*por Vítor Antunes
Falida desde 1999, a Rede Manchete nunca deixou de gerar discussão. Desta vez, porém, o assunto não é a sua monstruosa dívida — tema recorrente nos bastidores do setor —, mas sim o paradeiro de seu acervo. O destino obscuro do arquivo da emissora sempre movimentou pesquisadores, colecionadores e entusiastas da história da televisão brasileira. E pelo menos agora o Site HT conseguiu localizar uma pista concreta: parte do acervo de telenovelas foi preservada e está sob a guarda do SBT. A emissora de Silvio Santos confirma parcialmente a informação. Em nota, o SBT reconhece ter em seu poder apenas as quatro tramas que chegou a transmitir após a derrocada da Manchete — a saber: Pantanal (1990), Dona Beija (1986), A História de Ana Raio e Zé Trovão (1990) e Xica da Silva (1996). A posição oficial da emissora é direta, mas deixa margem para interpretações: “As novelas que foram exibidas pelo SBT, temos os arquivos. As outras, por questão de confidencialidade, não podemos responder.”
A resposta, estrategicamente lacônica, acende um sinal de alerta — e não sem motivo. Um pesquisador consultado pela reportagem, que preferiu não se identificar, revelou que ao menos parte do acervo da Manchete continua guardada pelo SBT e vai além das quatro produções já exibidas pela emissora paulista. Pelo menos outras três novelas — Carmem, Viver a Vida e Tudo em Cima — também estariam preservadas sob a tutela do Arquivo do SBT. Não há, contudo, informações disponíveis sobre a preservação integral dessas obras nem do estado das fitas.
Segundo os registros aos quais o Site HT teve acesso, entre as novelas não exibidas pelo SBT, constam em seu arquivo pelo menos três capítulos — os de número 01, 13 e 25 — de “Tudo em Cima” (que teve 25 capítulos), além de capítulos de “Carmem” e “Viver a Vida”.

Fitas da Manchete sob a tutela do SBT, no acervo da emissora. O fotógrafo optou por não ser identificado
O assunto não é exatamente novo. No fim do ano passado, já circulava pela internet um registro do arquivo da emissora no qual constava a caixa original da Manchete com alguns capítulos de Pantanal (1990) — material que despertou uma onda de especulações sobre o que mais poderia estar guardado nos cofres da emissora paulista. O problema, contudo, é jurídico — e não é pequeno. Como o material não pode ser transmitido sem uma força-tarefa de advogados capaz de desembaraçar décadas de pendências legais, não há qualquer intenção imediata em se colocar no ar novelas da extinta emissora.
O estado de conservação das fitas, no entanto, é uma incógnita, o que dificulta tanto a exibição quanto a digitalização. Da mesma forma, é preciso levar em conta a existência — ou não — de equipamentos capazes de reproduzi-las. O material ainda não foi digitalizado, nem há previsão para isso acontecer, muito em função da confusão jurídica que envolve tudo o que diz respeito ao legado da Manchete.

Cláudia Magno em “Viver a Vida” (Foto: Reprodução/TV Manchete/Recuperada e tratada por iA)
O ACERVO DA MANCHETE E A LONGA “NOVELA” DO SEU DESTINO
No final da primeira década dos anos 2000, as fitas da Manchete estavam sob a responsabilidade da produtora JPO. Inclusive, a exibição de Pantanal foi tratada pelo SBT diretamente com a empresa, que também intermediou a liberação de outras tramas da TV Manchete Ltda., como Dona Beija e Ana Raio e Zé Trovão. Importante ressaltar que Xica da Silva não estava sob responsabilidade da TV Manchete Ltda., mas da Bloch Som e Imagem — outra empresa, não extinta, também ligada ao Grupo Bloch.
Contudo, ao fim do acordo estabelecido entre a JPO e a massa falida da Bloch, as fitas foram devolvidas à extinta emissora, segundo uma fonte ligada à produtora consultada pela reportagem. Ainda de acordo com essa fonte, entre os registros que estavam sob administração da empresa constavam apenas as novelas, não havendo material jornalístico. Todo o acervo teria sido devolvido para um depósito da antiga emissora — o que sugere que, de lá, as fitas foram posteriormente levadas para o SBT.
Não faz muito tempo, o Site HT noticiou que as novelas da extinta Rede Manchete vinham circulando pelo mundo de maneiras pouco rastreáveis. Em 2023, acompanhamos a estreia de Dona Beija no Peru — então rebatizada de Doña Bela para o mercado local — e soubemos que, pelo menos na primeira década dos anos 2000, Carmem estava sendo negociada pela Vip2000, empresa que esteve envolvida em tratativas para transmitir produções do catálogo da emissora, incluindo negociações com a então locatária do acervo, a JPO Produções Ltda. O objetivo era levar ao público internacional obras icônicas como Carmem, Pantanal e Dona Beija. À época, a apuração do Site HT não encontrou indícios concretos de que essas novelas tivessem sido efetivamente licenciadas para o mercado externo.
A evidência mais significativa é uma fotografia publicada em 2021 por uma das sócias da Vip2000, na qual menciona a participação da empresa na MIPCOM de 2008 — o maior mercado de conteúdo audiovisual do mundo, realizado anualmente em Cannes. A presença da empresa no evento, com o catálogo da Manchete sob negociação, reforça a hipótese de que ao menos parte desse acervo tenha encontrado compradores fora do Brasil.

Logo de Viver a Vida da Manchete (Foto: Reprodução/Manchete)
Enquanto isso, as fitas originais da emissora seguem numa história pouco conhecida, obscura e inconclusiva. A última informação validada de que se tem notícia é a de que o material teria sido leiloado. O leilão, realizado em 2021, foi dividido em três lotes distintos: a marca da emissora; o arquivo de fitas de novelas e minisséries; e um terceiro lote composto por programas jornalísticos e infantis. A compra das fitas foi incorporada ao processo de falência da Manchete, que se arrasta na Justiça há mais de duas décadas e tramita atualmente na 3ª Vara de Recuperações Judiciais e Falências de São Paulo — onde aguarda novo julgamento em instâncias superiores. Procurada, a Massa Falida da Bloch não respondeu aos nossos contatos.
Uma emissora que marcou gerações, e cujo legado segue preso entre pendências jurídicas, lotes de leilão e arquivos de paradeiro incerto. A história da Manchete, ao que tudo indica, ainda não chegou ao seu último capítulo.
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