40 anos do fim da ditadura militar: Como as novelas se colocaram em defesa da democracia durante e depois da censura


Nesta reportagem especial, mergulhamos nos arquivos da censura brasileira, entrevistamos atores, autores e especialistas e consultamos dezenas de periódicos e documentos no Arquivo Nacional para mostrar como as novelas foram centrais na defesa da democracia durante e após a ditadura militar. A investigação revelou que a censura às tramas televisivas durou até 1988 – e ainda houve uma censura pontual em 1993, atingindo mais de 1.400 páginas, 480 capítulos e ao menos três novelas, com cortes que variavam de temas políticos à moral e costumes. A repressão abrangeu desde o veto a casamentos fora da Igreja Católica até o silenciamento de personagens gays ou mulheres independentes. Mais que entretenimento, as novelas se tornaram trincheiras narrativas contra a censura, expondo conflitos sociais, refletindo o espírito do tempo e, por vezes, mobilizando a sociedade na defesa pela democracia

*Reportagem Especial de Heloisa Tolipan e Vítor Antunes

ALERTA DE GATILHO: A reportagem a seguir aborda questões de violência sexual, bem como reproduz termos e expressões em desuso, utilizados para se referir à diversidade sexual, étnica e de gênero. Tais palavras aparecem no contexto original de documentos, roteiros e relatos produzidos entre as décadas de 1960 e 1980, e são mantidas aqui com o objetivo de preservar a fidelidade histórica. 

Durante os anos mais duros da ditadura militar brasileira (1964–1985), a censura institucionalizada não se limitou à perseguição de discursos políticos, canções de protesto ou obras literárias com conteúdo ideológico. A repressão avançou sobre um território menos óbvio, mas de enorme impacto social: a dramaturgia televisiva. As telenovelas, principal expressão da cultura popular brasileira no século XX, tornaram-se alvo prioritário do controle estatal. Muito além de produtos de entretenimento, as novelas eram compreendidas, e temidas, como instrumentos de formação de opinião, capazes de refletir tensões sociais, criticar estruturas de poder e moldar comportamentos coletivos.

Esse potencial mobilizador fez da teledramaturgia um campo sensível, submetido a uma vigilância minuciosa. O controle não era aleatório nem informal: um levantamento inédito do Arquivo Nacional, ao qual o site Heloisa Tolipan teve acesso, apontou a quantidade de páginas e capítulos censurados, o que evidencia o caráter sistemático dessa repressão cultural: pelo menos 483 capítulos e 1.434 páginas. Os registros detalham cortes em diálogos, cenas vetadas em sua totalidade, alterações obrigatórias de enredos e conteúdos. É importante destacar que os dados presentes no levantamento correspondem aos capítulos efetivamente disponíveis nos arquivos – o que impõe ressalvas à sua completude. Há novelas com roteiros incompletos ou com capítulos duplicados, o que explica, por exemplo, o motivo de tramas sabidamente alvo de intensa censura, como “Um Sonho a Mais” (1985), aparecerem com menor destaque num ranking quantitativo.

Patrício Bisso era Olga del Volga em “Um Sonho a Mais”, novela que voltará ao Globoplay na íntegra (Foto: Reprodução)

Além deste documento, o site Heloisa Tolipan se debruçou sobre todos os materiais disponíveis no Arquivo Nacional que tratam do assunto. Vestígios de uma época em que a democracia era um sonho e a arte passava necessariamente pelo crivo da moral e dos costumes idealizados pelo Regime Militar. Mais do que um conjunto de evidências, os documentos revelam os bastidores da criação dramatúrgica sob vigilância, mostrando como autores, diretores e produtores negociavam, driblavam ou sucumbiam às imposições da ditadura.

Afinal, a democracia requer muito mais do que o simples rito eleitoral. Ela exige uma série de condições indispensáveis, muitas das quais estão reunidas sob o conceito de “Estado de Direito”. Isso inclui, entre outros aspectos, a observância rigorosa de um equilíbrio entre os poderes da República, de modo que nenhum deles se sobreponha ou exerça domínio sobre os demais. Também envolve a proteção efetiva de direitos e liberdades fundamentais, como a liberdade de expressão, o direito de ir e vir, a liberdade de crença e religião, o acesso a um julgamento justo e o respeito ao devido processo legal. O Estado de Direito, fundamento essencial da democracia, pode ser resumido como o predomínio da lei: nenhuma autoridade está acima das normas jurídicas ou pode ignorá-las para impor sua vontade pessoal ou seu próprio juízo moral.

Nesta reportagem especial, veremos como as telenovelas tiveram limitadas abordagens sobre temas políticos mais sensíveis, como a reforma agrária, mas também sobre a realização de cerimônias de casamento que não fossem realizadas na Igreja Católica. Uma novela da TV Tupi , “Tic Tac“, inédita, pois que a emissora faliu antes mesmo de a trama ser gravada, não pôde encenar um casamento na umbanda, pois, segundo o Diretório Central de Diversões Públicas (DCDP), “o casamento na umbanda não é reconhecido pelo Código Civil”.

Novela “Tic Tac” daTupi, não chegou a ser exibida e foi censurada: Não poderia exibir cenas de casamento na umbanda” (Foto: Reprodução: Arquivo Nacional)

DAS ÓPERAS DE SABÃO AOS PROBLEMAS SOCIAIS

Tidas como uma simples soap opera nos Estados Unidos – o que o nome já entrega como “ópera de sabão” – ou um folhetim menor na tradição europeia, as telenovelas encontraram, na América Latina, um terreno fértil, complexo e profundamente simbólico. No Brasil, especialmente durante os primeiros anos da ditadura militar, esse formato televisivo passou por uma revolução silenciosa, que o distanciou dos dramalhões afetados e artificiais para abraçar as tensões e contradições do cotidiano. O que se viu foi uma verdadeira ruptura de linguagem. Com os principais dramaturgos do teatro desempregados ou silenciados, muitos deles migraram para a televisão e ajudaram a transformar as novelas em retratos densos e matizados de seu tempo.

As telenovelas brasileiras tornaram-se, assim, produtos do seu zeitgeist – o espírito da época. Em plena transição política, “Eu Prometo “(1983) trazia, ainda que de forma contida, o dilema íntimo de um deputado dividido entre suas obrigações na Câmara e um triângulo amoroso. “Mandala” (1987) causou choque tanto pela insinuação de incesto entre mãe e filho quanto pela forma como abordou, sem filtros e com ousadia, os fantasmas da ditadura logo nos primeiros capítulos. “Vale Tudo” (1988) escancarou a pergunta que ressoa até hoje: “vale a pena ser honesto no Brasil? ”, num momento em que o país tentava aprovar uma nova Constituição. Já “Anos Rebeldes” (1992), ao dramatizar o período entre 1964 e 1979, resgatou a luta contra a ditadura e teria, segundo muitos relatos, inflamado os jovens que logo depois foram às ruas pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. As novelas, portanto, não apenas espelharam a sociedade – foram também catalisadoras de reflexões e, em certos momentos, de mobilização.

