Aisha Jambo estreia monólogo e relembra papel afro em Malhação: “revolução na estética dos jovens negros”


A atriz Aisha Jambo relembra o impacto de Naomi, de Malhação, símbolo de representatividade negra nos anos 2000. A personagem rompeu estereótipos ao retratar uma jovem negra de classe média, influenciando estética e autoestima de meninas. Agora, retorna ao Globoplay como investigadora em A Divisão, papel que exigiu preparo intenso. Paralelamente, destaca sua atuação no cinema e no teatro, com projetos ligados à cultura e à identidade afro-brasileira. Inspirada por Mercedes Baptista, encena “Quando Dança um Baobá”, que estreia no próximo dia 7, no Centro Cultural Correios, e reafirma o compromisso com narrativas negras e transformação social pela arte “Falar sobre Mercedes Baptista e seu simbolismo na sociedade brasileira é também falar de outras mulheres pretas pioneiras como Vanja Ferreira, primeira harpista brasileira, minha mãe, que é minha primeira referência”

*por Vítor Antunes

No início dos Anos 2000 uma personagem negra, de classe média e aluna de escola de elite era algo raro. Aisha Jambo foi uma daquelas a ajudar a recompor esse imaginário quando interpretou Naomi, de “Malhação”, que segundo ela, teve um fator decisivo na transformação do entendimento sobre negritude. Agora, ela volta ao ar, no Globoplay, interpretando uma investigadora em “A Divisão“. “Essa personagem, a Andrea, representa uma virada de chave, pois me exigiu intenso estudo, preparação e força já que se tratava de uma policial determinada buscando seu espaço de liderança em um ambiente dominado por homens extremamente hierárquico”.

Naomi, a personagem de “Malhação”, marcou uma geração exatamente em razão do protagonsimo afro no horário nobre da TV. Um personagem importante numa trama adolescente que fazia muito sucesso, no início dos Anos 2000. “Naomi surge em um momento de virada da comunidade brasileira, início dos anos 2000, das discussões levantadas pelos movimentos sociais. Ela personifica o desejo e as demandas de todo um povo. Uma personagem de classe média, altiva, com voz, denunciando o racismo, tendo namorados, e também tendo humor. Fugiu completamente das personagens estereotipadas que nos ofertaram em outras produções. Acredito que tenha estimulado até a indústria da beleza que a partir daquele momento passou a olhar para esse público consumidor. Muitas meninas me contam que passaram a fazer a transição capilar ao me verem no programa. Fico emocionada!”

Era a única menina preta do programa, na época. Chego com meu cabelo afro naturalmente volumoso e crespo em um momento em que a tendência ainda era o alisamento. Foi uma revolução na estética e autoestima de muitas jovens pretas que se viram representadas. Nesse período, ouvimos depoimentos de pessoas que perderam o emprego por usarem o cabelo afro! – Aisha Jambo

Aisha Jambo em “Malhação” (Foto: Reprodução/Globo)

Pouco tempo depois deste trabalho, Aisha atuou em “Cabocla”  com uma personagem amiga de Vanessa Giácomo, a protagonista. Agora, a duas tornaram a se encontrar no longa “Fé para o Impossível“, no qual ela também é produtora. “Foi uma experiência intensa e muito feliz fazer o filme Fé Para o Impossível. Dei vida a uma médica socorrista, personagem fundamental da história da protagonista, que presta os primeiros socorros e salva sua vida. Um trabalho que também me exigiu bastante, era uma sequência de situação limite, tivemos laboratório com socorristas e por conta pròpria fui conversar com um médico que trabalha em ambulância. Reencontrar Vanessa foi um grande prazer, temos muitas recordações especiais, e emocionantes, na novela ”Cabocla”, de 2004. Agora num outro momento da vida, em que somos mães de adolescentes”.

Diante do tempo, o que permaneceu intacto na minha relação com a arte é a função de transformação individual e social dela, e em vê-la caminhar junto com a educação – Aisha Jambo

Aisha Jambo estará em série do Globoplay (Foto: Fernanda Cândido)

Um espetáculo de Aisha que costumeiramente volta à cena é aquele em que homenageia Mercedes Baptista (1921-2014), primeira bailarina do Municipal e uma das expoentes da dança negra – tanto que a data de sua morte marca o dia da Dança Afro Brasileira, em muitas cidades brasileiras. Marcedes encontrou muitas resistências e exclusões até ter seu valor reconhecido. “Falar de Mercedes Baptista, conhecida como a primeira bailarina negra a entrar para o corpo de baile do Theatro Municipal e a precursora da dança afro-brasileira, é falar de uma essência nossa, brasilidade, algo que é muito caro para mim. Gosto de pesquisar diferentes linguagens artísticas”.

Com duração de 60 minutos e classificação indicativa livre, o espetáculo se estrutura como um monólogo musicado, acompanhado por contrabaixo e percussão, para narrar a trajetória da pioneira Mercedes Baptista, articulando sua biografia ao protagonismo negro e à afirmação da dança afro-brasileira; em cena, a construção dramatúrgica combina relato histórico, expressão corporal e musicalidade.

Falar de Mercedes é trazer toda a presença da nossa cultura popular e também dialogar com a cultura estabelecida dentro do cânone erudito. Reconhecer seu simbolismo na sociedade brasileira é também falar de outras mulheres pretas pioneiras como Vanja Ferreira, primeira harpista brasileira, minha mãe, que é minha primeira referência – Aisha Jambo

Aisha Jambo investe na dança, inspirada em Mercedes Baptista (Foto: Guilherme Lima)

A mãe de Aisha, Vanja Ferreira, é a primeira harpista das Orquestra Sinfônica Nacional da Universidade Federal Fluminense (UFF), líder de naipe do instrumento. Segundo a harpista declarou à Veja em 2021, o interesse pela música clássica é crescente “em todas as camadas sociais. Falta porém melhores condições financeiras para a população”, e lastimava que essa oferta ficasse restrita aos centros urbanos. “A necessidade de divulgação e o baixíssimo retorno financeiro chegam a ser desoladores para alguns artistas. Esta situação se agrava fortemente quando adentramos os bairros distantes do centro da cidade , onde não há qualquer oferta de espaço para concertos”. Ou seja, tanto como Mercedes, a harpa, as sinfonias, e até Vanja, parecem precisar ser (re)descobertas pelo público geral.

E esse é o ímpeto de Aisha: Contar a história que há – e que dança – pelas ruas. “Minha primeira empreitada teatral com a peça “Quando Dança um Baobá” tem me estimulado muito e já estou com outros projetos na fila. Tenho um projeto com os atores Saulo Rodrigues e José Karini que é uma livre inspiração em Shakespeare e uma peça infanto juvenil. Contar histórias através da dramaturgia me fascina”. No percurso que vai de Naomi, em Malhação, à investigadora de “A Divisão”, Aisha Jambo costura memória, presença e futuro. Sua trajetória ecoa vozes que antes foram silenciadas e reafirma a arte como território de disputa e reinvenção. Ao evocar referências como Mercedes Baptista e transformar vivência em linguagem, a atriz projeta um movimento contínuo de afirmação. Afinal, há histórias que não apenas precisam ser contadas, mas ouvidas como quem reconhece, enfim, o próprio reflexo.

Créditos
Fotos Fernanda Cândido
Styling Samantha Szczerb
Beleza Ric Menezes
Agradecimentos Pathy