“A Viagem” está de volta à Globo. Na sexta reprise do clássico de Ivani Ribeiro, atores e co-autora relembram sucesso da trama


Exibida originalmente em 1994, a trama que aborda temas espirituais e a vida após a morte, cativando diferentes gerações, é reprisada pela sexta vez. A adaptação enfrentou desafios, como a montagem apressada do elenco e ajustes na história, mas conquistou altos índices de audiência. Lucinha Lins, intérprete de Estela, destaca o impacto duradouro da novela e sua curiosidade sobre uma possível adaptação teatral. Christiane Torloni, que viveu Diná, relembra sua conexão com a autora Ivani Ribeiro e a influência espiritual do folhetim em sua vida. Já Guilherme Fontes, que interpretou Alexandre, ressalta o impacto cultural de seu personagem, ainda presente na memória do público

*por Vítor Antunes

Mais uma vez, “A Viagem” está sendo reapresentada. É a surpreendente sexta vez que a novela de Ivani Ribeiro (1922-1995) ganha as telas da TV, sendo a quarta só na Globo. Nesta, Guilherme Fontes viveu o vilão que, mesmo morto, não deu descanso a vários personagens da novela. Na mesma trama, Christiane Torloni e Lucinha Lins viveram Estela e Diná, irmãs de Alexandre – vivido por Guilherme. E a novela é um dos maiores sucessos históricos do horário das 19h na Globo. A história que agrada o público e é atemporal, foi criada por Ivani Ribeiro (1922-1995). Relembre a trama a partir da perspectiva de alguns dos atores do folhetim e de sua co-autora, Solange Castro Neves.

A Viagem” era uma novela predestinada ao sucesso. Tanto que passou por várias intercorrências até que fosse levada ao ar. Não era a trama cotada ao horário, o elenco foi montado às pressas, a adaptação inicial, apressada, aproveitou muito da novela exibida pela Tupi, em 1976 e por isso tem alguns equívocos de nomes e situações. Dona Marocas (Yara Côrtes), por exemplo, é recorrentemente chamada de Isaura, nos primeiros capítulos da nova versão, sendo que Isaura era o nome da personagem tinha nos anos 1970. Ainda assim, desde a primeira exibição, o sucesso foi acachapante. “A Viagem” chegava a pontuar mais que “Pátria Minha” (1994), da mesma época.

Lucinha Lins e Fernanda Rodrigues eram mãe e filha em “A Viagem”. Sucesso de 1994 (Foto: Bazilio Calazans/Globo)

Pouco tempo depois da exibição da novela, que completa 30 anos neste ano, a autora titular da trama faleceu. “A Ivani já estava muito doente e não queria que ninguém soubesse. Assim, muitas situações difíceis aconteceram para esconder o que havia de verdade. Durante “A Viagem“, Ivani foi internada, falecendo logo depois. Ela possuía muita confiança no meu trabalho e sempre procurei fazer jus a isso. Ela ensinou-me tudo sobre roteiros e teledramaturgia, e eu me sinto privilegiada por sua presença em minha vida. O trabalho me ensinou por um lado e a vida por outro. Entre nós sempre existiu um pacto de confiança, cumplicidade e amor e eu trabalhei ao lado da minha mestra e amiga durante 17 anos”, conta Solange.

Apaixonada pela trama, Lucinha diz o que pensa da adaptação: “Essa novela é um marco dentro da teledramaturgia desse país, e é impressionante porque já reprisou sei lá quantas vezes e a audiência é incrível até hoje. Gerações estão assistindo ‘A Viagem’, é maravilhoso. Estou muito curiosa com essa possibilidade para o teatro. Não tenha dúvida que estarei na primeira fila, quero ver de perto. Acho que vou ficar muito emocionada, é uma ideia incrível e não é fácil adaptar essa história para teatro”.

Ao falar da narrativa espírita do folhetim, ela avalia a própria religiosidade. “A espiritualidade faz parte do meu ser, antes de mais nada. Sempre acreditei nisso que a gente chama de Deus, acredito no cosmos, na energia positiva. Não sei falar sobre isso direito, é uma coisa muito minha. Sou religiosa porque tenho essa ligação, sou ligada nessa coisa bonita. A espiritualidade faz parte da minha vida, senão eu não saberia viver direito”.