Celia Helena e Giulia Gam na primeira fase de “Mandala” (Foto: Bazilio Calazans/TV Globo)

A vigilância aos roteiros, no entanto, ultrapassou os limites cronológicos do regime. Mesmo após o fim formal da ditadura, em 1985, a censura às telenovelas seguiu atuante até a promulgação da Constituição de 1988, quando a liberdade de expressão foi finalmente garantida em caráter amplo. Nos bastidores da teledramaturgia, isso significava que cada capítulo precisava ser submetido previamente aos órgãos censores, com o texto impresso acompanhado da fita gravada, para avaliação e eventual aprovação.

Em tempos de repressão, cada diálogo escrito era também um embate entre a liberdade criativa e os limites impostos pela censura oficial. A crônica da época, então, era disputada palavra por palavra. A censura no Brasil não nasceu com a ditadura militar, embora tenha atingido sua forma mais perversa durante esse regime. A trajetória institucional do controle estatal sobre a informação e a cultura passou por sucessivas reconfigurações ao longo do século XX. Ainda nos anos 1930, durante o governo de Getúlio Vargas (1882-1954), foi criado o Departamento de Propaganda e Difusão Cultural (1934), vinculado ao Ministério da Justiça. Em 1939, no auge do Estado Novo, surgiu o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), diretamente subordinado à Presidência da República, com forte inspiração nos modelos fascistas europeus. No pós-guerra, o controle permaneceu ativo: em 1945, foram instituídos o Departamento Nacional de Informações e, ainda no mesmo ano, o Serviço de Censura de Diversões Públicas.

Francisco Cuoco em “Eu Prometo” (Foto: Divulgação/Globo)

Mas foi sob o Regime Militar que a censura se consolidou como política de Estado. Em 1968 – o mesmo ano do AI-5 – foi criado o Conselho Superior de Censura, com funções recursais. Em 1972, surgiu a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), subordinada ao Departamento de Polícia Federal, que centralizaria todo o aparato de controle sobre espetáculos, teatro, cinema, música e televisão.

Uma das novelas afetadas por essa estrutura já institucionalizada foi “Uma Rosa com Amor” (1972), de Vicente Sesso. Segundo o Documento de Informações 1244/19, de 18 de dezembro daquele ano, enviado pela Agência Central do Serviço Nacional de Informações ao DCDP como material confidencial, houve uma denúncia sobre o conteúdo “pornográfico” da música de abertura da novela. A carta – não assinada – dizia: “A TV Globo está apresentando, no horário das 19h, a novela “Uma Rosa com Amor”, cujo prefixo musical contém as seguintes expressões: ‘é um saco sem tamanho, neste pega pra capar, não dá… não dá…’”. O censor responsável chegou a destacar o trecho, mas, surpreendentemente, liberou-o para gravação. Nos primeiros capítulos, a novela foi exibida com esta música e os primeiros álbuns com a trilha nacional foram vendidos assim. Depois, a dupla Kris e Kristina regravou a canção cantando “um saco sem tamanho nesse velho bafafá”.

Marília Pêra, Paulo Goulart e Leonardo Villar em “Uma Rosa Com Amor” (Foto: Divulgação/Globo)

Rogério Nunes, então diretor da DCDP, chegou a responder à queixa, prometendo correções. No entanto, a cena com o polêmico trecho musical seguiu no ar e, décadas depois, entrou no catálogo do Globoplay sem cortes. A censura da época revelava, assim, um padrão: embora estivesse atenta a qualquer sinal de crítica política ao regime, sua vigilância se voltava sobretudo para aquilo que chamava de “pauta de costumes”. Relações extraconjugais, personagens femininas independentes, críticas à religião e comportamentos considerados desviantes eram frequentemente vetados – ou, ao menos, minuciosamente avaliados – pelos olhos morais do Estado.

OS CONFLITOS DO CASAL ROMÂNTICO 

(…) Quem lhe escreve é uma escritora perplexa e desorientada em face dos cortes que vêm sendo feitos pela Censura Federal nos últimos capítulos da novela “Duas Vidas”. Perplexa e desorientada não apenas pela drástica mutilação da obra que venho realizando (…) Não posso entender, igualmente, o motivo da proibição de outra cena na qual o dono de uma casa de móveis reclama da poeira produzida pelas obras do metrô, que lhe emporcalha os móveis e afugenta a freguesia, quando todos nós sabemos dos transtornos ocasionados por essa obra pública (…)” – Carta de Janete Clair à Censura, 1976

O trecho acima foi extraído de uma carta escrita pela autora Janete Clair (1925-1983) e enviada à Censura Federal durante a exibição da novela “Duas Vidas”, em 1976. Ainda que dissesse não compreender os motivos da censura, Janete já deixava entrever uma das razões que levaram ao corte: a cena censurada criticava diretamente uma grande obra do Governo Federal – a construção do metrô do Rio de Janeiro, que, na época transformava o Centro da cidade num verdadeiro canteiro de obras.

Francisco Cuoco em “Duas Vidas” (foto: Divulgação/Globo)

A importância simbólica e política do metrô era tamanha que chegou a inspirar o título provisório da trama: “O Metrô”. A novela tinha como pano de fundo os impactos da urbanização acelerada e as mudanças sociais provocadas pela construção do sistema metroviário carioca. O metrô era quase um protagonista, ao lado de nomes como Betty Faria, Francisco Cuoco (1933–2025) e Mário Gomes.

Mas “Duas Vidas” não foi a única novela atingida pelos rigores da censura. Janete Clair, mesmo sendo uma das autoras mais populares e respeitadas do país, não podia escrever livremente: todos os seus roteiros precisavam passar pela análise prévia da Censura Federal. Praticamente todas as suas novelas na TV Globo passaram por algum tipo de intervenção – e soma-se a isso o fato de ela ser casada com Dias Gomes, conhecido militante de esquerda e comunista, o que a fazia ser classificava imediatamente da mesma forma. Em uum dos documentos aos quais tivemos acesso, Janete era identificada como “casada com Dias Gomes, esquerdista“.

