“A Nobreza do Amor” acerta em quase tudo, menos no carisma. Novela das 18h estreia com audiência baixa


A “Nobreza do Amor”, nova novela das seis, aposta em ambientação africana e elenco majoritariamente negro, o que a diferencia dentro da teledramaturgia recente. A direção de Gustavo Fernandez se destaca pela construção visual consistente, com paisagens convincentes mesmo gravadas no Brasil. No entanto, a direção de atores apresenta oscilações, e o texto, excessivamente didático, recorre a soluções pouco sutis. Figurinos e trilha sonora figuram entre os principais acertos da produção. A novela tem qualidades e margem para crescimento. Resta saber se, ao longo dos próximos capítulos, conseguirá transformar rigor estético em envolvimento — e distância em adesão

"A Nobreza do Amor" acerta em quase tudo, menos no carisma. Novela das 18h estreia com audiência baixa

*por Rodrigo Otávio

Não é de hoje que a televisão brasileira volta seus olhos para a África, ou, num recorte mais amplo, para aquilo que se convencionou chamar de afro-latinidade. O gesto, no entanto, quase sempre vem acompanhado de um desvio: o olhar que enquadra também distorce, a tradução que aproxima também simplifica. Não se trata, propriamente, de uma resposta à histórica sub-representação negra na teledramaturgia, mas de um movimento intermitente, por vezes errático, que ora tangencia o continente, ora o reconfigura segundo conveniências narrativas e estéticas.

Ainda assim, entre a beleza das imagens e a fragilidade do texto – que pode, é verdade, ser ajustado ao longo da exibição, como costuma ocorrer em novelas -, falta à obra um elemento menos tangível e, talvez por isso mesmo, mais decisivo: carisma. “A Nobreza do Amor” soa austera, especialmente quando comparada à antecessora, “Êta Mundo Melhor”, que, apesar de seus inúmeros problemas, era sustentada por uma combinação de ingenuidade, apelo popular…. e carisma

Países africanos já foram citados ou serviram de cenário para tramas brasileiras, ainda que de modo pontual. Em “O Clone” (2001), por exemplo, a ação se passava no Marrocos, mas seus personagens eram majoritariamente brancos, o que, em alguma medida, alguns justificam pela composição étnica do norte africano, de predominância berbere e menos retinta. Em outras ocasiões, a distorção foi mais evidente: em “Passos dos ventos” (1968) ambientada em um país caribenho majoritariamente negro como o Haiti, eram poucos os atores pretos em cena, apesar de mais de 90% da população haitiana ser negra.

Erika Januza na pele da rainha Niara em ‘A Nobreza do Amor’

É nesse histórico irregular que se insere “A Nobreza do Amor”, nova novela das seis. A trama desloca seu eixo central para a África, mais especificamente para Batanga, um país fictício. E, ao menos em seu primeiro capítulo, chama atenção pela presença quase total de atores negros, um dado que, por si só, já a distingue positivamente dentro da tradição recente do gênero.

Outro elemento que merece registro é a direção segura e criativa de Gustavo Fernandez, especialmente hábil na condução de cenas de paisagem. Não por acaso, foi dele a direção geral de “Pantanal“. Em “A Nobreza do Amor“, mesmo com gravações realizadas no Brasil, as tomadas conseguem evocar com eficácia um território outro, convincente em sua construção imagética. Há ali um trabalho de composição visual que sustenta a verossimilhança do espaço, o que é um mérito inequívoco da direção.

Se a geografia funciona, o mesmo não se pode dizer, com igual consistência, da direção de atores. Duda Santos, por exemplo, não encontra ainda a medida exata entre o texto – mais rígido, como convém à personagem de uma princesa – e a oralidade. Sua embocadura escapa, por vezes, para uma cadência excessivamente carioca, que destoa do universo proposto. A novela também tropeça ao recorrer a um expediente gasto: ao fim do primeiro bloco, o vilão fala sozinho e explicita suas intenções, numa espécie de confissão direta ao público. É um recurso funcional, mas pouco sofisticado. Talvez resida aí uma das fragilidades centrais de “A Nobreza do Amor”: o excesso de didatismo. O texto, em vez de confiar na inteligência do espectador e na força das imagens, insiste em explicar, em nomear, em conduzir. Com isso, acaba por ofuscar justamente aquilo que a direção constrói com mais vigor.

Duda Santos e Lázaro Ramos em cena da nova novela das seis da Globo

Em contrapartida, há acertos evidentes. Os figurinos de Marie Salles e equipe se destacam como um dos pontos altos da produção, compondo uma estética rica, coerente e visualmente marcante. A trilha sonora também merece menção, contribuindo para a atmosfera pretendida. No elenco, a presença de Welket Bunguê chama atenção pela beleza enigmática, enquanto a cena inicial do parto de Tonho (Ronald Sotto), protagonizada por Zezé Motta, se impõe pela delicadeza.

O contraste entre “Êta Mundo Melhor” e a nova produção é evidente e pode ajudar a explicar a recepção inicial. Na estreia, “A Nobreza do Amor” marcou 17,3 pontos na Grande São Paulo — o pior desempenho para um primeiro capítulo na faixa desde “Lado a Lado” (2012), que havia registrado 18,0 pontos. A novela tem qualidades e margem para crescimento. Resta saber se, ao longo dos próximos capítulos, conseguirá transformar rigor estético em envolvimento — e distância em adesão.