Christiane Torloni viveu Diná em “A Viagem”, novela de maior audiência na década de 1990 (Foto: Acervo/TV Globo)

Quando Christiane Torloni foi escalada para fazer “A Viagem’, a atriz vinha de um momento trágico em sua vida. Estava morando fora do Brasil em razão de, após um acidente, haver perdido seu filho Guilherme, fruto do casamento com o diretor Dennis Carvalho. Estava decidida em não fazer novelas, especialmente naquele momento, quando fora convidada por Wolf Maya a protagonizar o remake da famosa novela espírita exibida na Tupi em 1975. Conta-nos a intérprete de Dinah, que o diretor lançou mão de um ardil para seduzi-la a fazer a obra. “Ele me convidou para fazer uma comédia. Brinco dizendo que fui enganada por ele”. De fato, na primeira fase da trama, a personagem protagonista mostra-se uma mulher frívola e enciumada, que muda de postura após o suicídio do irmão, Alexandre (Guilherme Fontes).
Chris prossegue dizendo que “depois, quando eu vi a extensão dramática do personagem, entendi que, sim, tratava-se de um chamado. Durante o período em que morei em Portugal eu tive um convite a ler a obra de Kardec (1804-1869), e é algo impressionante esse trabalho da mediunidade, dos espíritos…”

A novela “A viagem” foi como um portal de volta ao Brasil – Christiane Torloni

A transcedentalidade existente na obra de Ivani Ribeiro (1922-1995) é entendida por Christiane como uma “experiência metafísica em vários aspectos. Não há a menor dúvida”. E a atriz dedica à falecida autora os momentos mais felizes de sua carreira na TV: “Ivani reconheceu em mim uma missão muito clara. Quem poderia imaginar que eu faria papéis que foram da Eva Wilma (1933-2021). E eu vivi personagens interpretados por ela em três ocasiões, sendo duas em novelas da Ivani”. Além de “A Viagem”, Torloni viveu Jô Penteado, de “A Gata Comeu”, remake de “A Barba Azul”, da Tupi, na qual Wilma interpretou a protagonista. O terceiro personagem de Chris, anteriormente vivido por Eva foi a Rebeca de “Tititi” (2010). A novela dos anos 2000 usou parte da trama de “Plumas e Paetês” (1980) em sua narrativa e foi nesta última que a finada atriz trabalhara. Ao contrário de “A Viagem” e “A gata Comeu”, “Tititi” e “Plumas” foram escritas por Cassiano Gabus Mendes (1927-1993).

Torloni segue dizendo que entre ela e Ribeiro havia uma grande “sintonia e eu acho que essas coisas não se dissipam, elas são transcendentais, metafísicas. Jô Penteado e Dinah, de “A Gata Comeu” e “A Viagem”, respectivamente, são testemunhas de transformação através do amor”. Christiane segue dizendo que, devido à escrita de seu livro de memórias flagrou-se com um bilhete à mão, por Ivani, que a emocionara sobremaneira. Ainda na seara do sobrenatural, a atriz pensa que o mistério da vida passa pela arte.

A arte é o caminho para poder navegar nesse oceano que é a vida com todas as suas ventanias, calmarias, encontros de lugares incríveis, despedidas, reencontros… Como diria Fernando Pessoa (1888-1935), navegar é preciso, né? – Christiane Torloni

Alexandre em “A Viagem”. Vião fez sucesso (Foto: Acervo/Globo)

Guilherme diz sobre Alexandre, seu personagem, que o impacto que ele causou é realmente fabuloso. “Eu, como ator, me sinto honrado de ter feito há 30 anos e que repercuta tanto ainda e tenha virado um ativo digital, meme, figurinha, é popular. Fico muito orgulhoso e satisfeito em ver que ele é importante na vida das pessoas”.

Foi um encontro feliz entre um ator e um personagem. É um dos quais eu me orgulho de ter interpretado, tal como o Marcos de “Mulheres de Areia” ou o Dilermando Assis de “Desejo”, assim como o meu longa, que me orgulho de ter feito. Sou muito cioso das coisas que fiz. Não é preciso trabalhar muito para ser feliz, mas para se estar na posteridade – Guilherme Fontes

A Viagem continua a ser um marco na teledramaturgia brasileira, não apenas pelo sucesso de suas reprises, mas pela profundidade de sua temática e pelo impacto que deixou no público e no elenco. A novela transcende gerações, abordando questões espirituais e emocionais que permanecem atuais. O legado de Ivani Ribeiro segue vivo, refletido na admiração dos atores e no carinho do público, provando que algumas histórias são atemporais e sempre encontrarão um novo público para se emocionar e refletir.