A dura verdade de Flávia Garrafa sobre os bastidores sombrios do humor e o preconceito do patriarcado


“O humor sempre foi um campo majoritariamente masculino e cabia à mulher ser a piada. A mulher realmente tomou um outro lugar, mas acho que temos muito a atingir ainda”, diz Flávia Garrafa. A atriz é uma das vozes mais potentes do humor contemporâneo, unindo psicologia e teatro em um trabalho autoral e transformador. Em cartaz com as comédias “Fale Mais Sobre Isso” e “Faça Mais Sobre Isso”, ela desafia tabus como etarismo e independência feminina. Sua trajetória é marcada pela coragem de transformar a dor em criação e de afirmar o riso como ato político

*por Vitor Antunes

Ela é um dos grandes nomes do humor contemporâneo e, ao contrário do que ocorreu com tantas atrizes de gerações anteriores, não precisou anular sua beleza nem se enquadrar no status quo para se afirmar como comediante. Flávia Garrafa consolidou um humor autoral, que reflete tanto sua trajetória nas artes cênicas quanto sua formação em psicologia. Atualmente, está em cartaz com duas peças que dialogam com esses universos: “Fale Mais Sobre Isso” e “Faça Mais Sobre Isso”. São espetáculos que abordam, de maneira crítica, temas como etarismo e a independência feminina.

Segundo Flávia, a resistência ainda é grande, mas a nova geração tem avançado. “A todo tempo dizem que mulher não é engraçada, que não deve rir alto, que não sabe fazer piada, que não deve falar palavrão. Quando criamos a consciência de que a mulher pode ser o que quiser, as portas se abriram. Custa muito caro para a mulher ser quem ela quiser, principalmente para as pessoas que são menos favorecidas. A nossa geração de comediantes está metendo o pé na porta. Eu sinto que a sociedade patriarcal que criou esse padrão e perdeu o controle dele”.

O humor sempre foi um campo majoritariamente masculino e cabia à mulher ser a piada. A mulher realmente tomou um outro lugar, mas acho que temos muito a atingir ainda. Antigamente a mulher era presente na piada, mas a graça era o homem que fazia. Eu acho que com o movimento do mundo também, a mulher vai, mais do que nunca, perceber que é preciso que ela pare de ser o que os outros acham que ela tem que ser – Flávia Garrafa

A atriz também não foge do debate sobre envelhecimento e o preconceito associado à idade: “Eu acho que o etarismo é real, que todo mundo que é muito jovem tem uma sensação de que o velho não sabe mais de nada. E eu acho que é um pensamento que permeia não todas as sociedades. Então, eu tenho a sensação de que o etarismo, não só na classe artística, mas em termos gerais, precisa ser mudado, não dá para sair da pauta”.

Na opinião de Flávia, é um movimento pendular e todos precisam insistir muito para chegar ao equilíbrio. “Talvez soe chato, mas a gente não pode achar que porque é velho não sabe decorar texto, não vai conseguir fazer a deixa e não serve mais para nada. As pessoas estão envelhecendo muito bem, ainda tem isso. Então, eu acho que não dá para pular essa pauta por causa do movimento pendular. A gente tem que puxar para o outro polo, e aí ele vai atingir o equilíbrio lá na frente. É uma questão na qual a gente tem que insistir”.

Eu tenho 51 anos. Vejo que as pessoas às vezes não me dão esta idade ou questionam minha agilidade. A gente tem que começar a abrir a cabeça, porque as pessoas estão envelhecendo mais tarde. E envelhecer é uma dádiva, é uma coisa que a gente esquece – Flavia Garrafa

Flavia Garrafa acredita que os debates sobre etarismo são pendulares (Foto: Divulgação)

FALE MAIS SOBRE ISSO

Mais do que o nome da peça, a formação em psicologia de Flávia Garrafa — ainda que nunca tenha exercido a profissão formalmente — atravessa seu trabalho no teatro. Não por acaso, a expressão típica dos consultórios acabou dando título ao espetáculo. “Psicóloga de formação, comecei a fazer teatro e me apaixonei pela arte. Eu estava buscando alguma coisa para fazer em que eu pudesse ser protagonista, em que eu pudesse ter um espaço grande, não só como atriz, mas como artista”.

