A maldição da lambada: Morte trágica, plágio, fracasso em duas reprises e em uma novela inédita


A lambada foi um dos gêneros mais populares da música brasileira entre os anos 1980 e 1990, com origens no Norte do país e influências do carimbó, da guitarrada e de ritmos caribenhos. O auge veio com o sucesso mundial de “Lambada (Chorando se foi)”, do grupo Kaoma, e com forte presença em trilhas de novelas como “Rainha da Sucata”. Com o tempo, porém, o gênero passou a ser associado a polêmicas, disputas judiciais por plágio e ao desgaste estético. As reprises das novelas ligadas à lambada fracassaram em audiência, incluindo a recente reexibição de “Rainha da Sucata”. O ciclo se encerrou de forma trágica com o assassinato de Loalwa Braz, vocalista do Kaoma, em 2017

*por Vítor Antunes

Sem a menor dúvida, a lambada foi um dos gêneros mais marcantes, e também mais ruidosos, da música popular brasileira entre os anos 1980 e 1990. Quando explodiu como febre nacional e, logo depois, mundial, parecia um fenômeno repentino. Mas sua história começara bem antes, ainda nos anos 1970, na região Norte do país, onde o ritmo se formou a partir do carimbó e da guitarrada, absorvendo influências caribenhas como a cúmbia e o merengue. Até o início dos Anos 1990 ela esteve onipresente e sendo garantia de sucesso. Porém, com o passar do tempo, um lado sombrio da lambada se revelou: Plágio, um assassinato cruel e fracassos em todas as novelas em que o ritmo integrou. Um deles ´pode ser visto agora, com a fracassada reexibição de “Rainha da Sucata“, no Vale a Pena Ver de Novo.

O reencontro da lambada com o público contemporâneo, porém, revelou-se menos festivo do que se imaginava. Desde a estreia da reprise, a trama amarga a pior audiência da história recente da faixa vespertina. Reeditada com frequência, numa tentativa de acelerar seu desfecho, a novela deve deixar o ar ainda na primeira quinzena de março. A substituta, segundo estimativas internas, precisará ser um verdadeiro arrasa-quarteirão para recuperar os índices perdidos. “Rainha da Sucata” não conseguiu ultrapassar a marca dos 12 pontos na Grande São Paulo, desempenho bastante inferior ao de sua antecessora, A Viagem (1994), que costumava registrar cerca de 17 pontos no mesmo horário.

Claudia Raia era Adriana em “Rainha da Sucata” (Foto: Reprodução)

O QUE ERA A LAMBADA?

Nos meados dos anos 1980, o gênero começou a circular com mais desenvoltura pela indústria fonográfica. Ainda não era uma avalanche, mas já dava sinais de vitalidade ao aparecer em discos como Aprendizes da Esperança (1985), de Fafá de Belém. Pouco depois, porém, a engrenagem se aceleraria. No fim da década, a melodia já tomava o Brasil com a força típica das modas irresistíveis: rápida, repetitiva e onipresente. Entre 1989 e 1990, a lambada deixara de ser apenas um ritmo popular para se transformar numa febre mundial.

O símbolo máximo desse momento foi “Lambada (Chorando se foi)”, interpretada pelo grupo franco-brasileiro Kaoma. A canção — construída a partir de apropriações musicais pouco esclarecidas e cercada por disputas de autoria — conquistou rádios, pistas de dança e programas de televisão em diversos países. Na televisão brasileira, especialmente nas novelas, o ritmo encontrou um palco privilegiado. Desde pelo menos 1988, lambadas já apareciam nas trilhas sonoras, a ponto de “Bebê a Bordo” ganhar uma trilha complementar inteiramente dedicada ao gênero, a Lambateria Tropical. A lambada não era apenas pano de fundo: fazia parte do vocabulário da trama, circulava nos diálogos, nos figurinos e no clima oitentista que misturava exuberância, ingenuidade e excesso. Em 1990, o gênero alcançaria seu ponto máximo de institucionalização ao embalar a abertura de “Rainha da Sucata”. A novela marcou em definitivo a associação entre lambada e teledramaturgia, repetindo a fórmula da trilha paralela com a Lambateria Sucata.

O auge, no entanto, trouxe consigo um desgaste quase imediato. Poucos anos depois — e, em alguns casos, ainda durante o período de maior sucesso — a lambada começou a acumular polêmicas, controvérsias e uma sequência curiosa de infortúnios. As duas novelas que incorporaram o ritmo de maneira central, “Bebê a Bordo” e “Rainha da Sucata”, enfrentaram dificuldades em reprises contemporâneas, como se a lambada tivesse envelhecido mal ou se tornado indigesta fora de seu contexto original. Já “Gente Fina”, única novela a incluir diretamente o Kaoma em sua trilha sonora, com “Dançando Lambada”, entrou para a história como um dos maiores fracassos da faixa das seis.

