*por Vítor Antunes
O amadurecimento raramente chega de forma neutra. Ele traz consigo escolhas — e, quase sempre, decisões que exigem algum grau de renúncia e um esforço constante de equilíbrio. Ricardo Tozzi atravessa esse momento com a tranquilidade de quem parece ter feito as pazes com o próprio percurso. Ao completar 50 anos, vive uma fase de plenitude e consciência clara de que a vida se organiza em ciclos, alguns longos, outros abruptos, todos inevitavelmente transitórios. Atualmente está no elenco de uma peça que gira em torno do TOC — o transtorno obsessivo-compulsivo. Em “Toc Toc”, o humor funciona como porta de entrada para temas menos simples. A peça acompanha personagens atravessados por transtornos e dificuldades que fazem parte, em maior ou menor grau, da experiência contemporânea.
“Chegar aos 50 anos reforçou a percepção de alguém que está sempre analisando para onde está indo e refletindo sobre o que acontece ao meu redor. Fui executivo por quase 30 anos, com uma carreira extremamente bem-sucedida, até decidir mudar tudo para me tornar ator de teatro. Construí uma trajetória sólida e reconhecida nos palcos. Por volta dos 42 anos, ao encerrar mais um ciclo, percebi que precisava ressignificar minha vida. Estava no piloto automático, produzindo muito, mas já não encontrava sentido nesse ritmo. Foi então que decidi empreender, buscar caminhos que realmente fizessem sentido para mim”.
Não consigo lidar com os valores atuais que exaltam o chamado ‘sincericídio’, a ideia de ligar um celular para expor questões pessoais ou agredir outras pessoas. Isso acabou se tornando uma forma de entretenimento para muitos, mas não é algo que eu saiba ou queira fazer. O que sempre expus, ofereci e continuo oferecendo com muito amor é o meu trabalho. É por meio dele que me coloco no mundo. Fora isso, preservo a minha vida pessoal. Quando não estou trabalhando, sou reservado, porque é assim que me sinto confortável. Essa escolha vem da minha essência e também da minha formação – Ricardo Tozzi

Ricardo Tozzi em “Toc Toc” (Foto: Divulgação)
Antes de se tornar ator, Tozzi passou quase três décadas no mundo corporativo, onde construiu uma carreira estável e bem-sucedida. A transição para o teatro, no entanto, não foi uma fuga, mas um gesto deliberado de reinvenção. Nos palcos, firmou-se com consistência e reconhecimento, confirmando que a mudança não representava um abandono, mas a abertura de outra etapa igualmente exigente e estruturada. Discreto por temperamento e por escolha, o ator também se mantém distante de um dos vetores centrais da vida contemporânea: a lógica da exposição permanente nas redes sociais. Para ele, a visibilidade nunca foi um fim em si mesma. “A exposição nunca fez sentido para mim. Quem acompanha a minha carreira sabe que nunca me expus, simplesmente porque isso não me diz respeito. Essa postura é uma conquista pessoal, fruto de conforto e escolha. Não entro nesse jogo, embora hoje o mundo esteja muito focado na exposição constante, na produção contínua de conteúdo sobre si mesmo, o que muitas vezes se transforma em uma disputa ou em ataques mútuos”.
Hoje desenvolvo diversos projetos, equilibro múltiplas funções como empresário e empreendedor, sempre conectado a propósitos que me mobilizam de verdade. Ainda assim, nunca deixei de fazer o que mais amo: estar no palco. Desde o início, essa vontade de me comunicar com as pessoas é uma missão. Sou profundamente apaixonado por isso – Ricardo Tozzi