Janete Clair, esposa de Dias Gomes – esquerdista (Foto: Reprodução/Arquivo Nacional)

Pareceres internos dos órgãos de controle revelam como o julgamento ideológico recaía com força sobre as novelas de maior audiência – especialmente aquelas que ousavam refletir os conflitos da sociedade brasileira. É o caso de “Irmãos Coragem” , “O Cafona“, “Assim na Terra como No Céu” e “O Homem que Deve Morrer”, da TV Globo e “Simplesmente Maria”, da TV Tupi.

A infiltração comunista nos meios de divulgação vem aumentando do maneira gradativa e cada vez maio agressiva – Serviço Nacional de Informações (SNI)/ Ministério da Aeronáutica, 09/6/1971

“Irmãos Coragem” foi acusada de “mostrar a imagem favorável ao adultério e à venalidade da lei”. Já “O Homem que Deve Morrer”, exibida em 1971 e ambientada em Santa Catarina, recebeu um parecer ainda mais extenso: segundo os censores, a novela apresentava mensagens como “luta de classes em uma região carbonífera”, “existência de preconceito racial no Sul do Brasil”, “desagregação da família, mostrada por várias cenas de adultério”, além de “apelo contrário à organização de massa” e uma “anti-religiosidade de massa, no sentido de pôr em dúvida os princípios religiosos do cristianismo”.

Francisco Cuoco foi o Padre Vítor em “Assim na Terra como no Céu” (Foto: Divulgação/Globo)

A rigidez da censura, no entanto, não se limitava às tramas com teor político ou social. A pauta de costumes também orientava os cortes e advertências. Até produções consideradas mais leves ou populares foram alvo da tesoura do regime. Da mesma época que “O Homem que deve Morrer” , foi censurada “Simplesmente Maria”, da TV Tupi, um dramalhão romântico sem maiores pretensões políticas, escrito por Benjamin Cattan (1925-1944) e Benedito Ruy Barbosa, baseado na obra original da argentina Célia Alcântara (1920-2005). Mesmo assim, foi acusada de “fazer a apologia à mãe solteira”.

“O Cafona”, novela de Bráulio Pedroso (1931-1990), também foi alvo de observações. A crítica da censura referia-se ao fato de a trama “procurar mostrar a rebelião da juventude através do ‘happening’” – termo que, à época, simbolizava manifestações culturais espontâneas e irreverentes. A novela satirizava os hábitos da elite carioca, o que a colocava sob suspeita aos olhos do regime.

Já “Assim na Terra como no Céu”, de Dias Gomes, foi enquadrada como “uma obra de posição anti-religiosa”, sem maiores detalhes – o que reforça como a censura era marcada por julgamentos morais e subjetivos, especialmente quando o tema era religião. Quatro anos depois, outra novela do mesmo autor, “Roque Santeiro”, também foi censurada. Com melhor sorte, ganhou um remake dez anos depois, dando origem a uma das novelas de maior sucesso da história da teledramaturgia.

Roque Santeiro” foi, Inicialmente, aprovada, porém com muitas ressalvas naquele meado dos Anos 1970. Em documentos conseguidos junto ao Arquivo Nacional, o censor Rogério Nunes afirmou que “os textos dos capítulos de 1 a 20 da novela, então intitulada “A Fabulosa Estória de Roque Santeiro“, continham “passagens que devem ser suprimidas, levando em conta o horário das apresentações, como também é preciso situar a estória no ano de 1960. (…) Merecem especial cuidado da direção as cenas em que Tito e Linda se encontram deitados (cap. 4 – pag. 7 e 3), bem como as dos beijos entre Roberto e Linda, assistidas pelo marido (cap. 7 –pag. 6-7 e 8)”. É importante considerar que Tito (Luiz Armando Queiroz) era o marido de Linda (Sandra Barsotti) e ela, na novela, interpretava uma atriz. A cena à qual o censor se refere, o beijo entre Linda e Roberto (Dennis Carvalho), fazia parte de um filme, dentro da própria novela, no qual Linda interpretava a personagem principal e Tito era o diretor do longa-metragem.

Betty Faria e Lima Duarte eram Viúva Porcina e Sinhozinho Malta, em 1975 (Foto: Divulgação)

Ainda que sua aprovação questionada, acreditava-se que “Roque Santeiro” seria levada ao ar.
Depois de receber uma nova leva de capítulos, Rogério Nunes considerou “Roque” inadequada para a faixa das 20h, redirecionando-a para maiores de 16 anos, com exibição às 22h “sujeita, ainda, a vários cortes, com o fim de suprimir cenas e situações inconvenientes para apresentações pela televisão”. Além dele, o diretor-geral do SCDP, Moacyr Coelho apontou que a trama não poderia ser exibida às 20h por “ser inadequada para o telelespectador juvenil, quer pelo impacto de cenas e diálogos, quer pela mensagem, quer pelo grau de influência dos personagens, que são revoltados, prostitutas, adúlteros, levianos, aproveitadores, fanáticos, etc. (…) A Divisão de Censura e Diversões Públicas tem instruções no sentido de não mais tolerar cenas que agridam os padrões normais da vida no lar e na sociedade, ou que possam ferir, por qualquer forma, a dignidade ou o interesse nacional”.

A novela já contava com mais de 50 capítulos escritos e mais de 30 gravados. Porém, Dias Gomes, que era monitorado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), confidenciou a um amigo que a novela era a adaptação de “O Berço do Herói“, peça de teatro que, de fato, estava proibida e questionava a religiosidade e a fé católicas ao retratar o processo de beatificação de um jovem escultor de imagens sacras que morre numa batalha contra os cangaceiros que invadiram a cidade.

Daí, não houve negociação ou conversa. A novela acabou vetada em caráter irrevogável. Atualmente, do material original de “Roque Santeiro” (1975) só há disponível, além de algumas cenas e de sua abertura original. O elenco que faria a novela proibida acabou remanejado para “Pecado Capital” (1975), de Janete Clair.

Roque Santeiro foi censurada em definitivo em 1975. Neste documento, os censores apontam não poderem liberá-la como o fizeram com “Gabriela” (Foto: Reprodução/Arquivo Nacional)

Antes de escrever “Pecado Capital” , Janete enfrentou uma dura batalha com a censura por conta de “Fogo Sobre Terra”, exibida entre 1973 e 1974. A autora foi obrigada a rasgar 12 capítulos inteiros da trama, já escritos, devido à intervenção direta dos órgãos de controle do regime. Mais do que cortes pontuais, a censura impôs reescritas estruturais e alterou completamente o destino de personagens centrais. Entre os alvos preferenciais dos censores estava Pedro Azulão, vivido por Juca de Oliveira, personagem que liderava um movimento popular na fictícia cidade de Divinéia, conclamando os moradores a pegarem em armas para se defender. A cena foi considerada subversiva, com potencial para incitar rebelião, e foi vetada. Pressionada, Janete teve que reformular o arco dramático do personagem, escrevendo sua prisão sob a acusação de invasão de domicílio, sequestro e tentativa de homicídio – crimes que, na narrativa original, jamais ocorreriam.

