Amanda Grimaldi interpreta ex-mulher de Raul Seixas em série e desmistifica o cantor: “Ele foi negligente”


“Tenho críticas ao Raul como pessoa, ainda mais sendo mulher. Mas acho a figura dele apaixonante. Você se apaixona, sente raiva, pena, empatia”, diz a atriz. A série “Raul Seixas: Eu Sou” busca desvendar o homem por trás do mito, revelando suas contradições, fragilidades e complexidades com olhar contemporâneo e sensível. Amanda Grimaldi interpreta Edith, primeira mulher de Raul, uma figura marcada pelo silêncio e pelo apagamento

*por Vítor Antunes

Quem é o homem por trás do mito? Raul Seixas (1945-1989) atravessou as décadas como um ícone do rock brasileiro, cercado por uma aura quase messiânica que se intensificou após sua morte. Transformado em figura mitológica por parte do público e da cultura popular, Raul foi elevado a um patamar que muitas vezes eclipsa o ser humano que existia por trás do artista. A série “Raul Seixas: Eu Sou”, recém-lançada, propõe justamente o movimento contrário: desnudar o mito, trazer à tona o homem com todas as suas grandezas, contradições, fragilidades e ambiguidades. Nesse processo de desmistificação, ganha relevo o olhar feminino. A atriz Amanda Grimaldi, intérprete de Edith, uma das ex-mulheres de Raul, oferece uma leitura sensível e crítica da figura de Raul enquanto homem e companheiro. “Ele contribuiu imensamente para nossa cultura, mas também era um homem hétero dos anos 1970, imerso no patriarcado e nos privilégios que isso lhe conferia. A série tem esse olhar contemporâneo e atento, apontando fragilidades e contradições, tanto do artista quanto do homem, por meio das figuras femininas que se relacionaram com ele. Se olharmos criticamente de fora, a relação dele com sua primeira mulher, ele não devolveu esse amor da mesma forma, com equilíbrio. Ele foi um companheiro apaixonado e apaixonante – é impossível não se encantar por ele. A visão de mundo dele é maravilhosa, mas uma coisa é o que se diz, outra é o que se vive de fato. Acho que ela se dedicou muito à relação. Foi uma mulher apaixonada, assim como ele. Mas isso não basta. É o ‘eu amo, mas não dá mais’. É o ‘eu amo, mas parece que amo sozinha'”.

A relação é uma via de mão dupla, e ele foi negligente. Não dá para dizer que não foi – Amanda Grimaldi

Amanda Grimaldi dá vida à Edith, primeira mulher de Raul Seixas (Foto: Mujica)

A imersão no universo de Raul Seixas não foi apenas teórica ou interpretativa. Amanda descreve uma experiência quase sensorial, coletiva, de conexão profunda com a figura de Raul,  vivência que atravessou o elenco e equipe da série. “A gente se conectou muito com essa energia do Raul, coletivamente. A gente era muito transportado. Então, para além da pesquisa, houve uma imersão real. Porque a pesquisa mesmo, enquanto atriz, tem a minha parte, mas eu gosto muito de também entender como os outros departamentos,  como caracterização e figurino, enxergam minha personagem. Eu absorvo isso também, é material para mim. Então havia uma comunhão, uma ligação verdadeira. Existem projetos em que isso acontece mais, outros menos, com uma estrutura mais blindada. No Raul, não. A gente tinha muita troca com todo mundo. Raul tem uma conexão forte com a juventude, com esse espírito libertário e autêntico”.

Apesar de ser alvo de idolatria e de ter deixado um legado artístico de proporções quase míticas, Raul também parecia consciente e até desconfortável com essa santificação. Amanda relembra que o próprio cantor rejeitava o status de figura messiânica que lhe foi atribuído – uma postura que também encontra espaço na narrativa da série. “Sobre essa camada quase religiosa, como uma seita, que Raul acabou transmitindo – é uma loucura. Porque, de fato, a visão de mundo dele é libertária, autêntica, progressista e maravilhosa.
Ao mesmo tempo, é curioso: ele pensava no legado, mas com cuidado. Não gostava de figuras messiânicas, questionava isso. A série mostra muito bem esse aspecto. Em um momento, uma fã o vê e diz: ‘É Deus no céu e Raul na terra’. E ele responde: ‘Não, eu sou de carne e osso.'”

