*por Vítor Antunes
Por muitos anos, Nuno Leal Maia teve sua imagem associada à vitalidade, à juventude e, sobretudo, ao bom humor. Na televisão, construiu uma galeria de personagens carismáticos que refletiam esse espírito leve e bem-humorado, tornando-se um dos rostos mais populares da dramaturgia brasileira. Hoje, aos 78 anos e afastado das novelas há mais de uma década, o ator enxerga no amadurecimento um desencaixe àquilo que a TV procura. A última trama do ator foi “Amor Eterno Amor“.
Hoje em dia, tudo depende do que os produtores procuram. Em geral, eles preferem fazer produções voltadas para o público jovem. Com isso, atores mais maduros acabam perdendo espaço. Em outros países, porém, atores mais velhos têm muito mais oportunidades. No Brasil, isso acontece menos porque existe uma valorização muito grande dos influenciadores e da juventude. A arte dramática deve retratar a vida como ela é. A vida reúne pessoas de todas as idades. Por isso, acredito que não deveria ser assim – Nuno Leal Maia
Ele prossegue: “O impacto do envelhecimento é o impacto da própria vida. Você enfrenta a vida, evolui e cresce mentalmente como ser humano, além de amadurecer como ator e como profissional. O teatro precisa ser uma prática constante. Quanto mais você o exercita, mais cresce. Vai somando experiências com os filmes, as peças, as novelas, as séries e também com o humor, de que gosto muito. Sempre presto muita atenção aos atores quando assisto a qualquer produção. Também se cresce com o cinema, fazendo filmes, e com a própria vida. A vida é um processo de crescimento”.
Acredito que estamos aqui para aprender alguma coisa. Não sei exatamente por quê, nem para quê isso serve, mas talvez seja uma forma de alcançar uma purificação espiritual maior – Nuno Leal Maia
A reflexão ganha ainda mais significado diante da despedida de um dos grandes nomes da teledramaturgia brasileira. Na última terça-feira, morreu Benedito Ruy Barbosa (1931-2026), autor que marcou a trajetória de Nuno ao lhe entregar seu primeiro protagonista em novelas. Foi em Pé de Vento (1980), exibida pela TV Bandeirantes, que o ator viveu um atleta determinado a realizar o sonho de disputar a tradicional Corrida de São Silvestre. Com carinho, Nuno recorda os bastidores da produção e destaca o elenco que o acompanhou naquela experiência. “Pé de Vento foi um ótimo trabalho, uma excelente novela. Tinha um elenco fantástico, maravilhoso: Bete Mendes, Maurício do Valle (1928-1994), Fausto Rocha (1943-2001) e Canarinho (1927-2014). Era um time de primeira. Foi muito bacana.”
Curiosamente, embora interpretasse um corredor, a prática nunca esteve entre suas modalidades favoritas. “Eu sempre gostei de praticar alguma atividade para cuidar da saúde. Nunca fui corredor e nem gostava de correr. Fazia um esforço por conta da novela, mas corrida nunca foi a minha praia. Sempre gostei de praticar esportes como complemento para a qualidade de vida, para não ficar sedentário.”

Elenco de “Pé de Vento” (Foto: Reprodução/Band)
Depois de muitos anos longe dos palcos em uma temporada regular, Nuno Leal Maia voltou ao teatro. O ator integra o elenco de Meno Male, texto de Juca de Oliveira (1935-2026), em cartaz no Teatro Renaissance, em São Paulo. E, ao que tudo indica, este será seu único trabalho artístico em 2026. Fiel à filosofia de se dedicar integralmente a um projeto de cada vez, ele não pretende assumir novos compromissos enquanto a montagem estiver em cartaz. “Além da peça, não devo fazer outras atividades. Costumo fazer uma coisa de cada vez. Não tenho nada projetado por enquanto.. É muito bom participar de um espetáculo do Juca. Achei a peça sensacional. A peça fala sobre a corrupção que existe no poder e aborda esse tema de forma muito direta. O público ri bastante, mas a proposta é séria. Fazemos tudo com seriedade, embora o sofrimento dos personagens acabe tornando muitas situações engraçadas. A intenção é provocar reflexão.”
Na montagem, Nuno interpreta um homem comum que, inesperadamente, é tragado pelos mecanismos do poder e da corrupção, ainda que sua trajetória comece distante desse universo. “Meu personagem entra no meio dessa história. Ele não tem uma ligação direta com a questão política, exceto pelo fato de estar sendo expulso de casa por causa da construção de um viaduto, de prédios e de condomínios. Ele enfrenta essa pressão e esse é o principal aspecto político da trajetória dele. Depois, acaba se envolvendo em um acidente com pessoas ligadas à Secretaria de Governo e passa a fazer parte da trama principal. Esse aspecto político da peça é muito importante, porque retrata uma realidade que continuamos vivendo. A montagem acabou se tornando atemporal. Fizemos algumas adaptações para aproximá-la dos dias atuais, atualizando pontos que haviam envelhecido, mas o núcleo da história continua completamente vivo.”

