Alice Carvalho faz personagem com representatividade LGBTQIA+ em ‘Guerreiros do Sol’ e revela inspiração para papel


Na trama, que estreia em 11 de junho no Globoplay e Globoplay Novelas, a atriz interpreta Otília, que vive um romance com Jânia (Alinne Moraes). “Fala-se muito em reparação histórica, mas tem outro termo que adoro: reconstrução de imaginário. É sobre oferecer ao público — sobretudo ao público que nunca se viu nas telas — esse “e se”. E se a gente falasse sobre um casal feminino no sertão dos anos 1920? Muita gente acha que nem existia, mas existe desde que o mundo é mundo. Desde que existe o querer, existe mulher querendo mulher, homem querendo homem”. Com a estreia do folhetim em pleno Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, Alice, declaradamente bissexual, destaca a importância da representatividade na obra. Considerada uma das grandes atrizes de sua geração, ela traça um paralelo com importante outro trabalho, o premiado longa ‘O Agente Secreto’, e conta, que tanto para novela, quanto para o filme, sua grande referência é familiar: “É meu avô. A paixão e o ímpeto da professora Fátima (personagem do filme) com certeza vem dele. Meu avô incutiu na minha cabeça que a educação era a única coisa que ninguém nunca poderia tirar de mim. E quando penso na novela, também percebo que de alguma forma emprestava para a Otília o coração daquele menino, que não tinha sapato para ir para a escola, mas que hoje é um doutor muito respeitado na universidade, na Geografia do país, e que veio do barro”

*Por Brunna Condini

— Você, que é considerada uma das maiores atrizes da sua geração… — começamos a pergunta, mas nem deu tempo de terminar. Alice Carvalho já nos interrompe, com bom humor e uma pontinha de timidez: “Mas rapaz, quem disse isso?”. Pois a gente diz, Alice — e não estamos sozinhos. Nascida em Natal, no Rio Grande do Norte, a atriz tem sido amplamente elogiada por sua versatilidade e profundidade. Com carisma e naturalidade, ela constrói personagens complexas e multifacetadas, o que a coloca, sim, entre os grandes nomes de sua geração. E pelo visto, não será diferente com sua próximo trabalho em ‘Guerreiros do Sol’,  trama que estreia em 11 de junho no Globoplay e no Globoplay Novelas. Criada por George Moura e Sergio Goldenberg, o folhetim é livremente inspirado no universo do cangaço, mas sem maniqueísmos. Aqui, os personagens vêm revestidos de tudo o que cabe em suas humanidades. A atriz interpreta Otília, irmã da protagonista Rosa (vivida por Isadora Cruz), que narra a história. Quando Rosa se casa com o Coronel Elói (José de Abreu), Otília se muda com ela para a fazenda dele. Lá, conhece Jânia (Alinne Moraes), nora do coronel, que lhe ensina a ler e escrever. O que começa como uma troca de saberes se transforma em uma história de amor em pleno sertão dos anos 1920. “Não gosto muito de falar sobre personagem, não… para evitar spoiler, e também porque às vezes a gente vê depois e nem é essa ‘Brastemp’ toda, né? (risos). Mas o que acho é que Otília e Jânia ensinam uma à outra a beleza da liberdade e da descoberta do amor em qualquer idade. E, por trás disso tudo, tem a força de uma emancipação feminina, política, sexual e cultural”.

Para Alice, ‘Guerreiros do Sol’ é um projeto raro. E necessário: “Por vários motivos, essa novela é uma das mais corajosas da TV Globo nos últimos tempos. Fala-se muito em reparação histórica, mas tem outro termo que adoro: reconstrução de imaginário. É sobre oferecer ao público — sobretudo ao público que nunca se viu nas telas — esse “e se”. E se a gente falasse sobre um casal feminino no sertão dos anos 1920? Muita gente acha que nem existia, mas existe desde que o mundo é mundo. Desde que existe o querer, existe mulher querendo mulher, homem querendo homem”. Alice conta também que, desde o início, ela e Alinne Moraes foram acolhidas com sensibilidade pela equipe: “A torcida pela Otília e pela Jânia era geral. Todo mundo shippava as duas (risos). E esse acolhimento começou desde a primeira palavra escrita no roteiro”. Ainda, sobre a importância da representatividade na obra, lembrando que estamos no Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, ela que é declaradamente bissexual, diz:

Alice Carvalho fala do amor entre sua personagem e a de Alinne Moraes em 'Guerreiros do Sol', e traça paralelo entre seu trabalho no longa 'O agente Secreto' (Foto: Divulgação/Globo)

Alice Carvalho fala do amor entre sua personagem e a de Alinne Moraes em ‘Guerreiros do Sol’, e traça paralelo entre seu trabalho no longa ‘O agente Secreto’ (Foto: Divulgação/Globo)

Eu e a Alinne contamos com uma liberdade absoluta com o texto, nas dinâmicas de intimidade, nos encontros, na delicadeza, no toque, na sutileza. Porque afinal, era 1920, onde a repressão era muito maior do que hoje em dia. Mesmo que ainda exista muita repressão por conta da orientação sexual das pessoas atualmente…tivemos todo um cuidado ao contar como teria sido naquele tempo – Alice Carvalho

Atriz, roteirista, dramaturga e escritora, Alice começou no teatro ainda na infância, e despontou para o grande público em 2023, ao protagonizar a série ‘Cangaço Novo’, do Prime Video. Depois do trabalho que a projetou, estreou em novelas na Globo com ‘Renascer‘ (2024). No momento, além da expectativa com o lançamento de ‘Guerreiros do Sol’, a atriz também vibra pelo filme ‘O Agente Secreto’. Após sua estreia mundial no Festival de Cannes em maio, onde foi aplaudido por 13 minutos e venceu quatro prêmios—includindo Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho e Melhor Ator para Wagner Moura—o thriller político está previsto para chegar aos cinemas brasileiros ainda este ano. Ambientado no Brasil de 1977, o filme traz Alice no papel de Fátima, uma professora universitária e companheira do personagem de Moura. “Ela é muito emblemática, firme e elegante. Sua cosntrução foi bem intuitiva, porque recebi o convite em uma quarta-feira à noite, e no domingo já estava no set. Na época, gravava ‘Renascer’ de segunda a sábado, então não tive tempo de fazer preparação convencional. Foi tudo muito a partir do encontro com o Wagner, que foi meu parceiro de cena e de escuta”, declarou sobre o trabalho. 