A interferência foi tão grave que até os bastidores registram o seu impacto. No livro “Antes Que Me Esqueçam” (1988), Daniel Filho, diretor da trama – que chegou a ser vetada antes de ser exibida, e foi retalhada enquanto ia ao ar – rememora o episódio: “Até agora não sei porque “Fogo Sobre Terra” foi proibida (…) O Governo não gostou e cassou a produção sem dó nem piedade, talvez por enxergar semelhanças entre a história e a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, que estava em pleno andamento”. A alusão a Itaipu – obra símbolo da modernização autoritária do regime militar – nunca foi confirmada oficialmente, mas circulava como hipótese nos corredores da Globo e entre os integrantes da produção. Segundo um dos diretores da novela, a interferência foi tamanha que o resultado final distanciou-se completamente da proposta inicial.

Essa interferência constante atravessou praticamente toda a trajetória de Janete Clair. Mesmo sendo a autora mais popular da TV brasileira, com audiência inabalável e prestígio junto ao público, ela nunca teve liberdade total de criação. Morreu em 1983, dois anos antes do fim da ditadura militar. Já a censura oficial às obras de ficção foi extinta apenas com a promulgação da Constituição de 1988, que finalmente garantiu, ou tentou garantir em sua letra e espírito, a liberdade de expressão artística.

Francisco Cuoco e Marília Pêra em “o Cafona” (Foto: Divulgação/Globo)

DIVERSIDADE: “SÃO OS PROBLEMAS SEXUAIS DO SEU FILHO”

São os problemas sexuais de seu filho.” A frase, ambígua e cuidadosamente escolhida, tornou-se emblemática da novela “Brilhante” (1981), escrita por Gilberto Braga (1945–2021), e exemplar dos desafios enfrentados por autores de teledramaturgia sob a censura durante a ditadura militar. No contexto da repressão moral da época, não era permitido sequer sugerir que um personagem de novela fosse homossexual. Foi o que ocorreu com Inácio Newman, vivido por Dennis Carvalho: impedido de assumir abertamente sua orientação sexual, o personagem teve sua identidade esvaziada por frases elípticas — como essa, que entrou para o anedotário da censura televisiva brasileira.

Mas o cerceamento não se restringiu à sexualidade masculina. “Brilhante ” também enfrentou forte resistência por abordar temas sensíveis ligados à autonomia feminina, à maternidade e à sexualidade das mulheres. A protagonista Luiza, interpretada por Vera Fischer, foi alvo direto da tesoura dos censores. Um exemplo marcante: sua gravidez foi tratada com tamanha sutileza – e evasão – que o Jornal do Brasil, em 21 de março de 1982, ironizou que a personagem havia engravidado “por intermédio do Espírito Santo”. A insinuação expunha o absurdo da censura, que forçava roteiros a contornar temas biológicos e sociais com alegorias quase religiosas.

Dennis Carvalho e Renata Sorrah eram Leonor e Inácio em “Brilhante” (Foto: Reprodução)

A repressão à temática da gravidez também atingiu a personagem Ciça, vivida por Neuza Caribé. Inicialmente concebida como uma jovem que enfrentaria a maternidade na adolescência, a personagem teve seu arco completamente reescrito. Pressionada pela censura, a trama impôs um casamento precoce entre Ciça e Fred (Caíque Ferreira [1954-1994]), neutralizando qualquer possibilidade de discussão crítica sobre gravidez juvenil fora dos padrões familiares tradicionais. “Mudou a história original que o Gilberto tinha em mente. Tanto que a minha personagem pediu para se separar”, relembrou Neuza Caribé, em entrevista ao site Heloisa Tolipan.

Tínhamos muita raiva da Ditadura. Só fui saber agora, 40 depois, que a minha personagem foi censurada. Víamos o capítulo já editado e nem sempre sabíamos ser por ação da Censura (…) É difícil quando estamos vivendo, perceber que estamos  fazendo história. A gente não tinha ideia e nem imaginava isso. Preocupávamo-nos apenas em fazer um bom trabalho  – Neuza Caribé

No caso da novela “Brilhante” (1981), de Gilberto Braga, os enfrentamentos com a censura não foram imediatos no que diz respeito à sexualidade de Inácio, personagem interpretado por Dennis Carvalho. Em um primeiro momento, o que despertou a atenção da Divisão de Censura de Diversões Públicas foi o comportamento alcoólico do personagem, descrito nos relatórios como “tendência à bebida”. Na sequência, os censores levantaram suspeitas ainda mais graves: interpretaram, com evidente distorção, uma possível atração incestuosa entre Inácio e sua mãe, Chica Newman (Fernanda Montenegro).

Somente mais adiante na trama – entre os capítulos 51 e 53 – os censores reconheceram o que descreveram, com relutância, como uma “leve insinuação de relacionamento homossexual” entre Inácio e Sérgio, vivido por João Paulo Adour (1944–2018). A homossexualidade do personagem, embora ainda tratada de forma velada, torna-se inequívoca no capítulo 72, quando os censores, já pressionados por uma narrativa mais explícita, referem-se ao tema em seus relatórios como “o problema do Inácio”.

A tesoura da censura voltou a agir com vigor nos capítulos 127, 128, 137, 145 e 152, mutilando cenas que aprofundavam a relação do personagem com seus afetos ou que ameaçavam os códigos morais vigentes. Apenas no último capítulo da novela, o 155 – aprovado integralmente, sem cortes -, Inácio pôde, enfim, viver seu amor com liberdade. O desfecho é simbólico: ele deixa o país ao lado de seu companheiro Cláudio, interpretado por Buza Ferraz (1950-2010), num gesto que talvez diga tanto sobre a trama quanto sobre o país que a transmitia.