Tenho críticas ao Raul como pessoa, ainda mais sendo mulher. Mas acho a figura dele apaixonante. Eu o entendo, eu converso com ele. A série emociona. Você se apaixona, sente raiva, pena, empatia. E acho que essa aura nos envolveu a todos. Estar emocionada e arrepiada era um lugar que conseguíamos acessar — e isso nos ajudava no trabalho – Amanda Grimaldi

UMA MULHER ENSOMBRADA

A primeira mulher de Raul Seixas, Edith Wisner, permanece como uma figura envolta em névoas. Uma incógnita que atravessa o imaginário com a força discreta dos que escolhem o silêncio como legado. Pouco se sabe sobre ela, além do fato de ter sido uma das grandes paixões do cantor, e que a separação entre os dois foi marcada por uma dor profunda, quase irremediável. Coube à atriz a tarefa delicada de dar forma e alma a essa mulher ausente. E foi a partir da ausência que ela construiu sua presença em cena. “Eu extraio muito material e substância do que há dela. E, para além disso, eu realmente tive pouco material, pouco arsenal sobre a Edith. Porque é isso: quando ela rompe a relação, ela deixa tudo para trás. No documentário, as mulheres de Raul aparecem. A Edith é a única que não aparece. A filha lê uma carta deixada por ela, que basicamente diz: ‘Olha, esse assunto não me interessa mais, já me causou muita dor, não é algo sobre o qual quero falar.'”

Amanda descreve a sensação de lidar com esse apagamento deliberado — um gesto que, paradoxalmente, revela muito. “Você fica até sem saber direito o que aconteceu. E isso diz muito — tanto sobre esse vazio quanto sobre a própria Edith, sobre como foi a experiência dela na relação. Mas, antes disso, foi uma relação muito feliz. Entendi que a minha Edith brilharia nas sutilezas, na contenção, nos silêncios. Ela está muito presente, mas também testemunha os encontros do Raul com outras parcerias, principalmente com o Paulo. Ela é uma companheira ativa, mas entende o espaço do artista”.

Acho que isso também revela um grande companheirismo que ela, generosamente, oferece. Mas é isso: há silêncios e olhares dela que, nos gestos mínimos, carregam amor, entusiasmo, cansaço, ironia, frustração, tristeza — tudo ao mesmo tempo. E foi por esse caminho que fui conduzindo a construção da personagem – Amanda Grimaldi

Ao encarnar Edith, Amanda foi levada para o terreno delicado onde a imagem pública de Raul Seixas se entrelaça com sua intimidade — um equilíbrio que a série “Raul Seixas: Eu Sou” busca explorar com honestidade e profundidade. “Acho que as pessoas conhecem mais o Raul enquanto artista, e menos enquanto pessoa. Estando nesse universo mais íntimo, aprofundei-me bastante. Acho que a produção revela muito bem as lutas internas dele: sua busca constante por autenticidade, por liberdade. As relações pessoais, especialmente com as esposas, também são tratadas com profundidade. A série mostra essas outras facetas, essa complexidade da personalidade humana que é Raul. Nas gravações não presenciei nada sobrenatural em si. Mas havia sim uma aura mística, uma energia que envolvia o ambiente.
Talvez o mais próximo disso tenha sido a sensação arrepiante de estar em contato com o Raul. Era algo real, palpável”.

