*Por Brunna Condini
Em novela, tudo é possível… desde que o público acredite na jornada. Essa é uma das premissas fundamentais da dramaturgia serial: para que a emoção funcione, o enredo precisa oferecer tempo e contexto suficientes para que o espectador se conecte. No entanto, uma solução cada vez mais frequente nas produções é o uso de doenças graves como recurso de impacto rápido: uma virada intensa, mas pouco elaborada, que busca provocar comoção sem dar tempo para construí-la.
Esse pode ser o caso da próxima vivência de Afonso Roitman, interpretado por Humberto Carrão, em ‘Vale Tudo’, novela das nove da Globo. O personagem supostamente será diagnosticado com leucemia mieloide, e em poucos capítulos, já surgirá com a cabeça raspada em cena, em uma tentativa de evocar o gesto simbólico da entrega, do sofrimento, da luta pela vida. A cena, claramente desenhada para emocionar, remete a outras já icônicas da teledramaturgia brasileira, como a de Camila em ‘Laços de Família’ (2000). Mas a questão é: há espaço para comoção verdadeira quando a virada vem antes da conexão emocional?

Afonso em ‘Vale Tudo’, vivido por Humberto Carrão, vai lidar com uma leucemia no meio do caminho (Divulgação/Globo)
Em ‘Laços de Família’, o Brasil parou para assistir à personagem Camila (Carolina Dieckmann) raspando os cabelos ao som de ‘Love by Grace’. A cena foi resultado de uma construção cuidadosa: se desenvolveu ao longo de aproximadamente três meses, entre os capítulos 160 e o final da novela, que teve 209 capítulos, exibidos de junho de 2000 a fevereiro de 2001.
Com Camila, no emblemático folhetim de Manoel Carlos, o público acompanhou os primeiros sintomas, o diagnóstico, o impacto da notícia, o início do tratamento, as internações, os silêncios e o amadurecimento do enredo. Foi o desenvolvimento de um processo emocional completo, tanto para a personagem quanto para quem a assistia. O impacto foi tão real que, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), houve um aumento significativo no número de doações de medula óssea no país.

Carolina Dieckmann como Camila na emblemática cena de ‘Laços de Família’ (Divulgação/Globo)
Vinte e cinco anos depois, a tentativa de provocar a mesma comoção com Afonso, agora no remake de ‘Vale Tudo’, pode ter um desenrolar que soe um tanto apressado, como de outras histórias do folhetim. O personagem, que vinha sofrendo críticas e perdendo o interesse do público, ganha subitamente um diagnóstico grave, e sua trama se transforma em drama urgente, com cenas que prometem ser intensas e com um apelo visual que pode tentar emocionar antes mesmo que a emoção se construa.
Segundo divulgado, quando descobrir a doença e antes mesmo de iniciar o tratamento, Afonso vai pedir à Solange (Alice Wegmann), que a essa altura estará grávida dele (de gêmeos), após uma noite de amor, que raspe sua cabeça, em um gesto simbólico de recomeço. A cena do corte de cabelo, em si, é potente. Provavelmente será escrita para ser comovente. Mas talvez não haja o que sustente sua potência no tempo, se tudo isso realmente se desenvolver em poucos dias. Porque o público mal terá tempo de digerir o diagnóstico, de sentir as consequências, de entender os impactos familiares e existenciais da doença, quando já será convidado a se dilacerar.

Humberto Carrão na pele de Afonso em ‘Vale Tudo’ passará por maus bocados: descoberta de traição, seguida por diagnóstico de doença (Divulgação/Globo)
A dramaturgia brasileira sempre teve força em tratar temas sociais com profundidade. Em ‘Barriga de Aluguel’ (1990) ‘O Clone’ (2001), ‘Páginas da Vida’ (2007) e ‘Amor à Vida’ (2013), todos folhetins da Globo, doenças e dilemas éticos foram pano de fundo para discussões reais, com tempo e espaço para que os personagens evoluíssem. Atualmente, os autores precisam lidar, tanto com a conhecida pressão por audiência, quanto com a pressão por engajamento nas redes sociais, já que é essa dobradinha que mede o sucesso de um produto. Só que tramas envolventes precisam de construção, e isso pode não acontecer na mesma velocidade da demanda de likes e comentários para tornar pop uma produção.
Há quem defenda que Afonso precisava de um novo arco para ganhar protagonismo. E de fato, a leucemia pode ser um caminho legítimo para humanizar o personagem e aprofundar seus laços familiares, especialmente com a chegada de Leonardo (Guilherme Magon), seu irmão e possível doador compatível. Mas seria prudente não transformar o seu sofrimento em um plot twist a ser resolvido em uma semana.

‘Vale Tudo’: há quem defenda que Afonso precisava de um novo arco para ganhar protagonismo (Divulgação/Globo)
A televisão ainda tem o poder de mobilizar corações e consciências. Mas, para isso, precisa confiar no tempo da emoção, aquele que não cabe em reels, nem em resumos. A dor, quando bem contada, é capaz de transformar. Quando mal conduzida, apenas escorrega no sentimentalismo. A leucemia de Afonso ainda pode se tornar um marco dramático da novela, como foi a de Camila. Mas, para isso, é preciso mais do que cenas bonitas: é preciso respeitar o processo. Porque, na ficção, como na vida, a empatia não se impõe: se constrói. Como tudo o que é verdadeiro. Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos.
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