Antonio Fagundes volta à novela global e revela o lado mais cruel do controle como ferramenta de sobrevivência


De volta ao horário nobre em ‘Quem Ama Cuida’, o ator vive um patriarca milionário, solitário e em conflito com a própria família. Na vida real, Fagundes retorna aos palcos com ‘Sete Minutos – Uma Comédia no Tempo Certo’, espetáculo que discute o pacto entre atores e plateia. Ator e diretor da peça, ele reafirma o rigor com a experiência teatral ao vencer ação movida por casal impedido de entrar em peça por atraso, reforçando a pontualidade como parte essencial do encontro ao vivo: “Ainda há pessoas que se recusam ou demoram a entender que a grande vantagem do teatro é exatamente a possibilidade de se entregar, sem interferências àquele mundo mágico que o palco oferece. Um tempo mais aprofundado do que os outros veículos, como a televisão, o cinema e, principalmente, a internet, costumam proporcionar”

*Por Brunna Condini

Na reta de estreia de ‘Quem Ama Cuida’, a próxima novela das 21h da Globo, Antonio Fagundes retorna ao horário nobre vivendo um patriarca poderoso, solitário e em rota de colisão com a própria família – um personagem que expõe as fissuras entre afeto e interesse. Fora da TV, o ator emenda o projeto com a volta ao teatro e, ao revisitar uma carreira que atravessa mais de seis décadas, fala de um novo capítulo: o retorno à Globo após seis anos, vivido com entusiasmo: “Está sendo ótimo. Volto para uma novela do Walcyr (Carrasco) e adoro o trabalho dele”. O ator relembra ainda a parceria em ‘Amor à Vida’ (2013), quando seu personagem ganhou um dos desfechos mais marcantes da teledramaturgia, e celebrou recentemente o reencontro com a diretora Amora Mautner: “Tenho 44 anos no Grupo Globo, estou sempre com um pedacinho do coração lá”.

Com estreia marcada para 18 de maio, ‘Quem Ama Cuida’ chega à faixa das nove apostando em um drama familiar onde o dinheiro dita as regras, e também os rompimentos. Na trama de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Fagundes dá vida a Arthur Brandão, empresário do ramo de joias que construiu uma fortuna, mas não consegue sustentar os vínculos ao redor dela. “Ele veio de uma família pobre, conseguiu juntar uma grande fortuna e essa família não se dá bem”, resume o ator sobre o personagem, que vê seu poder ser questionado pelos próprios irmãos e enfrenta um isolamento crescente.

Antonio Fagundes volta à TV em 'Quem Ama Cuida', retorna ao teatro e reafirma, dentro e fora de cena, o valor do compromisso, seja nos afetos ou na pontualidade (Foto: Ronaldo Gutierrez)

Antonio Fagundes volta à TV em ‘Quem Ama Cuida’, retorna ao teatro e reafirma, dentro e fora de cena, o valor do compromisso, seja nos afetos ou na pontualidade (Foto: Ronaldo Gutierrez)

Se na ficção o controle é ferramenta de sobrevivência, na vida real ele também aparece como princípio. Dias após a estreia da novela, Fagundes retorna ao palco com ‘Sete Minutos – Uma Comédia no Tempo Certo’, que estreia em 21 de maio no Teatro Cultura Artística, em São Paulo. A peça, que discute justamente o pacto entre palco e plateia, dialoga diretamente com uma posição que o ator sustenta há anos: a pontualidade como parte essencial da experiência teatral. Não por acaso, foi divulgado nesta segunda-feira (27), que ele venceu uma ação movida por um casal que pedia R$ 20 mil de indenização por ter sido impedido de entrar na peça ‘Dois de Nós’, protagonizada por Fagundes e pela esposa, Alexandra Martins, no Teatro Tuca, na PUC de São Paulo. Não permitir a entrada de quem chega fora do horário é uma regra estabelecida pelo próprio ator e mantida com rigor. Sobre o tema, o artista já comentou:

Fico muito triste, quando eu estou no cinema, no teatro, e ficam pessoas passando na minha frente, com o celular, com a luz acesa, procurando o lugar onde sentar, falando alto, fazendo barulho. Acho isso tão chato. Optamos sempre por respeitar quem respeita o horário marcado – Antonio Fagundes

Antonio Fagundes faz participação especial em 'Quem Ama Cuida' após seis anos longe da TV (Foto: Divulgação/Globo)

Antonio Fagundes faz participação especial em ‘Quem Ama Cuida’ após seis anos longe da TV (Foto: Divulgação/Globo)

O novo personagem na TV

É a partir da joalheria que leva o nome do personagem de Fagundes que se organizam os principais conflitos de ‘Quem Ama Cuida’. Mais do que um negócio de luxo, o espaço reflete uma família marcada por ressentimentos e disputas, onde decisões profissionais expõem vínculos fragilizados. À frente desse império está o ator como Arthur Brandão, um empresário rígido que exerce controle absoluto e testa lealdades, especialmente diante dos irmãos Pilar, vivida por Isabel Teixeira, e Ulisses, interpretado por Alexandre Borges. “Tentam isolá-lo, tira-lo do controle da joalheria. É aí que o conflito vai se intensificando”.

Com o tempo contado na trama, já que é uma participação especial, o personagem sustenta uma família poderosa, mas disfuncional, que depende de sua fortuna sem retribuir afeto. Sobre o preço que se paga pelo interesse nas relações, ele diz. “As pessoas lembram dele quando precisam do dinheiro. Então, nesse sentido, ele fica sozinho. Mas não foi por causa dele, não. Foi a família que o abandonou”, resume o ator.

