significado além. Coisas que eu dava uma importância muito grande talvez hoje tenham um outro peso. A vida dá uma cambalhota”.
Com novos projetos no teatro, no audiovisual e no cinema, Kelzy fala sem romantizar sobre o desejo que ainda permanece: ter mais estabilidade, financeira e de tempo, para viver com menos aperto e mais espaço criativo. “Tenho muita vontade de viver. De pintar, de estudar piano, de fazer cerâmica, de viajar. Sou uma pessoa com desejos, com vontade de experimentar coisas”. Ainda assim, ela faz um balanço sereno do momento:
Do jeito que está, já está muito bom. Estou com saúde, trabalhando em algo que amo. Os desejos para 2026 são só de viver mesmo. E cada vez melhor, mais inteira – Kelzy Ecard

“Estar viva realmente ganha um significado além. Coisas que eu dava uma importância muito grande talvez hoje tenham um outro peso” (Foto: Claudia Brandão)
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