Amanda Grimaldi: “Tive pouco material, pouco arsenal sobre a Edith” (Foto: Mujica)

Além da atuação, Amanda também trilha caminhos por trás das câmeras. Ao lado de Camilla Molica, com quem também divide as pick-ups como DJ, ela comanda o duo de direção Lastikas, dentro da produtora Creme Company, sediada em São Paulo. A versatilidade da artista tem sido colocada à prova — e à serviço de projetos ambiciosos. “Estamos iniciando essa jornada, o que tem me proporcionado muito prazer e entusiasmo por estar envolvida com esse outro lado do processo criativo, com um novo olhar. No ano passado, dirigimos um filme para a Avon, estrelado pela Ana Castela. Foi nossa primeira experiência nesse formato e foi maravilhosa. Entrar nesse universo foi a realização de um desejo antigo. Já habitávamos esse lugar em nossos projetos autorais, mas jamais imaginávamos trabalhar com um cliente dessa magnitude. Estamos muito felizes por estarmos trilhando esse novo caminho. Também dirigimos um case para o Globoplay, relacionado ao documentário sobre o Ayrton Senna (1960-1994). Participamos do festival de Cannes, onde fomos finalistas na categoria de direção. Foi uma conquista muito especial e nos deixou extremamente felizes”.

Além das câmeras e dos palcos, Amanda Grimaldi também faz da pista de dança seu território criativo. DJ e pesquisadora musical, ela observa com atenção — e um toque de humor — o crescimento da profissão no imaginário coletivo. “Tem até um meme que é maravilhoso. É tipo assim: ‘Parem de ser DJs, sejam marceneiros.’ Como se dissesse: estamos precisando mais disso agora. Por um lado, fico lisonjeada de ver pessoas começando a se interessar por isso como carreira e profissão. Mas, sem dúvida, vejo uma complementaridade com a carreira de atriz. São carreiras sérias. Exigem estudo, profissionalização, aprofundamento técnico.
Então, acredito que, com respeito e sabedoria, é importante que as pessoas compreendam isso como uma profissão a ser reconhecida. É o que busco para mim, é o que busco para os meus colegas. Quero expandir esse cenário — mas com esse olhar de respeito e profissionalismo. A gente tem parceiros que produzem em conjunto conosco, mas gosto de pensar que também somos muito curadoras. Acredito que embarcamos numa jornada sonora, abraçando musicalmente a nossa visão de pista. E, nesse processo, não há melhor ou pior. São energias diferentes: a masculina e a feminina. Talvez por ser mulher, me identifico muito com a energia feminina. Amo ver minhas colegas tocando. Acho que a energia feminina traz uma sensibilidade musical e performática — nas batidas, no suingue, em uma certa curva sonora — que me interessa nas experiências. Me vejo muito mais como uma pesquisadora mesmo”.

Amanda Grimaldi é DJ e pesquisadora musical além de atriz (Foto: Brenda Quevedo)

Leitora voraz, Amanda também recorre à literatura para refletir sobre a vida e a própria trajetória. No momento da entrevista, ela compartilha uma leitura recente que a marcou profundamente. “Vou pegar o último livro que estou lendo, chamado “Conversas Corajosas”, da Elisama Santos. Ela fala muito sobre medo e risco. Anotei um trecho: ‘Acredito que escolher a coragem é lembrar que existem mais opções que as enumeradas obsessivamente pelo medo.’
O que entendo dessa frase é que muitas vezes acreditamos que só existe uma forma de viver – seja viver o trabalho, viver as relações – e não nos perguntamos, não nos questionamos sobre outras possibilidades. Ficamos reféns daquilo que normalizamos e também do berço onde crescemos. Tento buscar isso na minha vida: esse olhar atento que diz ‘por que não de outra forma?’, ‘por que não de outro jeito?’. É o medo que nos paralisa. É o medo do que os outros vão pensar”.

Ao final de uma travessia que mescla silêncio e som, mito e matéria, o retrato que Amanda Grimaldi nos oferece de Raul Seixas e de Edith — essa mulher envolta em sombras e ausências — é, acima de tudo, um gesto de escuta. Escuta do que não foi dito, do que foi sussurrado entre os gestos, das contradições humanas que resistem ao enquadramento do ídolo. Como artista, Amanda se move entre o palco, a câmera e a pista com a mesma fluidez com que transita entre tempos e afetos. E é justamente nesse desejo de romper padrões, de experimentar novas formas de dizer e sentir, que seu olhar se alinha ao de Raul — não o mito intocável, mas o homem cheio de falhas, encantos e urgências. Porque, no fim, talvez coragem seja isso: tocar a dor, acolher o mistério e seguir dançando, mesmo quando a música parece ter cessado.