Dennis Carvalho e Fernanda Montenegro eram filho e mãe em “Brilhante” (Foto: Reprodução)

Se “Brilhante” foi silenciada em suas entrelinhas, “Um Sonho a Mais” (1985), novela de Daniel Más (1944-1989) inspirada na peça Volpone, de Ben Jonson, enfrentou resistências que extrapolaram o campo da censura oficial e envolveram diretamente parte do público mais conservador. Em um Brasil onde a abertura política ainda caminhava a passos lentos, o aparato censório seguia em funcionamento – mas agora recebia reforços civis, vindos da indignação popular de setores reacionários. Documentos obtidos pela reportagem, cartas enviadas por telespectadores à Divisão de Censura pediam, em tom inflamado, a retirada imediata da novela do ar. Os protestos, longe de ponderados, revelavam um moralismo exacerbado, demonstrando que, mesmo em seu ocaso, a ditadura cultivava – e era alimentada por – uma cultura de vigilância social difusa. A censura, naquele contexto, já não era apenas institucional: havia se entranhado no tecido da sociedade.

O episódio envolvendo “Um Sonho a Mais” (1985), de Daniel Más, escancarou o quanto temas relacionados à diversidade sexual e de gênero ainda eram inaceitáveis para os padrões da censura oficial e, em muitos casos, para parte do público conservador. Um dos maiores focos de tensão foi o casamento entre os personagens Anabela Freire, interpretado por Ney Latorraca (1944-2024), e Pedro Ernesto, vivido por Carlos Kroeber (1934-1999). A união fictícia entre dois homens – embora conduzida com ironia e tom farsesco – despertou a ira de telespectadores mais reacionários, como um mineiro que, indignado, dirigiu uma carta à Divisão de Censura de Diversões Públicas exigindo providências.

Essa [novela] desgraçada e devastadora dos bons costumes é um desrespeito aos brasileiros! Prostitutas e homoxessuais [sic], num festival de pornochanchadas, violência, tóxico e falta de educação, violam nossas famílias. Nossas mulheres, dotadas mentalmente igual a crianças, absorvem todas essas imundícies, que são transmitidas aos maridos e aos filhos, causando-os distúrbios psicológicos (…).  Esses desocupados novelistas ficam o ano inteiro preparando mil e uma besteiras, para encher as cabeças dessas pobres mulheres, como em “Um Sonho a Mais”, onde dois ou mais safados homossexuais, beijam-se, apalpam-se e casam-se. Tudo isso à frente das indefesas crianças – Geraldo Francisco Neves, Sub -Tenente Reformado Polícia Militar de Minas Gerais, 1985.

Ney Latorraca em “Um Sonho a Mais” (Foto: Divulgação/Globo)

O censor Coriolano Fagundes respondeu pessoalmente à queixa, assegurando que “oportunamente, providências estão sendo tomadas de forma a erradicar as insinuações de homossexualismo dos programas da televisão brasileira”. Diante da pressão institucional, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então vice-presidente da Globo, tentou argumentar em defesa da autonomia criativa da emissora. Em ofício à Censura, declarou:

Independentemente das finalidades pretendidas pela Instrução, cujas intenções compreendemos, tememos que o documento introduza novamente a censura tácita, sem o exame objetivo das propostas dramatúrgicas ou humorísticas dos autores. A Rede Globo trata todos os telespectadores com respeito humano e não faz a apologia ao transsexualismo, ao homossexualismo ou de qualquer outra preferência sexual [sic], evidentemente sem ignorar a existência desses casos – Boni, em 1985

Apesar da tentativa de mediação, a emissora foi obrigada a ceder. Conforme resposta enviada a Coriolano, Boni garantiu que “soluções estarão evidentes nos próximos capítulos de “Um Sonho a Mais”, especialmente a partir de 10/6/85”. O recuo foi inevitável. Com a interferência da censura, a trama sofreu ajustes bruscos, perdeu fôlego, foi encurtada e não conquistou grande sucesso de público. A novela passou a ser acusada por setores conservadores de promover “exaltação à homossexualidade e à transsexualidade”, conforme registrado nos pareceres censórios da época.

Essa vigilância sobre a representação de identidades dissidentes não se limitava ao conteúdo das histórias, mas se estendia também aos corpos e trajetórias dos intérpretes. Um exemplo paradigmático é o de Cláudia Celeste (1952-2018), atriz e travesti pioneira na televisão brasileira. Sua estreia como atriz de novela ocorreu em “Espelho Mágico” (1977), mas foi interrompida abruptamente quando a Censura Federal descobriu que ela era travesti e detentora do título de “Miss Brasil Gay 1976”. Expulsa da produção, Cláudia voltaria à televisão mais de uma década depois, em “Olho por Olho” (1988), da TV Manchete, onde novamente enfrentaria obstáculos.

Em entrevista publicada pela Revista Manchete, Cláudia revelou: “Eu estava muito bem e de mulher , quando um jornal de Copacabana publicou uma foto minha revelando o meu segredo. Isso repercutiu, eu fui capa da Revista Fatos e Fotos e a Censura veio em cima. Tiveram que sumir com minha personagem”. De fato, Cláudia participou de apenas quatro capítulos. A Gazeta de Notícias chegou a publicar uma manchete que, hoje, seria considerada extremamente ofensiva: “Cláudia (ou melhor, Claudio) enganou todo mundo”. A ironia cruel da manchete ainda ganha contornos mais absurdos ao se saber que o nome de batismo de Cláudia… não era Claudio.

Cláudia Celeste foi a primeira atriz a fazer uma protagonista de novela, na malfadada “Olho no Olho”, da Manchete (1988). (Foto: Reprodução/TV Manchete)

Segundo o autor Lauro César Muniz, declarou para esta reportagem, “(Cláudia) queria ser uma atriz e não ser reconhecida apenas como travesti ou uma caricatura. A mim não chegou que Cláudia tenha sido expulsa da trama por este fato. Mas mantive a personagem como mulher até o fim da sua trajetória na trama”. Rogéria (1943-2017), outra artista travesti de relevância, teve recepção ligeiramente mais tolerante ao participar da novela Tieta (1989) – quando não havia mais Censura -, embora sua personagem ainda estivesse carregada de estereótipos.

A representação de pessoas trans e travestis na teledramaturgia brasileira, por décadas, esteve associada à marginalização, ao estigma e à figura do alívio cômico. Como observa o jornalista e pesquisador Mario Camelo, mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), “a história das pessoas trans e travestis, não somente na teledramaturgia brasileira, é marcada pela marginalização. As personagens trans quase sempre estiveram relacionadas a esse contexto, interpretando prostitutas, dançarinas da noite, e afins, ou no lugar de alívio cômico. Somente a partir de 2012, tornou-se mais habitual ver uma ou duas pessoas trans no elenco das telenovelas, especialmente nos últimos cinco anos”.