Nuno Leal Maia está na TV desde o início dos Anos 1970 (Foto: Divulgação/Globo)
A construção do personagem também nasceu de memórias afetivas e profissionais. Nuno buscou inspiração em dois mestres italianos com quem conviveu no início da carreira, ainda nos anos 1970, quando atuava na TV Tupi. As lembranças das conversas e da forma de falar de ambos acabaram incorporadas à composição de “Meno Male“. “Aliás, Otelo Zeloni (1921-1973) e Gianni Ratto (1916-2005), cenógrafo, foram os dois que me deram a base para construir o personagem Menomale. Trabalhei com o Zeloni, que era italiano e vivia no Brasil. Já com o Gianni Ratto trabalhei em Um Bonde Chamado Desejo. Ele era um cenógrafo maravilhoso, e conversávamos muito. Como os dois eram italianos, fui incorporando a maneira de falar de cada um. Eu me lembrava muito deles durante a composição do personagem. Os dois me ajudaram bastante.”
O ator também elogia a condução do diretor Léo Stefanini, responsável por preservar a essência do texto de Juca de Oliveira durante os ensaios. “Eu não conhecia o Léo Stefanini e nunca tinha trabalhado com ele”. O ator diz, no entanto que o diretor deu ao elenco muita liberdade. “No começo ficou um pouco preocupado porque nós brincávamos muito durante os ensaios, mas depois percebeu que estávamos construindo os personagens de verdade. Ele sempre dizia: ‘Tem que ser exatamente como está escrito. Não podemos colocar cacos nem inventar demais. Vamos fazer do jeito que está no texto, porque é a melhor solução.’ Claro que sempre acaba surgindo uma coisa ou outra, isso não tem jeito.”
A temporada de Meno Male marca um reencontro especial de Nuno com os palcos. A última vez que protagonizou uma montagem em cartaz por uma longa temporada havia sido há meio século. Desde então, participou apenas de trabalhos esporádicos no teatro. “A última peça que fiz havia sido Dois Passos da Juventude, em 1976. Depois disso, participei de montagens apenas pontualmente. Encaro o teatro quase como uma religião: de tempos em tempos, faço questão de voltar aos palcos, porque é importante para a reciclagem do ator. Gosto muito de teatro”. A peça está em São Paulo e deve chegar ao Rio de Janeiro no fim do ano.

Nuno Leal Maia atua em montagem de “Meno Male” (Foto: Jofi Herrera)
HISTÓRIA
A trajetória de Nuno nas artes, no entanto, vai muito além da televisão e do teatro. Nos anos 1970, ele construiu uma filmografia diversa, passando por produções autorais, filmes realizados na Boca do Lixo e até comédias inspiradas no espírito das antigas chanchadas. Formado em cinema, ele sempre encarou cada trabalho como uma oportunidade de aprendizado. “Fiz um pouco de tudo no cinema. Estudei cinema justamente para aprender a fazer cinema e fui adquirindo experiência ao longo da carreira. Mais tarde, inclusive, ganhei o Prêmio Air France por Ato de Violência, do Eduardo Escorel.”
Entre os trabalhos que mais o marcaram está justamente Ato de Violência (1981), dirigido por Eduardo Escorel. No longa, interpretou um homem alcoólatra e feminicida — um papel que exigiu intenso envolvimento emocional e foi filmado em condições extremas, dentro de um presídio. “Em 1981, meu personagem já era um feminicida. Era um homem completamente dominado pelo álcool, que o levava a cometer todos aqueles crimes. Foi um trabalho muito difícil, tanto pela história quanto pela carga emocional. Filmávamos em uma prisão. Eu chegava por volta das seis da manhã e permanecia até as sete da noite no meio dos detentos. Não havia camarim nem estrutura para os atores. Era preciso conviver com os presos o tempo todo. Eu ficava completamente exposto e recebia uma carga muito grande de negatividade, porque aquele ambiente era tomado por esse tipo de energia. Como ator, você acaba absorvendo parte disso. De certa forma, entra em confronto com aquela atmosfera. Em alguns momentos havia apresentações dentro da prisão, e o Eduardo Escorel dizia: ‘Fica lá no meio deles, que eu filmo’. Havia drogas circulando, gente fumando maconha ao redor. Foi uma experiência muito intensa. Apesar de tudo, considero esse um dos filmes mais interessantes que fiz na carreira.”

