A bruxa está solta na Band! Baixa audiência e saída de talentos revelam mais uma das várias crises do canal


A Band enfrenta mais uma crise profunda, que combina dificuldades financeiras, perda de talentos e baixa audiência. Desde a saída de Fausto Silva, em 2022, a emissora acumula reveses e sucessivas tentativas de reestruturação. Nomes importantes como Fernando Mitre, Otaviano Costa e Joana Treptow deixaram a casa recentemente. A volta do “Show da Fé”, com o missionário R.R. Soares no horário nobre evidencia a busca desesperada por fôlego financeiro, assim como acordo com a Universal.

*por Rodrigo Otávio

A Band atravessa mais uma crise — e, desta vez, os sinais de desgaste não se limitam ao caixa. Há pelo menos três anos, desde a saída de Fausto Silva, o canal vem convivendo com uma sucessão de reveses. A cada tentativa de reestruturação, surge um novo desencaixe, uma perda estratégica ou uma queda de audiência. Nos últimos seis meses, a saída de nomes de peso tornou-se o sintoma mais visível da crise. Em setembro, a emissora perdeu Otaviano Costa, Joana Treptow e Rodrigo Alvarez — três nomes com perfis distintos, mas representativos de uma tentativa recente de oxigenação da grade. No mesmo mês, Fernando Mitre, um dos jornalistas mais respeitados da casa e diretor de jornalismo da Band, anunciou que deixará o cargo em dezembro. Em junho, foi a vez de João Silva e Cátia Fonseca encerrarem seus ciclos.

Galvão Bueno estaria de saída da Band (Foto: Daniela Tovianski/TV Globo)

Um nome capaz de atrair audiência consistente e, sobretudo, anunciantes, Galvão Bueno poderia ter sido esse trunfo. Mas, segundo apurações de bastidores, ele também prepara sua saída para o SBT. Enquanto os rostos se alternam, o quadro financeiro se agrava. Neste ano, voltou à grade um bloco do “Show da Fé”, de R. R. Soares, no horário nobre — expediente que a emissora havia abandonado e que reativou em busca de fôlego financeiro. A medida, no entanto, aprofundou o colapso de audiência. Segundo dados de mercado, a Band dificilmente ultrapassa 1 ponto de média nas principais praças do país. No último domingo, de acordo com fontes do mercado, registrou 0,5 ponto no dia — patamar que a aproxima mais de emissoras regionais do que de redes nacionais.

A decadência atual contrasta com momentos em que a Band foi gigante, ao menos uma alternativa consistente à lógica dominante da televisão brasileira. Em décadas anteriores, o canal se destacou por apostar em contra-programações engenhosas, produtos diferenciados e segmentos de nicho bem definidos. Foi assim com o jornalismo de fôlego, com as novelas “Os Imigrantes” (1981) e “Cara a Cara” (1979), com os debates conduzidos por Silvia Poppovic e, sobretudo, com a construção da marca “o canal do esporte” — uma estratégia que garantiu relevância e prestígio em meio à hegemonia da Globo e ao crescimento de SBT, Manchete e, depois, Record.

Otaviano Costa voltou à Band depois de 20 anos e torna a deixar a emissora (Foto: Divulgação/Band)

Mesmo fenômenos já em declínio, como o Pânico, encontraram ali sobrevida e alguma relevância. Hoje, esse espírito inventivo parece perdido. A rede se acomoda em números baixos com uma naturalidade quase resignada. Em Vitória (ES), por exemplo, a atual afiliada, TV Tribuna, viu seus índices despencarem após trocar o SBT pela Band. Raramente sai do traço, apesar de manter nomes conhecidos do jornalismo local. Em entrevista recente ao site Heloisa Tolipan, o apresentador Wagner Montes Filho, Waguinho, da Band Rio, uma das figuras da emissora, frisou, no entanto, que “essa não é uma preocupação na casa”.

A verdade é que esta não é a primeira vez que a Band se vê em tal situação. Em 2019, rumores de uma intervenção de capital chinês circularam na internet, sugerindo um plano de reestruturação silenciosa — hipótese jamais confirmada. No ano seguinte, mesmo sob o impacto da pandemia, a emissora ensaiou uma recuperação à sua maneira. Em 2022, a contratação de Faustão foi tratada internamente como um gesto de refundação: reproduziu-se boa parte da estrutura que o apresentador tinha na Globo, com estúdios reformados e investimento em produção. Mas a audiência não veio, e o desequilíbrio financeiro se acentuou. O desfecho foi a saída melancólica do apresentador e, com ela, mais uma tentativa frustrada de reinvenção.

Waguinho apresenta “A Voz do Rio”, na Band carioca (Foto: Divulgação)

Hoje, a Band sobrevive com vitórias pontuais. No Rio, por exemplo, algumas transmissões de futebol ou os desfiles da Série Ouro do Carnaval carioca conseguem escapar da irrelevância. Fora isso, fechou acordo com a Igreja Universal para quatro horas de programação na madrugada.

Enquanto isso, a emissora do Morumbi parece ter se habituado ao papel de coadjuvante silenciosa. Não lidera, não disputa de igual para igual, não propõe alternativas criativas. Vive de lampejos. O problema é que, no mercado televisivo atual — fragmentado, competitivo e cada vez mais digital — lampejos não sustentam estruturas.