O CANTO DA TESOURA

A intensidade da censura durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) não obedecia a um critério único, mas variava conforme o teor temático das obras, o perfil ideológico dos personagens e os contextos sociais e políticos abordados. Como vimos, tramas que exploravam sexualidade, mobilização política, críticas às estruturas de poder ou apresentavam mulheres em posições de autonomia e protagonismo eram sistematicamente monitoradas – e frequentemente silenciadas – pelos censores do Estado. Dois episódios particularmente ilustrativos dessa lógica aparecem em documentos analisados no Arquivo Nacional: o capítulo 129 de “Vereda Tropical” teve 15 trechos censurados, enquanto o capítulo 77 de “Transas e Caretas” sofreu 11 cortes. Ambos os casos revelam a meticulosidade com que os censores operavam, mesmo já nos estertores do regime. A quantidade e o detalhamento dos cortes atestam que o aparato repressivo mantinha vigilância total sobre os produtos de ficção televisiva – especialmente quando estes ousavam tensionar os limites morais ou ideológicos do regime.

Os cortes não poupavam sequer obras com perfil educativo. A novela “A Conquista” (1978), da TVE Brasil – emissora pública voltada à formação crítica e cultural -, foi igualmente alvo de censura. A intervenção não se restringia ao conteúdo nacional: produções estrangeiras também enfrentavam o filtro ideológico. A trama argentina “Amor Cigano”, exibida pelo SBT em 1983, foi fortemente editada, evidenciando que, mesmo obras importadas, ao circularem em território nacional, deviam se adequar aos parâmetros da moral oficial. O mesmo destino teve “Jogo do Amor” (1985), também exibida pelo SBT, mas produzida aqui no Brasil.

Georgia Gomide: atriz do teatro e TV convivia com apenas 10% da visão, motivo pelo qual foi hostilizada por diretor (Foto: CEDOC/TV Globo)

Segundo o inventário publicado pelo Arquivo Nacional, “Transas e Caretas”, “Vereda Tropical” e “Champagne” – de Lauro César Muniz, Carlos Lombardi e Cassiano Gabus Mendes (1929-1993), respectivamente, foram as mais tesouradas, tanto em número de páginas como em número de capítulos – e a lista completa pode ser vista no fim desta reportagem.

Entre as novelas censuradas da Globo no período da ditadura militar no Brasil, há dois títulos que chegaram a ser parcialmente gravados, foram censurados e não puderam ser levados ao ar: “Despedida de Casado” (1977) e “Roque Santeiro” (1975). Ainda que tenham alguns capítulos gravados, estas novelas dificilmente verão a luz do dia ou serão hospedadas no streaming, como o Globoplay. Procurada a falar sobre as tramas censuradas, a plataforma afirmou que “Os projetos Fragmentos [para novelas incompletas] e Resgate [para novelas na íntegra] preveem a publicação de novelas que foram exibidas pela Globo e que têm capítulos preservados no acervo. As duas novelas não estão previstas nos projetos”. Deste modo, segundo a emissora, apenas as obras que foram levadas ao ar, a despeito de seu valor histórico, serão hospedadas no Globoplay.

Em meados da década de 1970, o Brasil ainda não havia legalizado o divórcio, e o casamento era, do ponto de vista do Estado, uma instituição indissolúvel. Foi nesse contexto que a TV Globo preparou “Despedida de Casado”, novela de Walter George Durst, cuja proposta era tratar de relações conjugais em crise – tema explosivo para a censura da época. O projeto foi impedido de ir ao ar mesmo com parte dos capítulos já gravados e mesmo após a aprovação da Lei do Divórcio, em 1977.

Regina Duarte e Antonio Fagundes eram o casal protagonista de “Despedida de Casado”. Novela não foi levada ao ar  (Foto: Reprodução)

A reação do regime não tardou. Segundo Rogério Nunes, então diretor do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), a novela oferecia uma visão “distorcida” do casamento. Em parecer enviado à TV Globo, ele escreveu: “[A novela] explora de forma parcial, apenas os pontos negativos da união matrimonial, projetando para o espectador uma visão pessimista e uma série de mensagens nas quais aponta que o casamento, em geral, transformou-se numa instituição falha, ultrapassada, só mantida nos dias atuais à custa de sacrifícios, e constituindo-se, assim, em insuportável fardo para os casais.”

A argumentação ia além do incômodo com o tom realista e melancólico da trama. Para o censor, a proibição se justificava também por outros conteúdos considerados moralmente inadequados: “Amor livre, infidelidade conjugal, adultério, ódio no seio da família, desrespeito dos filhos pelos pais e por mostrar o casamento como uma instituição falida, ultrapassada e sem condições de se manter dentro da estrutura social de hoje”.

O documento enviado à Globo – e assinado por Nunes – foi praticamente replicado em respostas oficiais a três telespectadores que também haviam denunciado a novela junto ao órgão censor, pedindo sua proibição. “Despedida de Casado” estrearia no início de 1977, substituindo a inovadora “Saramandaia”. Com a produção já em andamento, a emissora apostava em seu lançamento como certo. Cerca de 30 capítulos chegaram a ser gravados, como revelou anos depois a atriz Regina Duarte em entrevista ao Gramma, um jornal cubano. Após a proibição, o elenco já escalado foi reaproveitado em outra produção: “Nina”, exibida ainda em 1977.

Rosamaria Murtinho e Isabela Garcia estariam no elenco de “Despedida de Casado” (Foto: Reprodução/Globo)

A insistência da Globo pela liberação da obra se estendeu até o ano seguinte. Com a aprovação da Lei do Divórcio em 1977, o diretor-geral da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, enviou uma carta ao SCDP tentando reverter a decisão.
Na mensagem, ele argumentava:

“Certos da sua compreensão, porque conhece a fundo as dificuldades que enfrentamos com a comprovada e lamentável carência de bons textos nacionais escritos especialmente para a televisão, vimos consultar V. Sa. sobre a possibilidade de um reexame da telenovela “Despedida de Casado”, de autoria do Sr. Walter G. Durst, uma vez que várias das situações nela existentes praticamente se esvaziaram ou modificaram com a instituição do divórcio no Brasil, em 1978″.

Mas Rogério Nunes foi categórico na recusa: “O divórcio, apresentado como argumento para o pedido, segundo entendemos, não veio para dar guarida à dissolução familiar. Não há possibilidade de reexame da novela”. Ou seja, a legalização do divórcio havia sido uma concessão institucional; já a sua representação como uma realidade social aceitável na ficção era outra questão – ainda controlada à base de pareceres e vetos.