Guilherme Leme e Guilherme Fontes foram alçados a protagonistas de “Bebê a Bordo” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

O FRACASSO DAS REPRISES E OS PLÁGIOS

Atualmente em reexibição na faixa da tarde, no Vale a Pena Ver de Novo, “Rainha da Sucata” vive um destino curioso — e pouco glorioso. Escandaloso sucesso em sua exibição original, em 1990, a novela de Silvio de Abreu retornou à programação cercada de expectativa, sustentada tanto pelo estilo histriônico da dramaturgia da época quanto pela memória afetiva associada à lambada, que então dominava rádios, pistas de dança e trilhas sonoras.

“Bebê a Bordo”, outra novela  associada à lambada, passou por situação semelhante anos antes. Reexibida em 2018 pelo então Canal Viva, hoje Globoplay Novelas, a trama teve desempenho tão fraco que, a partir do capítulo 91, os episódios começaram a ser compactados e deslocados para o Viva Play, numa operação de contenção de danos.

Os problemas associados à lambada, no entanto, não se limitam ao campo da recepção televisiva. O maior sucesso mundial do gênero, “Lambada (Chorando se foi)”, lançado em 1989 no álbum Worldbeat, do Kaoma, carrega uma origem marcada por controvérsia. A canção é, na verdade, uma regravação não autorizada da música homônima gravada em 1986 pela cantora brasileira Márcia Ferreira, incluída em seu álbum Recordando Brega. Márcia Ferreira, ao lado de José Ary, foi responsável pela adaptação em português da canção boliviana “Llorando Se Fue”, composta por Ulisses Hermosa e Gonzalo Hermosa, do grupo Los Kjarkas, originalmente lançada em 1981 no álbum Canto a la Mujer de Mi Pueblo.

Os direitos da adaptação pertenciam a Márcia Ferreira, que os obteve diretamente junto aos Los Kjarkas. Ainda assim, a versão que conquistaria o mundo acabaria circulando sem autorização. Uma das versões mais recorrentes sobre o episódio relata que, entre março e abril de 1988, o produtor musical Jean Karakos e seu amigo Olivier Lorsac viajaram a Trancoso, distrito de Porto Seguro, na Bahia, onde tiveram contato direto com a febre da lambada. Levaram o ritmo para a França, onde a música explodiu comercialmente pouco depois, já dissociada de seus autores originais.

O caso foi parar na Justiça francesa. Em um processo movido pela EMI Songs e por Márcia Ferreira, os direitos autorais da cantora foram reconhecidos, e os produtores ligados ao Kaoma foram obrigados a indenizar os verdadeiros autores da canção. A decisão confirmou aquilo que muitos já apontavam: a gravação que embalou o mundo era idêntica à versão registrada anos antes por Márcia Ferreira. Atualmente não há muitos registros sobre a cantora. Seu canal no YouTube possui passagens bíblicas e músicas evangélicas.

A MORTE TRÁGICA

Ainda quando morava em Paris, Loalwa Braz foi chamada a integrar o conjunto a partir de uma seleção. Assumiu os vocais e permaneceu na formação até 1999, quando a banda se separou. Alguns anos depois, em 2003, tentou reorganizar a própria trajetória artística ao iniciar carreira solo com o disco Recomeçar. A música, no entanto, deixou gradualmente de ocupar o centro de sua vida cotidiana.

Em 2012, Loalwa abriu uma pousada em Bacaxá, distrito de Saquarema, no estado do Rio de Janeiro. O empreendimento marcava uma mudança de ritmo: da rotina de turnês e palcos internacionais para uma existência mais discreta, ligada ao turismo local. Foi ali que, em janeiro de 2017, sua história teria um desfecho brutal. Na madrugada de 19 de janeiro, criminosos invadiram a pousada, roubaram cerca de R$ 15 mil e sequestraram a cantora em seu próprio carro. Durante a ação, Loalwa foi violentamente agredida. Quando o veículo apresentou problemas mecânicos, os assaltantes decidiram incendiá-lo. A cantora morreu carbonizada, aos 63 anos.

Loalwa Braz foi barbaramente assassinada, em Saquarema (Foto: Reprodução/Wikimedia)

Wallace de Paula Vieira foi condenado a 37 anos de prisão por roubo seguido de morte  e também por causar o incêndio na pousada em que ela morava. Também foram condenados Gabriel Ferreira dos Santos, a 28 anos de prisão, e Lucas Silva de Lima, a 22 anos, ambos pelo crime de latrocínio. Wallace, ex-funcionário da pousada, foi apontado como o planejador do assalto. Na decisão judicial, consta que os acusados arrombaram a porta do quarto e agrediram a cantora intensamente, “com pauladas, golpes de faca, chutes, socos e enforcando-a, enquanto a vítima pedia socorro”. Segundo o delegado titular da 124ª DP, Leonardo Macharet, afirmou que o ex-funcionário de Loalwa confessou o crime e “não demonstrou nenhum tipo de arrependimento”. Loalwa Braz foi enterrada na cidade da Serra, no Espírito Santo.