Ricardo Tozzi: Ator não descarta voltar às novelas (Foto: Divulgação)
Ricardo Tozzi não fecha portas, mas tampouco se deixa conduzir pela urgência. A possibilidade de voltar às novelas existe, ainda que sem pressa ou condicionada às lógicas tradicionais do formato. O tempo, hoje, é um critério tão decisivo quanto o texto ou o convite. “Hoje, foco nas atividades que exigem menos tempo e que me permitem investir um tempo de qualidade na minha carreira. Não consigo mais ficar disponível por um ano inteiro para um único projeto, especialmente considerando tudo o que faço atualmente. Busco equilibrar essas escolhas e priorizar aquilo que realmente faz sentido para mim. O teatro é uma dessas prioridades”.
Segundo ele, “é uma bênção ser ator, ocupar esse lugar e poder me comunicar. Vejo o teatro como um ritual e como uma missão, algo pelo qual sou profundamente apaixonado. No restante, sigo fiel ao que acredito. Não me conecto com as formas de exposição que se tornaram comuns hoje em dia. Respeito minhas convicções e, por isso, sou reservado. Quando vou trabalhar, ou quando algum projeto — inclusive os meus como empresário — exige exposição, faço isso com dedicação e afeto. Quanto à minha carreira de ator, coloco meu trabalho à disposição de quem quiser vê-lo, porque é nisso que reconheço o meu propósito.”
A fala traduz uma relação amadurecida com o ofício e com a própria imagem pública. Para Tozzi, a reserva não é ausência, mas método. Ele escolhe quando e como se expor, e, sobretudo, por quê. O trabalho, não a performance permanente, permanece no centro da equação.
Atualmente, esse trabalho pode ser visto no palco do Teatro UOL, em São Paulo, onde o ator integra o elenco de Toc Toc, comédia do autor francês Laurent Baffie, adaptada e dirigida por Alexandre Reinecke. Sucesso internacional, o espetáculo estreou nova temporada e permanece em cartaz de 23 de janeiro a 1º de março. Mais do que uma escolha circunstancial, a peça reafirma o lugar que o teatro ocupa em sua trajetória — um espaço recorrente, quase inevitável. “O teatro é, para mim, um lugar de retorno constante. Tenho feito muito teatro aqui e é sempre um espaço que escolho ocupar. Depois de tudo o que já fiz na minha vida, é um lugar do qual não abro mão. O teatro precisa ter propósito. Quando recebo um texto ou um convite, penso se quero contar aquela história e por que contá-la. Este espetáculo é lindo. Eu já era fã antes e entrei porque é uma obra que se comunica intensamente com a plateia. Rir é uma das formas mais potentes de comunicação, de quebrar barreiras e permitir que as pessoas se abram para receber a história.”

Ricardo Tozzi e o elenco de “Toc Toc” (Foto: Divulgaão)
Em Toc Toc, o riso, aqui, não serve como disfarce. Ele opera como gesto de acolhimento, um convite à empatia. “O espetáculo aborda questões presentes na vida de todos nós, transtornos e dificuldades que podem ser complexos de lidar, mas faz isso não apenas com humor, e sim a partir da aceitação. Cada personagem que entra em cena acaba acolhendo as questões e os transtornos do outro. Eles se desarmam e, por meio de uma busca e de uma construção de afeto, tentam ajudar uns aos outros. Talvez por se colocarem no lugar do outro, talvez por aceitarem a proximidade das diferenças. É um espetáculo que quebra paradigmas: não há julgamento, há apoio e colaboração”.
Integrando o elenco de uma peça que gira em torno do TOC — o transtorno obsessivo-compulsivo —, Ricardo Tozzi acaba sendo levado, inevitavelmente, a um exercício de autoobservação. A convivência com personagens atravessados por manias, repetições e desconfortos cotidianos cria um espelho incômodo, ainda que parcial, no qual o ator reconhece traços familiares. Sem dramatizar a própria experiência, ele admite certas obsessões domésticas, tratadas mais como hábitos arraigados do que como patologia. “Não chego a ter um transtorno, mas tenho uma forte necessidade de organização. Não consigo viver em um lugar bagunçado. Não chega a ser um transtorno obsessivo-compulsivo. Tenho isso também com barulho. Sons repetitivos, como um micro-ondas apitando porque alguém não retirou a comida, me incomodam profundamente.”

Ricardo Tozzi vê o tempo com maturidade (Foto: Divulgação)
Entre ciclos que se encerram e outros que se inauguram com discrição, Ricardo Tozzi constrói uma trajetória guiada menos pela pressa do tempo e mais pela escuta de si mesmo. Ao escolher o palco como lugar de retorno, o trabalho como forma legítima de exposição e a reserva como método, ele afirma uma ideia de maturidade rara no espetáculo contemporâneo da visibilidade: a de que sentido não se mede em permanência, mas em propósito. Aos 50 anos, Tozzi segue em movimento — não para ocupar todos os espaços, mas para habitar, com rigor e afeto, aqueles que reconhece como essenciais.
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