Ao menos oito novelas de Francisco Cuoco – incluindo sua estreia – foram total ou parciamente apagadas na Globo


Ícone de novelas como Selva de Pedra e Pecado Capital, o ator marcou gerações com sua voz firme e presença magnética. Estreou na Globo em 1970 e protagonizou várias obras que hoje se perderam nos arquivos da emissora – todas aqui listadas. Sua trajetória artística expõe não só o brilho de sua carreira, mas também as lacunas na preservação da memória da TV no Brasil.

*por Vítor Antunes

Francisco Cuoco ocupa lugar central na história da teledramaturgia brasileira. Com uma carreira que atravessa décadas, ele participou de produções que marcaram época e ajudaram a consolidar o gênero no país, como Selva de Pedra e Pecado Capital. O ator faleceu na última quinta-feira, dia 19, em São Paulo, aos 91 anos, em decorrência de falência múltipla de órgãos. Voz marcante, olhar firme e presença inconfundível, Cuoco estreou na TV Globo em 1970, com “Assim na Terra como no Céu”, novela de Dias Gomes (1922–1999) que também revelou Renata Sorrah ao público da emissora carioca.

Pouco depois, em 1971, protagonizou “O Cafona”, obra ousada de Bráulio Pedroso (1931-1990) que satirizava a ascensão da nova classe média e subvertia a figura do galã tradicional. O personagem Gilberto Athayde, criado sob medida para Cuoco, se tornou símbolo de uma época em que a televisão flertava com o deboche e o sarcasmo urbano. Infelizmente, tanto “Assim na Terra como no Céu” quanto “O Cafona” foram completamente apagadas dos arquivos da emissora — e, até hoje, não se conhece justificativa definitiva para a perda. Há suposições que vão desde o reaproveitamento das fitas até sua destruição em incêndios ocorridos nos anos 1960 e 1970.

A situação se repete em outras produções marcantes da carreira do ator. De “O Semideus” (1973), por exemplo, só restaram duas chamadas comerciais. Já Selva de Pedra, um dos maiores fenômenos de audiência da televisão brasileira, foi parcialmente preservada graças a um compacto exibido em 1975, quando “Roque Santeiro” foi vetada pela censura militar.

Outras três novelas estreladas por Cuoco — Duas Vidas (1976), Os Gigantes (1979) e Eu Prometo (1983) — enfrentaram outro tipo de desaparecimento: o que o pesquisador Gabriel Sartori, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), chama de “reaproveitamento sistemático das fitas nos anos 1980”. A escassez de videoteipes, a dificuldade de reposição de materiais importados e, em alguns casos, o desempenho insatisfatório de audiência contribuíram para que muitas dessas obras fossem apagadas ou gravadas por cima.

Neste momento em que se celebra a trajetória de Francisco Cuoco, é também necessário lançar luz sobre as lacunas do nosso patrimônio audiovisual. A perda de parte considerável de seu trabalho na televisão revela não apenas o que se apagou fisicamente, mas o quanto ainda falta preservar — e valorizar — da história da cultura popular brasileira. A seguir, veja caso a caso o que restou (ou se perdeu) das novelas estreladas por ele na TV Globo.

Francisco Cuoco e Marília Pêra em “o Cafona” (Foto: Divulgação/Globo)

Assim na Terra como no Céu (1970)

Personagem: Vítor – Autor: Dias Gomes (1922–1999)

O padre Vítor (Francisco Cuoco) decide largar a batina para se envolver com Nívea (Renata Sorrah), uma jovem típica de Ipanema, na zona sul carioca. No entanto, a história toma um rumo trágico quando Nívea é assassinada. A morte precoce de Nívea gerou rejeição entre os telespectadores, o que levou os autores a incluírem flashbacks com a personagem. O mistério só foi resolvido no final: o assassino era Mário Maluco, também conhecido como Mariozinho, interpretado por Osmar Prado. Nenhum capítulo foi preservado ― o que restou foram apenas registros fotográficos.

Francisco Cuoco foi o Padre Vítor em “Assim na terra como no Céu” (Foto: Divulgação/Globo)

O Cafona (1971)

Personagem: Gilberto Athayde – Autor: Bráulio Pedroso (1931–1990)

Gilberto Athayde, vivido por Cuoco, é um homem de origens modestas que enriquece no ramo de supermercados e busca ascender socialmente. Viúvo, tenta se casar com uma mulher da alta sociedade, dividindo-se entre Malu (Renata Sorrah), filha de um milionário falido, e Beatriz (Tônia Carrero [1922-2018]), socialite ligada ao colunismo social. A novela introduziu, pioneiramente, um aviso indicando que qualquer semelhança com pessoas reais seria mera coincidência. Do material original, há apenas uma cena de menos de dois minutos e algumas fotos. A abertura utilizada hoje nos arquivos da emissora é uma montagem de fã ― a versão mais fiel foi recriada por Mauro Alencar, pesquisador da USP, com base nos roteiros e materiais de época.

