*Por Brunna Condini
Alexandra Richter acaba de filmar ‘Rede Paralela’, thriller político dirigido e roteirizado por Igor Moreira (com quem trabalhou na novela ‘Família é Tudo’, da TV Globo), e volta ao cinema em um registro que foge do lugar onde o grande público mais a reconhece: a comédia. No longa, que está em contagem regressiva para o lançamento, ela vive Elisa, uma líder carismática que usa a fé como escudo moral, constrói uma imagem pública serena e “do bem”, mas governa com frieza e intolerância. Ao lado dela está Jayme Periard, como um ex-pastor que transformou a religiosidade em moeda política. Em ano de eleições, o filme vem espelhar um tipo de realidade que vivemos na política?
“É uma ficção. Não buscamos referências”, afirma Alexandra, ao explicar que a composição da personagem nasceu das leituras e da preparação com o elenco, sem apostar em caricaturas, justamente para evitar o caminho ‘fácil’ do estereótipo em um país acostumado a comparar líderes reais e personagens quando fé e poder se misturam. A atriz conta que o desafio foi construir uma vilã com camadas, que cria uma ‘persona boazinha’ para mobilizar, proteger e silenciar questionamentos, enquanto a trama revela até onde um projeto de autoridade pode ir para sustentar a própria narrativa. “O grande dilema do filme é: até onde as pessoas podem chegar em busca do poder?”, resume ela, que este ano também volta ao teatro com um novo projeto: o espetáculo ‘A Melhor Parte’, uma comédia romântica com um casal 50+: “É engraçada, profunda e muito identificável”.
Ao falar de ‘Rede Paralela’ e do ano de eleições, Alexandra admite que o contexto político atravessa inevitavelmente a recepção do filme, mesmo sendo uma obra ficcional. E como cidadã, o que mais a preocupa não é a disputa eleitoral em si, mas o clima de polarização que tem marcado o país: “Fiquei muito assustada com o que aconteceu nas últimas eleições. Vi famílias brigando, filhos deixando de falar com pais, pessoas que simplesmente viraram inimigas porque não concordavam politicamente. Isso me chocou”. Mais reservada hoje nas redes sociais no que diz respeito a posicionamentos, a atriz explica que escolheu se preservar depois de vivenciar ataques virtuais em momentos anteriores:
Não é que eu não vá me posicionar. Só que fiquei realmente assustada com a agressividade que vinha nos directs. E olha que sou uma pessoa tranquila. Aquilo me fez pensar: até onde isso pode ir? Então decidi me proteger – Alexandra Richter

Alexandra Richter foge da comédia no cinema em thriller político e volta ao teatro com ‘A Melhor Parte’ (Foto: Marcio Farias)
Apesar das apreensões, ela afirma que tenta manter a esperança nos resultados dos processos eleitorais do país. “A esperança é a última que morre. A gente precisa acreditar que as pessoas vão entender que as escolhas que fazem impactam toda a sociedade. Mas tudo precisa ser conversado. Sem intolerância”. Segundo a atriz, o problema começa quando o debate deixa de existir e dá lugar ao confronto. “Se eu não concordo com você, isso não pode significar que a gente precise se odiar. Chegou um ponto em que as conversas não progrediam mais. Viravam discussões, brigas, depois rompimentos. Isso é muito perigoso”.
Alexandra chama atenção para a violência simbólica que se instala nesse processo, e para o impacto disso na vida coletiva. “Vivemos em sociedade. Quando o diálogo se perde, quando tudo vira agressividade, isso não é producente. E não é só na política. Isso é ruim no futebol, é ruim em qualquer lugar”. A atriz também relaciona esse cenário ao questionamento central do filme que acaba de rodar. “O grande dilema é esse: até onde as pessoas podem chegar para defender aquilo em que acreditam? Qual é o limite? Para mim, o limite sempre tem que ser o bom senso e a ética”, pontua.

Alexandra Richter está em ‘Rede Paralela’, thriller político dirigido e roteirizado por Igor Moreira (Foto: Igor Rodrigues)
Ela também destaca a desinformação que passou a circular sobre o trabalho artístico, especialmente em relação às políticas públicas de cultura. “As pessoas não sabiam nem o que era a Lei Rouanet. Achavam que era um banco, que a gente tinha um cartão e recebia dinheiro todo mês. Não sabem o que é produzir cultura no Brasil”. Alexandra lembra que produzir teatro envolve uma cadeia extensa de trabalho e impacto econômico:
A cada R$ 1 investido na economia, via lei de incentivo à cultura, voltam para ela R$ 7,59. Mas esse discurso foi completamente distorcido. Importante ressaltar que cultura gera renda, trabalhos diretos e indiretos. Também move o país- Alexandra Richter

Alexandra Richter está em ‘Rede Paralela’, thriller político dirigido e roteirizado por Igor Moreira (Foto: Igor Rodrigues)
Reservada, a artista afirma que não tem perfil para o embate virtual. “Não sou de bater boca em Instagram. Não comento comentário. Prefiro analisar o fato”. E frisa que o ambiente de hostilidade diz muito sobre o momento social: “As pessoas começaram a se tratar como inimigas. Isso é muito perigoso. É preciso escuta e respeito, empatia”.
De volta aos palcos
O ano de 2026 marca o retorno de Alexandra Richter aos palcos com ‘A Melhor Parte’, comédia romântica que a atriz prepara ao lado de Marcelo Valle. O espetáculo acompanha um casal 50+ que, após 30 anos de casamento, se vê diante do ‘ninho vazio’ e da necessidade de se reinventar. “De repente, eles começam a se questionar”, conta.
Tem muita reflexão e muita profundidade dentro da comédia, e isso eu adoro fazer –Alexandra Richter
Escrita por Júlia Spadaccini, produzida por Gustavo Nunes, com direção de Ernesto Piccolo, a peça aposta no humor como lente para falar de tempo, desejo, desgaste, afeto e reconexão. “O público vai rir, vai se identificar. Quem tem relacionamento longo, quem já teve, vai se reconhecer ali”. Para a atriz e produtora, o teatro potencializa esse encontro direto com o espectador: “Gosto muito dessa troca imediata. As pessoas se olham, se cutucam, pensam: ‘isso acontece comigo também’. Gosto desse tipo de projeto, que mexe com quem faz e com quem assiste”, sintetiza ela, que além de ‘Rede Paralela’, aguarda a estreia de duas comédias filmadas no ano passado: ‘Os Emergentes’ e ‘Marido de Aluguel’.

“Importante ressaltar que cultura gera renda, trabalhos diretos e indiretos. Também move o país” (Foto: Marcio Farias)
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