*Por Brunna Condini
Em ‘O Agente Secreto’, que estreia nos cinemas de todo o Brasil nesta quinta-feira (6), Wagner Moura volta a filmar em português depois de 12 anos atuando em filmes internacionais e celebra a força do nosso cinema no mundo. Após uma trajetória de destaque nos principais festivais do mundo, o longa foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na corrida por uma indicação na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2026. Recebeu também duas indicações ao Gotham Film Awards, premiação que celebra o cinema independente, nas categorias Melhor Roteiro Original e Melhor Atuação para Wagner. As nomeações se somam a uma lista de conquistas do filme, que em maio foi consagrado no Festival de Cannes, onde venceu os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator, reforçando o lugar de destaque do cinema brasileiro no cenário internacional.
A produção agora inicia oficialmente sua campanha rumo à maior premiação do cinema mundial. Mas, como o próprio ator pondera, o caminho é longo: “O filme está nos festivais e lugares certos, está sendo divulgado de forma bem feita. Kleber (Mendonça Filho, diretor), o bichinho, não dorme, vive o mundo todo viajando. Então, o nosso trabalho temos feito, de promoção do filme. E as coisas estão chegando. As pessoas ficam me perguntando do Oscar, digo que temos que ter calma, respirar. Quando rolam as indicações, aí sim começo a ver um caminho para isso”.
Mais do que focar no Oscar, o ator destaca o sentido político da arte para o país:
Sou fruto das leis de incentivo à cultura. Existo porque, na Bahia, nos anos 1990, houve leis que possibilitaram que atores do teatro baiano, eu, Lázaro (Ramos), Vladimir (Brichta), pudéssemos existir como artistas. E não só isso. Um país precisa se ver na sua cultura, precisa se olhar. Nenhum país se desenvolve sem se ver – Wagner Moura

Wagner Moura em ‘O Agente Secreto’, que estreia nesta quinta-feira (6): “Sou fruto das leis de incentivo. Um país precisa se ver na sua cultura” (Foto: Victor Jucá)
Ele também comenta o reencontro com o cinema no Brasil. “Fazia muito tempo que eu não trabalhava falando português em um filme. Então, ter voltado a fazê-lo no Recife, que é uma cidade importantíssima na minha vida, foi muito especial. Foi um dos processos mais felizes que tive de trabalho”. E fala da importância de perceber a arte dentro do contexto do país:
A cultura e a democracia andam juntas. Desde o momento em que o Brasil voltou a ser um país com tendências democráticas, a cultura veio junto. Olha a safra do cinema brasileiro deste ano, a quantidade de filmes maravilhosos que foram lançados. Agora, acho que é um momento mais propício. Tenho um bocado de projeto pra trabalhar aqui – Wagner Moura
Sobre ‘O Agente Secreto’, o artista destaca o encontro com Kleber Mendonça Filho como o ponto de partida de uma criação política e afetiva. “Não é à toa que me juntei com o Kleber, porque ele é um cineasta político. Esse filme nasce de um momento que nós dois vivemos e compartilhamos: nossa perplexidade, nossa vontade de reagir, de fazer alguma coisa. ‘O Agente Secreto’ nasceu disso”, revela.

Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura nos bastidores de ‘O Agente Secreto’ (Foto: Laura Castor)
E completa ao falar do cinema como exercício de cidadania: “Acho que o negócio de falar que é cinema político é quase uma redundância. Se a natureza do artista é política, se você pensa politicamente, a sua obra vai caminhar por esse lado. Gosto de pensar que este filme está na ‘prateleira’ das coisas que tenho feito ultimamente, só que agora estou mais confiante de quem sou, do que eu quero fazer, do tipo de artista que me tornei e pretendo continuar sendo”.
Aos quase 50 anos, completos em 2026, Moura vive uma fase de maturidade e redescobertas. Além do filme, ele celebra o retorno aos palcos com a peça ‘Um julgamento, depois do inimigo do povo’, escrita em parceria com Cristiane Jatahy e Lucas Paraízo, que estava em cartaz no Rio de Janeiro até esta segunda-feira (3). “Esse espetáculo estreou em Salvador e você não sabe o que é a alegria pra mim de fazer isso, uma peça com diretora brasileira, com um elenco da minha cidade. Depois de tudo o que vivemos, de um tempo em que o cinema praticamente acabou no país, estar aqui, agora, é um renascimento”.

Em cena: “Acho que o negócio de falar que é cinema político é quase uma redundância” (Divulgação)
O Brasil que o cinema reflete
‘O Agente Secreto’ é um thriller que se passa em dois tempos distintos, mas a ação principal acontece em 1977, durante a ditadura militar, onde Marcelo (Wagner), um homem que trabalha como professor especializado em tecnologia, sai de São Paulo e vai para Recife. Porém, a tranquilidade que ele busca logo dá lugar ao caos durante o carnaval, quando o passado que tentava deixar para trás volta a se impor. O lançamento do filme no momento presente, e após a repercussão mundial de ‘Ainda estou aqui‘, de Walter Salles, que fez renascer o orgulho do povo pelo seu cinema; assume proporções simbólicas: não é apenas “mais um filme brasileiro”, mas uma janela sobre como o país se vê, ou precisa se ver. A fala de Moura, repleta de memória e afeto, traduz esse olhar de dentro.
“Nasci em 1976. E, apesar da ditadura ter acabado em 1985, os ecos dela ficaram ali. Então, eu me lembro de, ainda menino, ver meus pais falando baixinho coisas. ‘Por que eles estão falando isso baixinho?’, pensava. Essa época está muito na minha memória. Aquela camisa que o personagem usa, os caras deixavam a camisa meio aberta aqui no começo, com o peito cabeludo aparecendo. Era meu pai. Ele botava aquelas camisas e metia o cigarro no bolso esquerdo”, recorda. Entre lembranças pessoais e o retrato histórico, o ator transforma memória em matéria de cena, e confere a ‘O Agente Secreto’ uma camada emocional que vai muito além da ficção.

“A cultura e a democracia andam juntas. Desde o momento em que o Brasil voltou a ser um país com tendências democráticas, a cultura veio junto” (Divulgação)
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