Alice Carvalho e Alinne Moraes em "Guerreiros do Sol' (Foto: Divulgação/Globo)

Alice Carvalho e Alinne Moraes em “Guerreiros do Sol’ (Foto: Divulgação/Globo)

Ao falar das personagens, de universos distintos, que se encontram no poder transformador da educação — no filme, uma mulher que já descobriu essa potência; e na novela, uma jovem que começa a descobrir — Alice revela de onde vieram suas referências. “Fui criada por uma avó cabeleireira e um avô professor universitário. Eles começaram a trabalhar muito cedo. Meu avô aos 5 anos. E minha bisavó o matriculou em um projeto de Djalma Maranhão (915-1971) chamado ‘De pé no chão também se aprende a ler’, completamente Paulo Freireano. Então, ele ia para essa escola de terra de batida de manhã, e à tarde, ia para outro colégio, em outro bairro, para ter o que comer de manhã e à tarde. Ia para escola principalmente para poder se alimentar. Meu avô se tornou um doutor de Cartografia. Foi a pessoa que me deu educação e o maior incentivador para que me tornasse artista. Me fez ser uma grande apaixonada pelo Brasil, e mais ainda pelo Nordeste”, conta.

"Meu avô foi a pessoa que me deu educação e o maior incentivador para que me tornasse artista" (Foto: Reprodução/Instagram)

“Meu avô foi a pessoa que me deu educação e o maior incentivador para que me tornasse artista” (Foto: Reprodução/Instagram)

“Posso dizer que a paixão e o ímpeto da professora Fátima com certeza vem dele. Meu avô incutiu na minha cabeça que a educação era a única coisa que ninguém nunca poderia tirar de mim, e que eu poderia ir para qualquer lugar lendo um livro. E quando penso na novela, também percebo que de alguma forma emprestava para a Otília o coração daquele menino, que não tinha sapato para ir para a escola, mas que hoje é um doutor muito respeitado na universidade, na Geografia do país, e que veio do barro”.

"Minha personagem na novela fala da descoberta do amor em qualquer idade. E tem a força de uma emancipação feminina, política, sexual e cultural" (Foto: Reprodução/Instagram)

“Minha personagem na novela fala da descoberta do amor em qualquer idade. E tem a força de uma emancipação feminina, política, sexual e cultural” (Foto: Reprodução/Instagram)

Sobre seu processo de construção das personagens, em que se permite colocar a vida tocando a ficção, Alice conclui:

Não sou uma atriz que se esmera em domínios técnicos, mas uma coisa que gosto de fazer, é, além de contar histórias, misturar verdade com mentira. Pego a ficção, a história, e misturo com o que é real, com a referência do meu avô, por exemplo. E de alguma forma, me aproximo mais dele, vou matando a saudade das minhas origens e da minha família, quando estou longe de Natal. Tudo o que faço é para os meus avós verem. E meu avô, seu Edilson, sabe que é uma grande inspiração pra mim –  Alice Carvalho

Guerreiros do Sol

Uma história de amor em tempos de guerra é o fio condutor de ‘Guerreiros do Sol’, terceira novela original Globoplay. Com direção artística de Rogério Gomes, a trama se passa no Sertão, nas décadas de 1920 e 1930, e é livremente inspirada na vida de Lampião e Maria Bonita e de muitos outros casais de cangaceiros que cruzaram o nordeste brasileiro. A novela estreia no dia 11 de junho no Globoplay e na estreia do Globoplay Novelas. No serviço de streaming, serão liberados cinco capítulos por semana, sempre às quartas-feiras. No canal linear, os capítulos serão exibidos de segunda a sexta-feira, às 22h40, com reapresentação do capítulo de sexta no sábado.
O folhetim traz a história de dois sertanejos, Rosa e Josué, interpretados por Isadora Cruz e Thomás Aquino, que se tornam um dos mais famosos casais de cangaceiros de todos os tempos. Como pano de fundo, o universo do Cangaço e reflexões sobre as origens e contradições do Brasil atual. Paixões, traição, política, vingança, dinheiro e banditismo são alguns dos temas que perpassam os capítulos, recheados de brasilidade e com protagonismo feminino em destaque. “Queremos trabalhar com a genealogia, não da ferocidade, mas da afetividade. Então estamos contando uma história de amor, que se dá no meio de uma guerra, que é a guerra de formação do Brasil moderno. Quando o Estado não ocupa os espaços, e a lei passa a ser a lei do mais forte”, diz o autor George Moura. “A ideia é dar uma dimensão humana do que foi esse momento da nossa história, porque os cangaceiros criaram um modo de viver”, complementa Sergio Goldenberg.
Augusta Ferraz, Isadora Cruz, Cláudio Jaborandy e Alice Carvalho em 'Guerreiros do Sol' (Foto: Divulgação/Globo)

Augusta Ferraz, Isadora Cruz, Cláudio Jaborandy e Alice Carvalho em ‘Guerreiros do Sol’ (Foto: Divulgação/Globo)