*Por Brunna Condini
Desde que entrou para a história da teledramaturgia como a primeira protagonista negra de uma nova fase de ‘Malhação: Pro Dia Nascer Feliz’, em 2016, Aline Dias aprendeu que representatividade não significa apenas ocupar espaços, mas também ampliar caminhos para que outras pessoas consigam permanecer neles. Dez anos depois, a atriz retorna ao protagonismo em ‘Icônica: De Faxineira à Fashionista’, novela vertical que estreou nesta terça-feira (19), no Globoplay. Na trama, ela vive Jussara, uma jovem periférica, criativa e apaixonada por moda, que vê a própria vida mudar ao ser confundida com uma modelo durante um desfile. Mais do que um romance ambientado no universo fashion, a produção mergulha em temas como pertencimento, autoestima, desigualdade social e sonhos que insistem em sobreviver mesmo quando o mundo tenta silenciá-los.
E é justamente nesse ponto que a ficção encontra a vida real. Mais do que interpretar uma personagem atravessada por inseguranças, Aline reconhece em Jussara ecos profundos da própria trajetória. “Eu já tinha realizado meu sonho, já tinha tido essa oportunidade de estar na Globo para trabalhar. E 2015 foi um ano parado. Precisava pagar as contas, então fui ter esse corre por fora. Para conseguir pagar minha faculdade de teatro, trabalhei como produtora de personagens vivos. Foi um período difícil, porque a falta de oportunidade mexeu muito na minha autoestima e no meu sentimento de pertencimento dentro da profissão. A falta de dinheiro me silenciou por um período, essa coisa de não estar sendo vista. Tudo isso mexeu muito, como mulher preta, como artista”, relembra.
Apesar das dificuldades, ela conta que nunca deixou de acreditar na própria capacidade. E foi justamente no ano seguinte que veio a virada decisiva de sua trajetória: o protagonismo de ‘Malhação’. Para Aline, essa alternância entre quedas e recomeços aproxima ainda mais sua história da jornada da sua personagem em ‘Icônica’. “A vida vai te testando de várias maneiras, mas eu não desisti. A Jussara também passa por altos e baixos, mas em nenhum momento deixa de acreditar nos sonhos dela. Resiste, tem resiliência e consegue realizar”, conclui. Ao revisitar a própria trajetória, a atriz conta que só compreendeu a dimensão simbólica de sua estreia como protagonista negra há dez anos, depois de receber mensagens de mulheres que se sentiram representadas ao vê-la na tela. “Até acontecer essa troca não tinha dimensão desse simbolismo”. Hoje, ela vê com entusiasmo o avanço da presença negra nas narrativas audiovisuais, mas defende que ainda há um longo caminho a percorrer:
Essa representatividade só faz sentido se tiver continuidade. O mais bonito é quando você abre as portas. Precisamos de mais roteiristas negros, autores negros, produtores de elenco negros. Quanto mais pessoas contando as nossas histórias, melhor. E também precisamos romantizar essas histórias, mostrar mulheres negras vivendo amor, conquistas, famílias, e não só dor – Aline Dias

Dez anos após marcar a TV em ‘Malhação’, Aline Dias retorna ao protagonismo em ‘Icônica’ e defende mais espaço para histórias negras de amor e conquistas (Foto: Ysrael)
Ao falar sobre a construção da personagem, Aline explica que buscou inspiração justamente em mulheres reais, sobretudo mulheres negras, periféricas e pobres, que carregam sonhos considerados ‘impossíveis’ por uma sociedade ainda marcada pela exclusão. “O que me inspirou a fazer a Jussara foram essas mulheres reais, que têm sonhos de serem artistas ou de entrarem no ramo da moda, por exemplo, e que a sociedade, em sua maioria branca, impõe que isso é um sonho muito distante para essas pessoas”, afirma. “Vejo muito a Jussara como alguém que mantém seu sonho vivo desde pequena. Ela nunca deixou de acreditar. Por isso, me inspirei muito em mulheres que não deixam de acreditar nos seus objetivos, mesmo trabalhando em outras áreas enquanto batalham por eles. São mulheres que conhecemos”.
Victor Sparapane e Aline Dias são os protagonistas da novelinha ‘Icônica: De Faxineira à Fashionista’ (Foto: Ricardo Bufolin)
Na trama, a personagem de Aline atravessa um ambiente elitizado, cercado de aparências, interesses e códigos sociais rígidos. Mas a atriz destaca, que Jussara resiste à lógica de abandonar quem é para pertencer àquele universo. “Ela mantém sua essência, não permite ser corrompida através de algum mau-caratismo ou proposta. Por onde entrou, pela porta da frente, é por onde quer sair. Percebe que não é um ambiente fácil de se trabalhar, que as pessoas não são exatamente aquelas figuras idealizadas por ela no universo da moda, que tinha como ídolas, mas também encontra pessoas boas, que a motivam e inspiram nesse caminho”, diz, sobre a história escrita por Gustavo Reiz, com direção de Roberta Richard.
E também admite que, fora da ficção, também já viveu momentos em que sentiu não pertencer a determinados espaços da profissão:
Como artista, em vários momentos tive dúvidas sobre a carreira e os caminhos a seguir. Existem trajetórias que a gente simplesmente não deseja percorrer. E acredito que, para nos mantermos por muitos anos nessa profissão, é fundamental preservar a nossa identidade, manter os estudos em dia e buscar aperfeiçoamento constante, porque, quando a oportunidade chegar, é preciso estar pronta. Houve lugares em que já senti que não pertencia, justamente porque não faziam parte daquilo em que acredito – Aline Dias

