Adriana Esteves em dobro na TV: vilã de ‘Avenida Brasil’ a explosiva de ‘Os Outros’ e o segredo da audiência hoje


Com ‘Avenida Brasil’ de volta no Vale a Pena Ver de Novo e a estreia da nova temporada de ‘Os Outros’, em 9 de abril, no Globoplay, Adriana Esteves aparece em dose dupla ao revisitar a icônica Carminha e apresentar a intensa Cibele em narrativas que dialogam com o tempo, expõem diferentes formas de violência nos conflitos humanos e refletem a mudança no olhar do público, hoje mais atento à empatia, à complexidade das relações e menos tolerante à perversidade gratuita na ficção

*Por Brunna Condini

Avenida Brasil’, novela de grande sucesso em 2012, está de volta no Vale a Pena Ver de Novo. E, com isso, surge uma coincidência instigante: Adriana Esteves em dose dupla, e em registros quase opostos. Enquanto o público revisita a icônica vilã Carminha, criação de João Emanuel Carneiro, a atriz estreia, em 9 de abril, a nova temporada de ‘Os Outros’, no Globoplay. Se na novela Carminha não poupa ninguém do seu fel — nem a própria filha Ágata (Ana Karolina Lannes), alvo de humilhações constantes —, na série de Lucas Paraízo, Adriana é Cibele, uma mãe capaz de tudo pelo filho Marcinho (Antonio Haddad). Duas mulheres atravessadas pela maternidade, mas situadas em universos morais, sociais e narrativos radicalmente distintos.

Por acaso, estamos falando de dois êxitos de audiência. ‘Os Outros’ se consolidou como um dos maiores sucessos de crítica do Globoplay, com alto engajamento do público. Adriana, que atravessa mais de quatro décadas de carreira, vive ali algo inédito: a continuidade de uma mesma personagem. “Nesta série foi a primeira vez que segui com uma personagem. Fazer três temporadas de uma mesma obra contribuíram muito para meu crescimento pessoal e profissional”, afirma.

Curiosamente, esse movimento de continuidade também se desenha em ‘Avenida Brasil’, cuja sequência já está prevista para 2027, com o retorno de Carminha 15 anos depois. Ou seja: Adriana vive duas personagens marcantes, em universos diferentes, que se estendem no tempo, algo raro em uma carreira acostumada a recomeços. Mas é inevitável perguntar: como o público hoje revê uma obra que fez sucesso em uma determinada época, e qual a expectativa de engajamento com a continuação de histórias assim? Principalmente em se tratando de produções que compartilham uma abordagem intensa sobre a violência nos conflitos humanos, explorando como disputas (por poder ou mesmo as cotidianas),  podem escalar para comportamentos extremos, vingança e a desintegração moral?

Adriana Esteves em dose dupla: entre a Carminha de ‘Avenida Brasil’ e a Cibele de ‘Os Outros’, dois retratos do tempo e da mudança do olhar do público (Foto: Divulgação/Globo)

Adriana Esteves em dose dupla: entre a Carminha de ‘Avenida Brasil’ e a Cibele de ‘Os Outros’, dois retratos do tempo e da mudança do olhar do público (Foto: Divulgação/Globo)

Avenida Brasil’ é considerada uma das novelas mais emblemáticas da teledramaturgia brasileira. Sua narrativa ágil, a construção de personagens populares e uma trama de vingança com apelo universal, levaram a obra a ser vendida para mais de 140 países e dublada em mais de 20 línguas. Um sucesso que atravessou fronteiras, e que agora retorna em outro tempo, outro contexto, outro olhar. Será que o que foi fenômeno ontem se sustenta hoje na reprise do horário vespertino? E mais: como o público de agora reage a tramas pesadas, que na época, foram absorvidas como parte do jogo dramático? A reexibição é estratégica, já que refresca a memória do público para a continuação que vem aí. Fato é, que até agora o telespectador tem demonstrado interesse em rever a história: a reprise de ‘Avenida Brasil’ apresenta números superiores à antecessora ‘Rainha da Sucata‘ (na estreia registrou 15,3 a 15,7 pontos de audiência na Grande São Paulo, a trama anterior registrou 14,1 pontos).

Debora Falabella e Adriana Esteves em 'Avenida Brasil' (Foto: Divulgação/Globo)

Debora Falabella e Adriana Esteves em ‘Avenida Brasil’ (Foto: Divulgação/Globo)

Falando das personagens de Adriana Esteves, se Carminha exercia sua crueldade com camadas que beiravam o cômico e, por isso mesmo, fascinavam, Cibele surge em um território mais realista, onde os conflitos são menos caricatos e mais incômodos. Em ‘Os Outros’, a violência não é estilizada: ela é reconhecível, cotidiana, perturbadora. E talvez esteja aí uma chave importante. Entre 2012 e 2025, não foi só a atriz que mudou. O público mudou. O mundo mudou. As discussões sobre maternidade, violência psicológica, relações familiares e responsabilidade afetiva ganharam novas camadas. O que antes podia ser lido como exagero ficcional, hoje pode ser encarado como sintoma.

