Após fritura na Globo e ostracismo na Band, os bastidores de Galvão Bueno na reconstrução do SBT através da Copa


O SBT surpreendeu ao anunciar a compra dos direitos da Copa do Mundo de 2026 e a contratação de Galvão Bueno, que havia se despedido das transmissões em 2022. A emissora aposta no narrador para se reposicionar, oferecendo-lhe o protagonismo que perdeu na Globo. O movimento sinaliza uma tentativa de firmar identidade no esporte, após experiências com Champions League e Copa América. A última Copa exibida pelo SBT foi em 1998, e o retorno, quase três décadas depois, exige enfrentar a concorrência digital de plataformas como GeTV e CazéTV. Resta saber se a rede terá constância para sustentar o projeto ou se repetirá sua tradição de descontinuidades

*por Rodrigo Otávio

A trajetória recente de Galvão Bueno, após a saída da Globo, foi marcada por experiências pouco frutíferas, como a passagem pela Band, emissora que enfrenta mais uma de suas recorrentes crises de audiência e faturamento. Agora, no SBT, abre-se uma chance de reabilitação profissional, mas também de reposicionamento institucional. Não faz muito tempo, o Site Heloisa Tolipan chamou atenção para o que parecia ser a acomodação do SBT: uma emissora voltada ao passado, sem ousadia para repensar estratégias de mercado. Mas, no dia 10, o SBT surpreendeu o setor ao anunciar não apenas a compra do pacote de direitos da Copa do Mundo de 2026, como também a contratação de Galvão Bueno, o maior nome do jornalismo esportivo brasileiro.

Não por acaso, quase simultaneamente ao anúncio, Galvão deu uma entrevista à Folha de S.Paulo em que revelou mágoa com a antiga emissora. A Globo teria pedido que ele apresentasse um projeto para seguir no ar; ele recusou. Mais do que isso: sentiu-se em “fritura” quando foi deslocado para quadros sobre memória esportiva no insosso “É de Casa”. Ao que parece, o SBT oferece ao narrador o respeito e a centralidade que lhe faltaram na reta final de sua carreira na emissora carioca. A escolha agora é simbólica. Galvão havia se despedido das transmissões na Copa do Catar, em 2022, declarando aposentadoria. Mas, retorna à cena para mais uma Copa — a última? — em uma casa nova.

Se no passado a batalha se travava apenas na TV aberta, hoje o cenário é mais complexo. Ainda não está claro se o SBT transmitirá a Copa em seu aplicativo +SBT ou em plataforma própria de streaming. A concorrência nesse ambiente é feroz: a Globo investe pesado no GeTV, enquanto a CazéTV já provou força de engajamento. Para o SBT, portanto, a equação passa não só pela TV tradicional, mas também pela adaptação a um consumo multiplataforma.

SBT em transmissão esportiva de 1989 (Foto: Reprodução)

É verdade que a instabilidade sempre foi uma marca da emissora de Silvio Santos: programas surgem e desaparecem sem aviso, projetos mudam de rumo. Mas o esporte pode se tornar uma âncora de identidade. Fontes ligadas ao Site Heloisa Tolipan indicam que o SBT do Rio prepara um novo programa esportivo, ainda sem data prevista de estreia. Inclusive, o Rio responde por uma das praças com melhor resultado no jornalismo esportivo através dos repórteres Lucas Pedrosa e Venê Casagrande. Essa movimentação reforça a ideia de que o futebol será, ao menos por ora, o caminho para o canal se redefinir no mercado.

Lucas Pedrosa e Venê Casagrande no SBT Sports (Foto: Reprodução)

Não seria inédito: em 2021, a emissora voltou às transmissões esportivas com a Copa América. Mais recentemente, exibiu partidas da Champions League e contratou Cleber Machado, outro ex-Globo, hoje vinculado à Record. Mas a Copa do Mundo é um salto de escala: não apenas por garantir todos os jogos da Seleção Brasileira, mas por reposicionar o SBT num segmento ainda carente de diversidade e alternativas frente ao monopólio da Globo.

Um retorno quase 30 anos depois

O investimento tem também sabor de resgate histórico. A última vez que o SBT transmitiu uma Copa do Mundo foi em 1998, na França, dividindo os direitos com Globo, Band, Manchete e Record. Nessa época, Galvão ainda liderava as transmissões globais. O retorno em 2026 marca, portanto, 28 anos de ausência do torneio no SBT. Para os mais nostálgicos, o movimento evoca ainda o mascote “Amarelinho”, símbolo que acompanhou as transmissões do SBT até meados dos anos 1990 e que foi retomado em 2021. Um gesto de memória afetiva que a emissora parece disposta a explorar.

Os números de audiência de 1998 ajudam a contextualizar o desafio. No jogo Brasil x Holanda, válido pela semifinal, a Globo registrou 57 pontos; a Band, 8; o SBT, 5; a Record, 2; e a Manchete, 1 — segundo dados do Ibope compilados pela Unicamp. Em artigo de Édison Gastaldo, professor da Unisinos, publicado abaixo, temos a tabela com os jogos e as audiências daquele momento.

Tabela de audiência dos jogos do Brasil (Foto: Reprodução/Revista Interface UFRGS)

O pacote exigirá que a emissora estruture uma equipe completa: comentaristas, repórteres, locutores e analistas terão de ser contratados. Para o mercado de comunicação esportiva, isso significa oportunidades. Para o público, representa a possibilidade de pluralidade de vozes e estilos narrativos.

Em síntese, o SBT tenta reposicionar sua marca por meio do esporte, em especial pelo maior torneio do planeta. Galvão Bueno, por sua vez, encontra uma derradeira chance de encerrar sua trajetória diante do microfone em grande estilo, com o protagonismo que sempre buscou. A história, que começou com desconfiança, pode se transformar em um capítulo decisivo para ambos. Resta saber se, desta vez, o SBT terá constância e planejamento para sustentar o projeto — ou se repetirá sua conhecida tendência à descontinuidade.