Francisco Cuoco e Renata Sorrah em “O Cafona” (Foto: Divulgação/Globo)

Selva de Pedra (1972)

Personagem: Cristiano Vilhena – Autora: Janete Clair (1925–1983)

Cristiano, interpretado por Francisco Cuoco, é um jovem do interior que almeja sucesso na cidade grande, mas coloca em risco sua relação com Simone (Regina Duarte) ao ceder às tentações da ambição. Miro (Carlos Vereza), antagonista da trama, alimenta esse percurso, chegando a sugerir o assassinato da protagonista. A novela teve 243 capítulos originalmente, mas só foram preservados os 76 da versão compacta transmitida em 1975, que substituiu Roque Santeiro após veto da censura. A produção ganhou um remake em 1986, que não obteve o mesmo impacto do original. Estima-se que o compacto volte no Globoplay.

Regina Duarte e Francisco Cuoco em “Selva de Pedra” (Foto: Divulgação/Globo)

O Semideus (1973)

Personagem: Alex Garcia – Autora: Janete Clair (1925–1983)

No papel de Alex Garcia, Francisco Cuoco interpreta um jornalista que investiga o desaparecimento do empresário Hugo Leonardo, personagem de Tarcísio Meira, envolvido em uma trama de usurpação e falsidade ideológica. Seus inimigos colocam um sósia, Raul (Tarcísio Meira [1935-2021]), em seu lugar, gerando um intrincado jogo de identidades. A história sofre uma reviravolta quando o verdadeiro Hugo retorna, desfigurado. Nenhum capítulo da novela sobreviveu. Tudo o que se conserva são duas chamadas promocionais.

Francisco Cuoco em “O Semideus” (Foto: Divulgação/Globo)

Cuca Legal (1975)

Personagem: Mário Barroso – Autor: Marcos Rey (1925–1999)

Na comédia romântica Cuca Legal, Francisco Cuoco interpreta Mário Barroso, um piloto de avião que leva a vida entre conquistas amorosas e dilemas existenciais. Solteiro convicto, ele mantém relacionamentos simultâneos com três mulheres de perfis bastante distintos: Virgínia (Françoise Fourton [1957-2022]), uma empresária rica que administra com pulso firme os negócios herdados do pai; Irene (Suely Franco), jovem professora de piano da classe média; e Fátima (Yoná Magalhães [1935-2015]), uma viúva modesta e de grande sensibilidade. Dividido entre elas, Mário busca aquela que, segundo sua obsessão pessoal, possa lhe dar um filho com uma “cabeça boa” — ou, como ele diz, uma “cuca legal”. Da trama só há uma chamada e um teaser.

Dary Reis e Francisco Cuoco em “Cuca Legal” (Foto: Acervo/Globo)

Duas Vidas (1976–1977)

Personagem: Dr. Victor Amadeu – Autora: Janete Clair 

A vida de várias famílias é alterada após a desapropriação de uma rua para a construção do metrô do Rio de Janeiro. O médico Victor Amadeu, vivido por Cuoco, se envolve com Leda Maria (Betty Faria), nora de um dos moradores mais antigos, após o abandono da família por parte de seu marido. A narrativa explora os efeitos do deslocamento urbano e os vínculos familiares em crise. Dos 154 capítulos originais, a TV Globo preserva apenas 6. Da reprise compacta de 1981, composta por 20 capítulos, restam os episódios 3, 5, 6, 7, 8, 9, 12, 15, 16 e 18. A trama ainda não está no Globoplay.

Francisco Cuoco em “Duas Vidas” (foto: Divulgação/Globo)

Os Gigantes (1979–1980)

Personagem: Francisco Rubião – Autor: Lauro César Muniz

A jornalista Paloma (Dina Sfat [1937-1989]) retorna à cidade natal para visitar o irmão em coma. Ao decidir desligar os aparelhos que o mantêm vivo, dá início a uma polêmica sobre eutanásia, que move a trama central. Francisco Rubião, médico interpretado por Cuoco, reencontra Paloma e integra um triângulo amoroso com ela e o fazendeiro Fernando Lucas (Tarcísio Meira). A novela também fez crítica ao poder das multinacionais. Pela baixa repercussão, a obra foi desprezada pela emissora na década de 1980. Hoje, apenas os capítulos 1 e 147 (último) estão preservados e disponíveis no Globoplay.

Francisco Cuoco teve papel de destaque em “Os Gigantes” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Eu Prometo (1983–1984)

Personagem: Lucas Cantomaia – Autoras: Janete Clair  e Glória Perez 

Lucas Cantomaia, deputado de reputação ilibada e defensor de políticas sociais, vê sua vida pessoal e carreira política se abalarem ao se apaixonar por Kelly Romani (Renée de Vielmond) em plena campanha ao Senado. Casado com Darlene (Dina Sfat) e pai de três filhas, o personagem é confrontado por dilemas éticos e familiares. Última novela escrita por Janete Clair, interrompida por sua morte e finalizada por Glória Perez. Restariam apenas os capítulos 1, 2, 52, 53, 102 e 103 (último), que permanecem inéditos no catálogo do Globoplay.

Francisco Cuoco em “Eu Prometo” (Foto: Divulgação/Globo)