A história e a similaridade de tipos

A trama acompanha Adriana (Letícia Colin), que perde tudo em uma enchente em São Paulo — inclusive o marido (Jesuíta Barbosa); e precisa recomeçar em um abrigo, onde conhece o advogado idealista Pedro (Chay Suede). Ao se tornar fisioterapeuta do milionário Arthur (Fagundes), os dois desenvolvem uma relação que leva a um casamento amigável e inesperado. A decisão de torná-la sua herdeira, no entanto, provoca a fúria da irmã Pilar, e transforma a história em um suspense quando Arthur é assassinado no dia da cerimônia, colocando Adriana no centro das suspeitas.

Leticia Colin e Antonio Fagundes em 'Quem Ama Cuida' (Foto: Divulgação/Globo)

Leticia Colin e Antonio Fagundes em ‘Quem Ama Cuida’ (Foto: Divulgação/Globo)

Antonio Fagundes e Grazi Massafera em 'Bom Sucesso' (Foto: Divulgação/Globo)

Antonio Fagundes e Grazi Massafera em ‘Bom Sucesso’ (Foto: Divulgação/Globo)

A construção atual dialoga com um tipo já explorado por Fagundes na novela ‘Bom Sucesso’. No folhetim de 2019 o ator também viveu um empresário solitário, que transformava a vida de Paloma (Grazi Massafera) ao contratá-la como sua acompanhante, proporcionando uma troca profunda de experiências, cultura e afeto. Mas esse personagem (Alberto), diante da finitude, encontrava no afeto uma possibilidade de reconexão. Em ‘Quem Ama Cuida’, ao contrário, o afeto parece já esgarçado desde o início, e o que se vê não é uma reconciliação familiar em curso, mas o acirramento de um vazio que o dinheiro não preenche. E ao fazer um paralelo com a própria trajetória, o artista reflete sobre o preço que o trabalho cobra nas relações, e defende que é possível conciliar carreira e vida pessoal, desde que haja abertura para o diálogo, destacando que a chave está na troca genuína:

Se você consegue estabelecer um diálogo com as pessoas próximas, se consegue se abrir, colocar suas fragilidades e ser ouvido, esse caminho fica de duas mãos e as coisas se resolvem facilmente. Então, é possível conciliar tudo, sim – Antonio Fagundes

“Está sendo ótimo retornar à TV. Volto para uma novela do Walcyr Carrasco e adoro o trabalho dele” (Foto: Ronaldo Gutierrez)

“Está sendo ótimo retornar à TV. Volto para uma novela do Walcyr Carrasco e adoro o trabalho dele” (Foto: Ronaldo Gutierrez)

Essa mesma ideia de compromisso, com o outro, com o tempo e com o espaço compartilhado, aparece como fio condutor também no teatro, onde Fagundes nunca interrompeu sua atuação ao longo dos mais de 60 anos de ofício. “O teatro é uma coisa que eu nunca parei de fazer. Já parei de fazer TV, cinema, mas o teatro foi ininterrupto”, destaca, ao lembrar que, em muitos momentos, chegou a conciliar simultaneamente diferentes formatos.

O teatro como encontro e presença

Paralelamente à estreia na TV, Antonio Fagundes retorna ao palco com ‘Sete Minutos – Uma Comédia no Tempo Certo’, espetáculo de sua autoria. Desta vez, além de atuar, ele assume também a direção da montagem, revisitando um texto que já encenou em 2002, agora sob uma nova perspectiva. Na trama, um ator veterano abandona o palco no meio de uma apresentação de ‘Macbeth’, irritado com as distrações da plateia, ponto de partida para uma reflexão bem-humorada sobre o pacto entre artistas e público. A peça reafirma o teatro como espaço de presença e escuta, em contraponto à lógica de dispersão dos tempos atuais, hiperconectados e com muitos estímulos.

Antonio Fagundes e o elenco do espetáculo 'Sete minutos' (Foto: Ronaldo Gutierrez)

Antonio Fagundes e o elenco do espetáculo ‘Sete minutos’ (Foto: Ronaldo Gutierrez)

O retorno ao Cultura Artística, palco marcante em sua trajetória, também carrega um peso simbólico. “Só de eu pegar o carro e ir naquela direção, já lembro dos 13 anos em que ocupei o teatro”, comenta o ator, que relembra ali parte fundamental de sua história com a Companhia Estável de Repertório. Mais do que uma reestreia, o espetáculo reafirma uma convicção que atravessa toda a carreira de Fagundes: a de que o teatro segue sendo um espaço de encontro real: “Ainda há pessoas que se recusam ou demoram a entender que a grande vantagem do teatro é exatamente a possibilidade de se entregar, sem interferências, àquele mundo mágico que o palco oferece. Um tempo mais aprofundado do que os outros veículos, como a televisão, o cinema e, principalmente, a internet, costumam proporcionar”. E completa:

Ainda sinto um pouco de pena das pessoas que resistem, mesmo estando dentro do teatro, a essa entrega à experiência. Mas acho que ‘Sete Minutos’ conversa com a plateia nesse sentido e apresenta justamente as vantagens dessa entrega. Vamos ver se o espetáculo consegue mexer um pouco com a cabeça das pessoas  – Antonio Fagundes

“Ainda há pessoas que se recusam ou demoram a entender que a grande vantagem do teatro é exatamente a possibilidade de se entregar, sem interferências" (Foto: Ronaldo Gutierrez)

“Ainda há pessoas que se recusam ou demoram a entender que a grande vantagem do teatro é exatamente a possibilidade de se entregar, sem interferências” (Foto: Ronaldo Gutierrez)