Após o sucesso avassalador como Carminha, Adriana consolidou sua posição como uma das maiores atrizes do país, transitando por papéis intensos em novelas e séries, até chegar a 2025 com o fim de seu contrato fixo com a TV Globo. Nesse intervalo, tornou-se uma espécie de especialista em personagens densas, muitas vezes atravessadas por zonas de sombra. E é justamente nesse ponto que a sobreposição entre Carminha e Cibele se torna mais potente.

Adriana Esteves e Antonio Haddad são mãe e filho em 'Os Outros', que estreia terceira temporada em abril (Foto: Divulgação/Globo)

Adriana Esteves e Antonio Haddad são mãe e filho em ‘Os Outros’, que estreia terceira temporada em abril (Foto: Divulgação/Globo)

Olhar do público em dois tempos

Não se trata apenas de comparar duas personagens. Trata-se de observar o deslocamento de um olhar coletivo. O que era naturalizado no mundo de ‘Avenida Brasil’: o bullying materno, a humilhação como ferramenta de poder, o riso diante da crueldade; hoje encontra menos espaço de complacência. Em ‘Os Outros’, esse mesmo impulso controlador e violento não é aliviado pelo humor: ele é exposto, tensionado, problematizado.

Cibele não é uma vilã clássica. Mas também não é uma personagem confortável, é ambígua. E talvez essa seja a maior diferença entre as duas obras, e entre os dois tempos. Se antes a ficção nos permitia rir da perversidade, hoje ela nos convida a encará-la. E aí, a pergunta deixa de ser apenas sobre audiência ou sucesso. Passa a ser sobre o que estamos dispostos a rever, e principalmente, sobre o que já não conseguimos mais aceitar bem.

A ficção sempre vai nos permitir tudo, inclusive rir da perversidade ou encará-la. Mas no mundo atual, atravessado por crimes chocantes, guerras, instabilidade geral, o que a audiência está mais aberta a assistir e digerir? E que histórias vão gerar identificação imediata, mesmo não sendo leves ou tendo alívios cômicos? O que define uma história de sucesso hoje?

Adriana Esteves é a icônica vilã Carminha em ‘Avenida Brasil’ (Foto: Divulgação/Globo)

Adriana Esteves é a icônica vilã Carminha em ‘Avenida Brasil’ (Foto: Divulgação/Globo)

O que público quer?

Há indícios significativos de que o público atual tem buscado, e aceitado, menos histórias baseadas puramente na violência gráfica e na perversidade gratuita, preferindo conteúdos que priorizam empatia, autenticidade e conexões humanas. Não se trata de rejeitar o conflito, ele continua sendo motor da narrativa, mas de exigir uma outra camada de sentido.

Em resposta a um mundo acelerado e estressante, cresce a busca por conteúdos que acolham, que desacelerem, que ofereçam algum tipo de respiro. A chamada ‘cozy aesthetic’ (estética aconchegante), o interesse por histórias mais íntimas, o desejo por menos sobrecarga sensorial apontam para um público que não quer apenas ser impactado, quer também se reconhecer, se sentir seguro dentro da experiência.

Ao mesmo tempo, há uma fadiga evidente diante do que se convencionou chamar de ‘rage bait’ (isca de raiva): conteúdos que apostam exclusivamente na indignação, na provocação, no excesso. Embora ainda performem bem nos algoritmos, começam a ser punidos emocionalmente pelo público, que demonstra maior adesão a narrativas mais humanas e menos performáticas na perversidade. Isso dialoga diretamente com uma preocupação concreta: a violência real. Quando ela ocupa o centro das inquietações sociais, como já apontam pesquisas recentes no Brasil, o entretenimento que a explorar de forma gratuita pode gerar mais afastamento do que engajamento. Mas o cenário não é simples, nem linear.

Adriana Esteves e o elenco da terceira temporada da série ‘Os Outros’ (Foto: Divulgação/Globo)

Adriana Esteves e o elenco da terceira temporada da série ‘Os Outros’ (Foto: Divulgação/Globo)

Há um contraponto importante: os microdramas, as narrativas intensas e até a violência continuam encontrando espaço, muitas vezes funcionando como válvula de escape, uma espécie de catarse ou ‘retaliação’ ficcional diante de frustrações reais. Ou seja, não estamos diante de uma rejeição absoluta à violência, mas de uma mudança na forma como ela é aceita. Talvez a diferença esteja menos no ‘o quê’ e mais no ‘como’. O público ainda quer tensão, conflito, dilema. Mas parece cada vez menos disposto a consumir histórias que tratem a perversidade como espetáculo vazio. E, nesse sentido, o contraste entre Carminha e Cibele se torna ainda mais revelador.

Carminha pertence a um tempo em que a vilania podia flertar com o exagero e ainda assim gerar fascínio coletivo. Cibele, por sua vez, habita um tempo em que o incômodo não pode ser suavizado, ele precisa ser elaborado. Duas personagens, duas forças narrativas, dois espelhos de época. E talvez seja justamente nesse atravessamento, entre o que fomos capazes de aplaudir e o que hoje nos inquieta, que a ficção siga cumprindo seu papel mais potente: não apenas entreter, mas nos obrigar a olhar.