SINAIS DE ALERTA: ECOLOGIA E NEGRITUDE

“Uma novela sobre o direito de viver” – foi assim que a imprensa da época definiu “Sinal de Alerta”, novela escrita por Dias Gomes. A frase não era apenas uma manchete bem escolhida: era uma citação do próprio autor, em um raro gesto de síntese entre criação artística e posicionamento político. Lançada em plena ditadura militar, “Sinal de Alerta” ousava ao trazer para o horário nobre um tema que, à época, ainda era marginal na agenda pública: a defesa do meio ambiente. “Essa é a minha contribuição em defesa do meio ambiente, que é a defesa de uma vida mais humana, voltada para a descoberta do bem-estar do homem (…) Minha novela pretende despertar consciências e discussões”, afirmou Dias Gomes na ocasião. A proposta era ousada: fazer da teledramaturgia um instrumento de reflexão coletiva sobre a ecologia, o consumo urbano e o impacto da industrialização.

Como era de se esperar, enfrentou obstáculos. Palavras como “tóxico” foram vetadas pelos censores, o que inviabilizou um núcleo narrativo voltado à questão das drogas. A simples menção ao termo já era vista como subversiva – mais um sinal da rigidez do controle estatal sobre o conteúdo das novelas. Apesar das restrições, a força temática da obra reverberou para além da ficção. Em Contagem, Minas Gerais, um grupo de padres ambientalistas, inspirados pelos personagens da novela, organizou uma procissão em defesa do meio ambiente. O protesto – raro gesto de religiosidade política nos tempos de chumbo – foi incorporado à trama, e a novela passou a mostrar seus personagens realizando uma passeata ecologista. Essa rara retroalimentação entre realidade e dramaturgia transformou “Sinal de Alerta” em um símbolo de resistência silenciosa.

Protesto da trama acabou incentivando um outro, em Minas Gerais (Foto: Acervo/Globo)

Segundo reportagem publicada no Jornal do Brasil, na época da estreia de “Sinal de Alerta”, Dias Gomes estava afastado das novelas desde 1975, após a censura de “Roque Santeiro” – cujo veto ocorreu já com a produção finalizada. Durante esse hiato, o autor se debruçou por um ano e meio sobre um projeto que abordava a vida da classe média brasileira: a série, intitulada “Os grandes sonhos dos nossos pequenos burgueses”. Em entrevista concedida em 1978, o próprio autor relatou: “A série tem 13 episódios prontos”. O paradeiro dessa obra, no entanto, permanece desconhecido até hoje. Nem a família de Dias Gomes, nem a TV Globo sabem onde está esse material.

O aprofundamento de qualquer tema em novela depende da censura – Dias Gomes, em 1978

No mesmo período, outra produção emblemática também enfrentou os rigores da censura. “O Pulo do Gato”, de 1978, foi exibida em substituição a “Que Rei Sou Eu?”, novela que havia sido planejada para aquele momento, mas acabou vetada antes mesmo de entrar em fase de produção. Existem diversas versões sobre essa encarnação setentista de “Que Rei Sou Eu?”, que viria a fazer grande sucesso mais de uma década depois, em 1989. Uma dessas versões apontava que a trama seria de capa e espada, como de fato se consolidou anos mais tarde. Outra, resgatada em reportagens da época, indicava que a novela teria como pano de fundo os bastidores de uma escola de samba, com protagonismo negro – um ator negro liderando a narrativa e um núcleo negro de destaque. Escrita por Bráulio Pedroso, a novela sequer saiu do papel.

Milton Gonçalves seria um dos protagonistas de “Que Rei Sou Eu?”, mas acabou fazendo “Sinal de Alerta” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Outra vítima da tesoura oficial foi “Espelho Mágico”, também de 1978, assinada por Lauro César Muniz. A novela, uma metalinguagem sobre o fazer televisivo, teve capítulos originalmente pensados com cerca de 40 minutos, mas que foram sistematicamente reduzidos a 25 minutos após sucessivos cortes dos censores. A vigilância ia além do conteúdo explícito: até gírias da época, como “pombas”, foram alvo de proibição por suposta conotação sexual. O autor relembra: “A palavra ‘pombas’ escandalizava o público da classe média dessa época. Era uma forma de dizer ‘porra’, que, claro, é palavrão”.

A personagem de Sonia Braga, que se destacava na trama por seu espírito livre, também chamou a atenção da censura – especialmente por ser uma das que mais dizia a tal expressão. A personagem foi classificada como “uma moça livre demais”, e os censores exigiram ajustes em seu comportamento e falas – um retrato do incômodo que a autonomia feminina causava em um contexto social marcado pelo moralismo e pela vigilância ideológica.

Sônia Braga em “Espelho Mágico” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

A ideia de liberdade feminina sempre foi um tabu para a ditadura militar – e, mais ainda, para seus censores. Até agora, falamos de novelas, obras, produtos culturais. Mas não falamos do corpo. Do corpo como espaço de resistência e, ao mesmo tempo, alvo de violência. Quando a liberdade ameaça ultrapassar o campo simbólico e toca o físico do artista, a repressão se revela ainda mais brutal.

Falamos de como a censura atingiu textos e roteiros, de como novelas foram mutiladas por ousarem defender o direito democrático de existir. Mas, para atrizes como Cláudia Alencar, esse direito não era uma abstração. Era uma urgência. Era carne. Em depoimento concedido a esta reportagem, Cláudia relembra como a violência da ditadura ultrapassou qualquer limite: destruiu não apenas seus direitos democráticos, mas também os mais elementares direitos humanos. “Eu conheci bem a ditadura. Fui torturada, fui estuprada, e foi uma barbaridade o que fizeram comigo. Eu era uma garota. Desenvolvi síndrome do pânico. Eu não podia ficar em um lugar escuro. Se eu ia para o cinema, por exemplo, eu tinha que ver imediatamente a luzinha do banheiro para ficar sossegada. Fiquei 10 anos com pânico, que foi, devagarzinho, terminando”.

Cláudia hoje está produzindo uma peça que trata sobre esse assunto. “Conseguir atuar nesta peça é uma limpeza mesmo, uma libertação. É uma libertação de poder falar e poder, com o personagem, poder falar o que fizeram, o que não fizeram, e poder encenar um espetáculo com um debate sobre isso.”

