Alcoolista em novo longa, Carolina Dieckmmann revela bastidores do filme que rompe com narrativas espetacularizadas


O longa-metragem ‘(Des)controle’ marca o retorno de Carolina Dieckmmann ao cinema em um papel atravessado por escuta, pesquisa e entrega: no filme, ela aborda o alcoolismo de forma honesta e nada estereotipada, como uma doença que exige vigilância permanente. Fala da importância de romper estigmas. “Às vezes não aguentamos alguma coisa e usamos essas substâncias para anestesiar. Quando você é alcoolista, entende que nunca mais vai poder usar essa bengala. Porque essa bengala pode te levar para a morte”, afirma, sem suavizar o risco. Na entrevista, revisita sua própria trajetória, destacando o impacto definitivo de Manoel Carlos em sua formação como atriz e mulher

*Por Brunna Condini

(Com colaboração de Lucas Souza)

Carolina Dieckmmann contará no cinema, a partir de 5 de fevereiro, uma história que a atravessou por dentro. Em ‘(Des)controle’, com roteiro assinado por Felipe Sholl, Rosane Svartman (que também dirige a produção ao lado de  Carol Minêm) e Iafa Britz, que assina ainda o argumento, a atriz vive Kátia, mulher que tenta reconstruir a própria vida e reencontrar a sobriedade depois de uma recaída dolorosa. Para Dieckmmann, a experiência foi mais do que profissional: foi um encontro com memórias, com pessoas reais em processo de recuperação e com a compreensão de que o alcoolismo não é um tropeço passageiro, mas uma realidade que exige vigilância. “O mais difícil é essa compreensão de que é uma doença que precisa ser tratada para sempre”, constata. “Na minha preparação, vi gente que estava acabando de chegar no AA (Alcoólicos Anônimos), gente que estava lá há 30 anos, gente que trabalha no AA porque é alcoolista. Me senti parte disso, e me fez perceber o quanto é importante a gente fazer esse filme e falar sobre isso”.

Carolina destaca que ‘(Des)controle’ toca num ponto sensível e pouco romantizado: o limite entre o escorregar da vida e a dependência. “Às vezes não aguentamos alguma coisa e usamos essas substâncias para anestesiar”. A atriz traz essa reflexão para o campo da experiência pessoal ao lembrar da própria mãe: “Durante a separação, minha mãe (Maíra, que já faleceu) bebeu. Ela não era alcoolista, mas se utilizou disso. Consegui compreender o que ela passou. Esse filme me curou em muitos aspectos”. E reforça uma diferença central para entender a gravidade da doença. “Quando você é alcoolista, entende que nunca mais vai poder usar essa bengala. Porque essa bengala pode te levar para a morte”, afirma, sem suavizar o risco. Aqui, a atriz também fala do processo do filme, e relembra a importância de Manoel Carlos, que partiu no início de janeiro, em sua trajetória de mais de 30 anos no ofício.

Em ‘(Des)controle’, Carolina Dieckmann fala de alcoolismo sem glamour e nesta entrevista relembra a importância de Manoel Carlos em sua trajetória (Foto: Reprodução/Instagram)

Em ‘(Des)controle’, Carolina Dieckmmann fala de alcoolismo sem glamour e nesta entrevista relembra a importância de Manoel Carlos em sua trajetória (Foto: Reprodução/Instagram)

O caminho que nos encontra

O autor prometeu e escreveu a personagem Camila, de ‘Laços de Família’, especialmente para ela. “Fiz ‘Por Amor‘, em 1998, e, quando estávamos gravando o finalzinho, eu estava grávida e perdi o bebê. Era justo na semana que a personagem ficava grávida, era o final feliz. A Vera Holtz, que fazia a minha mãe na trama, alertou que eu não ia conseguir fazer essa cena, falou com o Maneco. Ele disse pra ela que eu ficasse tranquila, porque ele tiraria a cena e escreveria uma novela pra mim ainda. Pouco mais de um ano depois, escreveu um bilhete dizendo que escreveu ‘Laço da Família‘ para mim e a Vera Fisher“. Ao falar de referências que a formaram como atriz, e que dialogam diretamente com a densidade emocional de ‘(Des)controle’, Dieckmann faz questão de destacar a importância de Manoel Carlos em sua trajetória:

Sou muito fã do Maneco, vou ser pra sempre. Acho que ele tinha essa coisa de falar do feminino, coisa que de alguma maneira, se conecta com esse filme que a gente está fazendo. Ele tem tantas personagens de mulheres incríveis que não tem como a gente não ficar assim: caramba, é um homem que escreveu tudo isso? E foi – Carolina Dieckmmann

Carolina Dieckmann protagoniza '(Des)controle' estreia em 5 de fevereiro nos cinemas (Foto: Mariana Vianna)

Carolina Dieckmann protagoniza ‘(Des)controle’ estreia em 5 de fevereiro nos cinemas (Foto: Mariana Vianna)

Ela destaca, que essa escuta sensível do autor, não se restringia ao feminino, mas atravessava temas complexos da vida cotidiana. “Ele também ajudou a falar do alcoolismo em suas tramas, como em ‘Mulheres Apaixonadas’ (2003); e tantos outros assuntos, como o câncer. São histórias colocadas de uma maneira sensível, cotidiana, que a gente conseguiu entender”. No plano pessoal, a relação com Manoel Carlos marca um ponto de virada. “Na minha história, ele é uma espécie de bênção”, diz a atriz, sem esconder a gratidão.

Não sei por que o Maneco gostava tanto de mim, não sei por que me ajudou tanto na minha carreira, mas a verdade é que ele me ajudou, e talvez ele nem tenha tido consciência do quanto – Carolina Dieckmmann

Carolina Dieckmann em 'Laços de Família' que foi um divisor de águas em sua trajetória (Imagem: Reprodução/Globo)

Carolina Dieckmann em ‘Laços de Família’ que foi um divisor de águas em sua trajetória (Imagem: Reprodução/Globo)

O convite para viver Camila, feito em um outro momento especialmente delicado de sua vida, foi decisivo. “Eu tinha acabado de ser mãe (de Davi Frota, seu filho com Marcos Frota), não sabia ainda se queria ser atriz, o que era essa profissão, e ele me dá aquela personagem”, relembra. “O Maneco me transformou em uma atriz”. Carolina reconhece que tudo o que viveu durante a novela teve impacto profundo: “Ele foi muito definitivo na minha carreira e na minha vida. Em quem sou hoje”.

O longa-metragem, que chega aos cinemas no dia 5, é baseado em uma história real, retrata a vida de uma escritora, sobrecarregada, que tem uma recaída no vício e volta a beber. “A semente dessa história vem da Iafa Britz , que é a nossa produtora e idealizadora do projeto. Ela foi muito corajosa. A primeira ficha foi, ‘Nossa, te conheço há décadas e não sabia'”, contou a diretora Rosane Svartman.

A entrega de Carolina ao papel passou por um processo cuidadoso. Antes mesmo de as filmagens, a atriz mergulhou em conversas longas com as diretoras e com Iafa. “A gente parou para assistir muitos filmes juntas, para conversar sobre as nossas experiências, sobre o quanto a gente estava disponível a colocar isso no filme”. Para ela, esse alinhamento inicial foi determinante para entender que tipo de narrativa estavam construindo, uma história sem glamour, sem atalhos e sem julgamento: “É um filme que tem argumentos de uma mulher que passou por isso, duas diretoras, uma equipe majoritariamente feminina. Falamos de um jeito honesto e bonito desse assunto tão sério e difícil”.

Na sequência, veio um trabalho intenso de preparação corporal, essencial para fugir de estereótipos tão comuns quando o tema é dependência química. “Precisava entender como essa mulher ia olhar para o álcool, como ela ia beber, como ela ia engolir, como ela ia se desequilibrar”, explica. A intenção era clara: “Não queria fazer uma alcoolista, uma bêbada na forma, mas fazer uma mulher que está passando por isso”. Para Carolina, o corpo carrega sinais que o texto não explica, e era ali que a personagem precisava existir. “Foi intenso”.

Esse cuidado se conecta diretamente à proposta do filme, que se afasta de narrativas moralistas ou espetacularizadas. Em ‘(Des)controle’, o alcoolismo não aparece como um desvio momentâneo nem como um traço de personalidade, mas como uma condição que reorganiza a vida inteira de quem é atravessado por ela. “Quando você entende que tem algo que precisa estar atento para sempre, isso muda tudo”.

“Não queria fazer uma alcoolista, uma bêbada na forma, mas fazer uma mulher que está passando por isso” (Foto: Mariana Vianna)

“Não queria fazer uma alcoolista, uma bêbada na forma, mas fazer uma mulher que está passando por isso” (Foto: Mariana Vianna)