Acordo entre Globo e SIC mira nostalgia e garante dois anos de remakes de novelas brasileiras em Portugal


A Globo e a portuguesa SIC firmaram novo acordo para produzir remakes de novelas brasileiras icônicas nos próximos dois anos, seguindo o modelo de Dancin’ Days (2012). O foco será ajustar tramas clássicas à realidade local. A SIC manteve o tom reservado, enquanto a Globo celebrou o reforço da parceria de mais de 30 anos. A aposta resgata memórias afetivas, ainda que com pouca reinvenção e muito reaproveitamento

*por Vítor Antunes

A onda de remakes acaba de cruzar o Atlântico. Portugal se rende ao poder narrativo das telenovelas brasileiras, agora com um novo acordo entre a TV Globo e a SIC. Segundo nota oficial enviada ao site HT, a Globo confirmou que, nos próximos dois anos, a SIC irá produzir remakes de títulos clássicos da teledramaturgia brasileira. Além disso, manterá sua prática já consagrada – e comercialmente segura – de exibir as novelas contemporâneas da Globo no horário nobre português. Até o momento, contudo, a escolha da primeira trama a ser adaptada ainda não foi definida. “Ainda não sabemos qual será o primeiro título”, limitou-se a dizer a emissora.

A SIC – sempre comedida quando o assunto envolve a origem das ideias – foi procurada, mas preferiu manter sua conhecida postura protocolar. “A SIC não comenta parcerias fora dos circuitos restritos dos gabinetes de comunicação”, respondeu a emissora portuguesa.

No entanto, curiosamente, a própria nota enviada pela Globo traz uma fala de Daniel Oliveira, diretor-geral de Entretenimento do Grupo Impresa/SIC: “O público português guarda uma memória afetiva muito forte dessas tramas e dos atores que as protagonizaram. Atualizar e adaptar alguns desses títulos à realidade portuguesa complementa nossa aposta em formatos nacionais – e abre novas oportunidades de conexão com o universo de língua portuguesa”, afirmou, com o tom de quem tenta equilibrar criatividade e dependência externa.

Sonia Braga e Paulette, no clímax da trama de “Dancin Days”, 1978: O retorno triunfal de Julia Mattos (Foto: Divulgação/TV Globo)

De todo modo, o comunicado marca uma nova fase da parceria entre as empresas – uma relação que, segundo a própria Globo, já dura mais de três décadas. A SIC nasceu em 1992, sendo o primeiro canal de televisão privado lançado em Portugal e criado em parceria com a Globo, que detinha 15% da participação na emissora até 2003. A promessa agora é transformar novelas que marcaram gerações – e que hoje vivem de reprises nostálgicas – em novos produtos “ajustados à realidade portuguesa”. Ou, para usar as palavras do texto enviado pela assessoria da Globo, “a adaptação para Portugal de novelas brasileiras icônicas – a exemplo do que foi feito no passado com “Dancin’ Days”.

A referência a “Dancin’ Days” não é casual. Em 2012, a SIC e a Globo se uniram para recriar a obra de Gilberto Braga (1945-2021) – transformando um clássico setentista brasileiro em um sucesso lusitano contemporâneo. A receita parece ter agradado: misturar a memória afetiva do público com a conveniência de não precisar inventar nada de novo.

Rodrigo Nascimento, head de vendas internacionais da Globo, também comentou o movimento. “A Globo e a SIC compartilham uma história de sucesso construída com base em uma paixão comum por contar boas histórias. Renovar e expandir essa parceria é um reconhecimento da força das nossas narrativas – e do carinho duradouro do público português pelas telenovelas brasileiras (…), agora com um olhar local”, destacou.

Acordo entre Globo e SIC garante dois anos de remakes de novelas brasileiras em Portugal (Foto: Divulgação)

O “olhar local”, nesse caso, pode ser lido com parcimônia. Trata-se menos de uma reinvenção cultural e mais de uma adaptação pontual de sotaques, referências geográficas e nomes próprios. A essência – o melodrama, o conflito familiar, o triângulo amoroso inevitável – continuará profundamente brasileiro. O que é o grande trunfo desse tipo de exportação: vender um produto já testado e aprovado, com a embalagem renovada e o valor afetivo associado. Porém, “Vale Tudo” está aí para provar que nem todos esses fatores podem ser definitivos.