“Acredito que, para nos mantermos por muitos anos nessa profissão, é fundamental preservar a nossa essência” (Foto: Ysrael)
Moda como instrumento e expressão
Para Aline, que começou a atuar há 14 anos e iniciou sua trajetória profissional como modelo na adolescência, o percurso da personagem na novela vertical também ajuda a desmontar a ideia de que a moda seria apenas um universo superficial. A atriz acredita que a forma de se vestir está diretamente ligada à expressão e até à possibilidade de reinventar a própria vida. “A moda é o que faz a Jussara acreditar em melhores possibilidades. Para muitos a moda é algo sem sentido, mas o mercado fashion é um dos que mais movimenta a economia, reflete como a gente quer se comunicar no mundo e mexe direto com a autoestima também. A moda faz você se sentir ainda melhor consigo mesma e transforma vidas”.
Na construção de Jussara, ela contou com auxílio profissional e mergulhou nos códigos, comportamentos e até nas expressões usadas nesse ambiente. “Esse foi um processo muito divertido. Tenho um grande amigo, Maurício Lion, meu stylist, que teve uma troca comigo sobre esse universo”, conta. Fora da ficção, ela afirma manter uma relação espontânea e aberta com a moda. “E autêntica. Adoro me arrumar para eventos, lançamentos e estreias. Me arrisco quando meu stylist vem com roupas que eu jamais usaria no dia a dia e penso: ‘tá aí, uma versão nova minha’. É bom se enxergar de outras formas e a moda te oferece isso”.

“A moda faz você se sentir ainda melhor consigo mesma e transforma vidas” (Foto: Ysrael)
Ao falar sobre o subtítulo ‘De Faxineira à Fashionista‘, Aline reforça que a história vai além da ascensão social e fala diretamente sobre pertencimento e possibilidades:
Desejo muito que as mulheres entendam que o lugar delas é onde quiserem. É necessário que acreditem, mas também tomem à frente em suas ações para que conquistem ainda mais lugares de importância e relevância na sociedade. Seja como artistas, fashionistas ou o que escolherem ser – Aline Dias
Maternidade e novos caminhos
Aos 34 anos, Aline observa, que além da experiência na profissão vir sendo fundamental para seu amadurecimento, um papel assumido há oito anos vem transformando profundamente sua vida: o de mãe do pequeno Bernardo. “A maternidade me transformou inteira e venho me transformando cada vez mais. Mudou a minha forma de enxergar o mundo, de entender a dimensão da minha força como mulher, de enxergar prioridades. A gente não tem noção do tão forte que é, mas também do tão frágil pode ser. Existe vulnerabilidade na maternidade e entender quando precisamos de ajuda também é muito importante”, reflete.
Ela define esse processo como um movimento permanente: “Nasce um filho, nasce uma mãe, nasce uma nova mulher. Aprendo muito com meu filho, tenho uma troca deliciosa e respeitosa com ele. E sou eternamente grata por ele ter me escolhido como mãe’.

Aline Dias e o filho Bernardo, de 8 anos (Foto: Reprodução/Instagram)
Aline ficou conhecida nacionalmente após protagonizar ‘Malhação’, em 2016, mas sua estreia na televisão aconteceu quatro anos antes, em uma participação em ‘Malhação: Intensa como a Vida’ (2012). De lá para cá, construiu uma trajetória entre TV e cinema, passando também por ‘Salve-se Quem Puder’, novela das sete da Globo interrompida pela pandemia. Apesar das conquistas acumuladas até aqui, a atriz afirma que ainda sonha alto e não romantiza os desafios da profissão no Brasil, defendendo que persistência continua sendo palavra-chave para permanecer no mercado audiovisual.
Ser artista no Brasil exige muita persistência e muita resiliência. A gente vive um meio muito instável, de altos e baixos. A única certeza que temos é a vocação, o nosso talento, a nossa essência e os nossos estudos. Não podemos parar de nos reinventar – Aline Dias

“Desejo que mulheres entendam que o lugar delas é onde elas quiserem. É necessário que elas acreditem, mas também tomem à frente em suas ações” (Foto: Ysrael)
Ficha técnica fotos
Styling: Maurício Lion
Fotógrafo: Ysrael
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