A peça fala sobre inquietudes, sobre um desejo de mudança que todo mundo tem. “Por ser mulher, é claro que eu carrego isso. Eu uso o humor o público também refletir sobre as mazelas da vida, porque elas existem. E eu acho que quanto mais a gente falar sobre elas e colocar leveza, mostrando que este é um pensamento comum, tudo se torna possível para uma mudança. A intenção é sempre essa: levar as pessoas ao teatro para rir, para se divertir, mas também para que saiam transformadas, pensando em coisas novas e refletindo.”

Grande parte desse olhar sensível sobre a arte foi moldada por uma experiência pessoal marcante: a morte de seu pai, que acabou por transformar dor em criação. “Quando eu era adolescente, pensando em faculdade, ele não deixou que eu fizesse artes cênicas. Então fui prestar vestibular para outra área. Ele me disse: ‘Cara, passa. Passa na faculdade e eu te deixo em paz pelo resto da vida’. Mal sabia eu que, quando passei na USP, ele ficou todo feliz — mas no primeiro ano da faculdade ele morreu de um ataque do coração”.

A atriz concluiu o curso. “Hoje junto a psicologia com o teatro. Trabalho bastante como atriz, mas vivo mesmo da minha empresa de educação. Tenho 23 funcionários e atendemos várias escolas de São Paulo, com um método que une psicologia e teatro para ensinar crianças, adolescentes e adultos. Isso é maravilhoso. Graças ao meu pai. Ele não me deixou herança em dinheiro, mas me deixou a melhor herança possível. No dia em que estreei “Fale Mais Sobre Isso”, consegui elaborar o luto do meu pai”.

Flávia Garrafa encena duas peças que debatem a questão da psicologia (Foto: Divulgação)

E as transformações impostas pela tecnologia e seus impactos na vida social? “É uma mudança muito brusca, porque a tecnologia avança em progressão geométrica. Ela é rápida demais, e eu sinto que perdemos o contato. Quando proporcionamos aos filhos atividades em que possam estar presentes e não apenas diante de uma tela — como teatro, esporte, dança, música, ou mesmo o convívio em sala de aula — isso faz diferença. O rolar de tela em uma rede social é muito mais rápido que os processos humanos, e isso gera ansiedade no mundo real, porque cria o desejo de imediatismo. Além disso, há a questão da perfeição, que é perigosa. Esse movimento de proibir celular nas escolas tem trazido reflexos importantes. O teatro, dentro das escolas, coloca foco nas relações, e o teatro é essencialmente trabalho em equipe.”

Os efeitos desse cenário sobre a saúde mental da geração mais jovem são imensuráveis. “Acho que temos hoje uma geração muito mais ansiosa e muito mais cheia de rótulos diagnósticos. Todo mundo tem TDAH e carrega um rótulo. Isso é perigoso. Vejo que atividades como teatro, esporte, dança e música resgatam algo essencial. Elas oferecem a experiência do instante, do estar presente com o outro. Não dá para negar que a tecnologia existe e ajuda muito, mas precisamos entender que, assim como o mundo muda rapidamente, a essência humana não muda. O organismo funciona dentro de um ritmo próprio — o rim não vai trabalhar mais rápido só porque você bebe mais água. É preciso encontrar equilíbrio. E nós temos a responsabilidade de ajudar nossas crianças e adolescentes a encontrarem esse equilíbrio também”.

Além do teatro, Flavia Garrafa é dona de uma empresa que trabalha com educação (foto: Divulgação)

Flávia Garrafa encarna uma artista que não se limita a fazer rir: ela expõe feridas, questiona padrões e devolve ao público a chance de se reconhecer em suas próprias contradições. Seu humor nasce da coragem de transformar dor em arte, da consciência de que envelhecer é dádiva e de que ser mulher é exercício diário de resistência. Entre a psicologia e o palco, ela revela que o riso pode ser ferramenta de cura e libertação — não apenas para quem assiste, mas também para quem ousa criar. Flávia prova, em cena e fora dela, que rir é um ato político, e que o teatro, quando feito com verdade, é sempre um convite para que a vida se torne mais leve, mais justa e, sobretudo, mais humana.