Nuno Leal Maia em “Ato de Violência” (Foto: Divulgação)
Ao recordar a produção cinematográfica da época, Nuno evita preconceitos e contextualiza o período vivido pelo cinema nacional. Embora reconheça as limitações financeiras das produções da Boca do Lixo, faz questão de destacar que aquele ambiente também foi uma importante escola para sua formação como ator. “Cheguei a fazer O Bem-Dotado de Itu, uma comédia da qual tenho muito carinho e que se aproximava um pouco do espírito das chanchadas. Já a maior parte dos filmes produzidos na Boca do Lixo era muito precária. Havia pouco dinheiro e a preocupação principal era obter retorno financeiro rapidamente. Com isso, muitas vezes a qualidade acabava ficando em segundo plano.”
No início da carreira, trabalhei em filmes da Boca do Lixo, em São Paulo. Eu estudava ali perto e queria aprender, queria trabalhar. Acabei fazendo esse tipo de produção, que representava uma fase específica do cinema brasileiro. O cinema brasileiro passou por várias fases, assim como houve a época da chanchada. Se eu tivesse vivido naquele período, teria feito muitas chanchadas, porque adorava esse gênero. Eu era um grande espectador – Nuno Leal Maia

Nuno Leal Maia em “Meno Male” (Foto: Jofi Herrera)
ENTRE O BRILHO E A BOLA
No fim de 1995, Nuno Leal Maia decidiu dar uma pausa na carreira artística para se dedicar a uma antiga paixão: o futebol. Depois de anos interpretando atletas e técnicos na ficção, ele viveu a experiência do outro lado do campo e comandou equipes profissionais, conciliando, por um período, a rotina dos gramados com os compromissos na televisão. “Quando terminava História de Amor, abri espaço para me dedicar ao futebol. Fui para a Paraíba concluir um trabalho no Botafogo-PB, em João Pessoa, e passei um período dedicado exclusivamente ao clube. Depois, quando estava encerrando História de Amor, assumi um trabalho no Londrina. No início, ainda coincidiu um pouco com as gravações, mas, quando elas terminaram, pude me dedicar integralmente ao projeto como técnico.”
Minha proposta era desenvolver um trabalho corporal por meio da bola, valorizando o futebol-arte e aprimorando resistência física, força muscular e elasticidade dos jogadores. Era um projeto complicado, porque o futebol profissional vive em função das competições e dos resultados, que envolvem muito dinheiro. Os clubes precisavam vencer, enquanto eu pretendia desenvolver um trabalho voltado ao aprimoramento físico e técnico dos atletas, mais do que ao rendimento imediato. “Não vejo esse tipo de trabalho nem na Seleção Brasileira. O treinador reúne os jogadores, monta a equipe, faz o trabalho e segue em frente. É uma visão completamente diferente. Eu tentei fazer algo quase quixotesco, como Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, lutando contra moinhos de vento – Nuno Leal Maia
Embora tenha construído grande parte de sua trajetória na TV Globo, Nuno também deixou sua marca em outras emissoras. Em 1986, integrou o elenco de Novo Amor, na Rede Manchete, novela dirigida por Herval Rossano (1935-2007) e que, curiosamente, por muito pouco não recebeu o título de Brilho — história que o Heloisa Tolipan já contou anteriormente. O convite nasceu justamente da parceria bem-sucedida entre ator e diretor em A Gata Comeu (1985). A afinidade profissional fez com que Herval levasse Nuno para sua nova casa. “Foi o Herval Rossano que me chamou, porque o Herval foi para lá. Eu tinha feito A Gata Comeu com ele e, quando surgiu o convite, aceitei, porque havia gostado muito de trabalhar ao lado dele. Então me chamou para fazer Novo Amor. Foi uma novela curta. Eu interpretava um comissário de bordo. Eles montaram um avião no cenário, e a gente gravava ali. Era muito divertido, muito bacana. Gostei muito da experiência. Não havia ar-condicionado no estúdio. O calor foi intenso, mas foi muito bom trabalhar na Manchete.”

Nuno Leal Maia e Pelé em “História de Amor” (Foto: Reprodução/TV Globo)
Entre palcos, estúdios, campos de futebol e sets de cinema, Nuno Leal Maia construiu uma trajetória que sempre escapou das convenções. Nunca se limitou ao galã, ao atleta ou ao protagonista. Preferiu experimentar, aprender e recomeçar quantas vezes fossem necessárias. Aos 78 anos, retorna ao teatro sem a ansiedade de provar algo a alguém, mas com a serenidade de quem entende que o ofício do ator não se mede pelo tempo de exposição, e sim pela capacidade de continuar se reinventando. Como ele próprio resume, a vida é um permanente exercício de aprendizado — e talvez seja justamente essa disposição para evoluir, dentro e fora de cena, o papel mais importante que continua interpretando.
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