*Por Brunna Condini
(Colaborou Lucas Souza)
Após quatro anos Alinne Moraes está de volta às novelas. Em ‘Guerreiros do Sol’, trama que já está no no Globoplay e no Globoplay Novelas, ela é Jânia, uma mulher potente e revolucionária no sertão, nas décadas de 1920 e 1930. Na produção, sua personagem é casada com Idálio (Daniel de Oliveira), mas se apaixona por Otília, interpretada por Alice Carvalho. As duas vivem um romance e nesse Mês da Diversidade LGBTQIA+, destacam na ficção a relevância de mostrar que casais sáficos existiam em diferentes épocas e a necessidade de representatividade disso no mundo contemporâneo.
A Alice foi paixão à primeira vista. Ela realmente é uma grande artista, escreve maravilhosamente bem, dirige, canta divinamente…é completa. Nossa troca foi das melhores. Olha, ‘Guerreiros do Sol’ me deu de presente a Alice na vida – Alinne Moraes
O romance entre as duas surge de uma forte amizade. “Elas vivem um casal que se ama, em 1920, 1930, período em que as mulheres eram tratadas realmente como objeto, como posse masculina. A Jânia é uma personagem que leva uma visão nova, um entendimento diferente daquelas mulheres sertanejas. No início, é muito submissa, como todas as mulheres do período, mas depois, durante essa guerra do cangaço, se vê precisando se posicionar, e abraça a mulher guerreira e revolucionária que é”. Sobre as cenas de sexo, que vão refletir a intensidade do amor ente elas, a atriz diz: “Foram muitas e ficou bem chique”.

Alinne Moraes fala da relação com Alice Carvalho e da personagem revolucionária em ‘Guerreiros do Sol’ (Divulgação/Globo)
Jânia estudou na capital, é ambiciosa e preparada. Sonhou em administrar as propriedades do pai, mas arranjaram um casamento de interesses para ela. Com alma visionária, a personagem não se deixa silenciar. “Quando assume essa mulher, que tem toda uma potência para se tornar, e acaba se tornando, ela decide liderar o movimento feminista no sertão, e é até enxergada como uma espécie de bruxa, sabe? Fora isso, em 1920, 1930, ‘cabeças voavam’ se você se assumisse, principalmente sendo uma mulher. Então, é muito bonito o que ela vai viver e fazer na cidade para as outras mulheres”.
Alinne já viveu um casal lésbico em outra novela. Em 2003, em Mulheres Apaixonadas’, ela interpretou Clara, que tinha um romance com Rafaela (Paula Picarelli). A Globo não mostrou um beijo real entre as personagens, mas um ‘selinho’ durante a encenação da peça ‘Romeu e Julieta‘ no colégio, porque pesquisas indicavam que o público não estava pronto para isso. A atriz comentou o que acha a respeito da censura sobre beijos entre casais homoafetivos na TV, inclusive na própria TV Globo. A emissora acabou de vetar beijos em duas de suas novelas recentes: ‘Terra e Paixão‘ e ‘Vai na Fé’, produções de 2023.

Alinne Moraes e Alice Carvalho são um casal em ‘Guerreiros do Sol’ (Divulgação/Globo)
Infelizmente, parece que quando damos passos para frente, acabamos dando ainda mais passos para trás. Lembro que quando coloquei recentemente a Clara e Rafaela em um tbt nas redes sociais, as gerações de agora, que não acompanharam a trama, perguntaram: “Mas não é possível, tudo isso por conta de um selinho?”. E agora, em 2025, ainda temos selinhos sendo censurados…então não sei te dizer o quanto andamos para frente no tema após 20 anos – Alinne Moraes
Ela fala também dos desafios de viver Jânia. “Acho que o maior desafio é trazer uma mulher do sertão, viu? E estamos falando de uma novela que tem em sua maioria atores nordestinos no elenco. Não estávamos acostumados a ver novelas, filmes, com tantos atores do Nordeste, e assistir isso agora é maravilhoso. Tudo muda, do jeito de falar ao ‘sangue nos olhos’. O Brasil é tão imenso, diverso. São vários países em um só. É muito bom estar junto nisso, com eles, que me puxaram”.

Alinne Moraes é a revolucionária Jânia em ‘Guerreiros do Sol’ (Divulgação/Globo)
Foi um grande desafio interpretar uma mulher completamente diferente de mim. Sou de Sorocaba, interior de São Paulo, então, culturalmente, sou completamente diversa. Tive que mergulhar neste universo, fazer laboratório – Alinne Moraes
Criada em um chácara no interior de São Paulo, pela mãe e pela avó, Ana Cecília Dorelli e Maria Dorelli, Alinne só conheceu o pai aos 21 anos; e se inspirou na força feminina familiar para viver a nova personagem: “Fui criada por duas mulheres, mães solteiras, então sempre fui feminista sem saber. Jânia é uma mulher feminista, a gente se encontra aí”.
Revolucionária
Logo nos primeiros dias, Jânia descobre que o marido é um incômodo com o qual precisa aprender a conviver, e dá um jeito de tornar o fardo mais suportável. A grande biblioteca do sogro, Coronel Elói (José de Abreu), herança da falecida sogra que, como ela, havia conhecido uma realidade mais polida, serve de refúgio para a sua realidade. “Jânia é uma mulher muito forte. Ela leva, realmente, um novo horizonte para o sertão. Uma mulher letrada, que gosta muito de ler. Depois, na guerra do cangaço mesmo, é obrigada a se posicionar, não só como mulher, mas politicamente também. Então, é uma mulher revolucionária. Tem muita coisa pra acontecer com essa mulher linda”, conta.
“Essa biblioteca se torna seu grande espaço de liberdade, é onde não tem amarras. O marido é agressivo, então no começo ela tem muito medo e é submissa. Com a guerra do cangaço, se vê obrigada a se posicionar, acaba assumindo o movimento feminista da época, e muitos homens ficam contra ela”, completa Alinne.

Alinne Moraes e Alice Carvalho: “A Alice foi paixão à primeira vista. Ela realmente é uma grande artista” (Divulgação/Globo)
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