É fundamental que haja essa discussão sobre a ditadura, ainda mais nesse momento do filme “Ainda Estou Aqui”. E eu acho que a gente não pode se permitir uma ditadura, nem de esquerda, nem de direita, nem de nada. A gente é uma democracia. Ficamos aprisionados durante 21 anos, nos deixando levar pela repressão. Eu passei pelo momento de viver ditadura, de levantar peça de teatro, de a censura proibir peça antes da estreia e a gente perder todo o dinheiro por conta do veto – Claudia Alencar

Claudia Alencar falou de violência que sofreu na ditadura (foto: Vinicius Bertoli)

O FUTURO É O PASSADO?

Mesmo com o fim oficial da ditadura militar em 1985, a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988, a liberdade de expressão no Brasil continuou enfrentando entraves – inclusive na teledramaturgia. Em 1993, quase uma década após o fim do regime, uma nova novela foi censurada. Não mais pelo antigo DCDP (Departamento de Censura de Diversões Públicas), mas por ação direta do ex-presidente Fernando Collor de Mello, então recém-saído do cargo após um traumático processo de impeachment e renúncia em 1992.

A novela em questão, intitulada “O Marajá”, seria exibida pela extinta TV Manchete e tinha como protagonista um personagem claramente inspirado em Collor. A trama o retratava de maneira oposta à imagem que ele sempre buscou cultivar: jovem, carismático e saudável. Na obra, no entanto, todos os escândalos que marcaram seu governo vinham à tona – desde desvios de verbas até um suposto vício em cocaína. O personagem era interpretado por um ator fisicamente muito semelhante ao ex-presidente: Hélcio Magalhães.

Em entrevista concedida a um dos autores desta reportagem, em 2014, o novelista José Louzeiro (1932–2017), revelou que o empresário Adolpho Bloch (1908-1995), fundador da Manchete, foi diretamente coagido por Collor, que usou de sua influência política e jurídica para impedir a exibição da obra. A pressão resultou em uma decisão judicial que proibiu a novela de ir ao ar. As fitas, segundo Louzeiro, foram escondidas por Bloch em local alheio aos arquivos da emissora. “O Marajá” jamais foi transmitida em rede nacional, e com a falência da Manchete em 1999, boa parte do material desapareceu. Hoje, restam apenas dois trechos da obra – que somam pouco mais de 1h20min – disponíveis na internet.

Gravação de “O Marajá”, novela censurada em 1993 (Foto: Luciana Leal/Divulgação/TV Manchete)

O episódio revela que, mesmo após o fim formal da censura institucional, as novelas continuaram a ser alvo de tentativas de silenciamento quando ousavam tocar em feridas ainda abertas da jovem democracia brasileira. O caso de “O Marajá” simboliza essa tensão: a tentativa de a ficção dramatizar e denunciar os excessos do poder foi contida não por censores oficiais, mas pelo próprio poder político que, agora civil, ainda agia à sombra do autoritarismo.

Em meio à noite prolongada da ditadura, quando a censura moldava o que podia ou não ser dito, as telenovelas brasileiras assumiram um papel inesperado, mas decisivo, na defesa da democracia. Coincidentemente – ou não – a maior parte das novelas citadas nesta reportagem não existe mais. Algumas como “O Homem Que Deve Morrer“, “O Cafona“,  e “Assim na Terra Como No Céu“, foram totalmente apagadas. Outras como “Fogo Sobre Terra“, só tiveram seis capítulos preservados – segundo documento publicado pela Universidade Federal de Santa Maria, assinado pelo pesquisador Gabriel Sarturi. Entre as novelas da Tupi, após a sua falência, das tramas citadas “O Profeta” e “Simplesmente Maria“, ambas foram preservadas de maneira desigual, segundo documento liberado sob demanda pelo estudante de Administração Nehuen Matias Gonzalez Alvarez e cedido a esta reportagem. Nele, a Cinemateca Brasileira confirma que há 163 capítulos dos 159 de “O Profeta“, ou seja, além dos capítulos há material extra da trama. Já “Simplesmente Maria só tem 4, dos 315 originais.

Ainda que submetidas ao crivo do Estado, não deixaram de tensionar os limites do permitido, abrindo brechas por onde escapavam críticas sociais, dilemas éticos e a pluralidade de um país silenciado. Ao narrar conflitos de classe, opressões de gênero, disputas familiares e a busca por liberdade, essas tramas contribuíram para manter viva a consciência crítica do público – mesmo quando a política era tabu e o desejo, suspeito. Cada corte imposto pelos censores revelava o que o poder temia: o potencial transformador da ficção. Porque a novela não só entretém – ela educa, provoca, resiste. E, sobretudo, quando os tempos exigem, ela se transforma em palco de luta simbólica, reafirmando, capítulo a capítulo, o direito inalienável à palavra, à memória e à democracia.

Alcides (Quinzinho), foi o robô de “Transas e Caretas”. Uma das novelas que mais sofreu com a censura (Foto: Reprodução/TV Globo)


Novelas Mais Censuradas (Total de Páginas Cortadas)

Fonte: Arquivo Nacional

  1. Transas e Caretas – 198 páginas
    Trama futurista com humor ácido, escrita por Lauro César Muniz e exibida em 1984. Um olhar sarcástico sobre a sociedade brasileira do futuro — algo que os censores talvez preferissem não imaginar.

  2. Vereda Tropical – 170 páginas
    Criada por Carlos Lombardi, a novela trazia uma protagonista “piqueteira” — Silvana, papel de Lucélia Santos — figura vista como provocativa e subversiva sob a ótica da censura.

  3. Champagne – 165 páginas
    Primeira incursão de Cassiano Gabus Mendes no principal horário da TV Globo, a atual faixa das nove. Misturava drama familiar com temas de moralidade duvidosa.

  4. Sol de Verão – 123 páginas
  5. Partido Alto – 112 páginas
  6. Amor Cigano – 88 páginas
    Única novela estrangeira no ranking. Produção argentina exibida pelo SBT em 1983, alvo de forte intervenção mesmo sendo importada.

  7. Amor com Amor se Paga – 70 páginas

  8. Elas por Elas – 65 páginas

  9. Paraíso – 42 páginas
  10. Final Feliz – 52 páginas

  11. Louco Amor – 50 páginas

  12. Um Sonho a Mais – 31 páginas
  13. Guerra dos Sexos – 45 páginas

  14. Água Viva – 42 páginas

  15. Voltei pra Você – 30 páginas
  16. Eu Prometo – 28 páginas

  17. Dancin Days – 26 páginas

  18. O Homem Proibido – 24 páginas

  19. Os Imigrantes – 21 páginas

  20. Eu Prometo – 20 páginas
  21. Sétimo sentido – 14 páginas
  22. Corpo a Corpo – 12 páginas

  23. Jogo da Vida – 6 páginas

  24. Força do Amor – 6 páginas

  25. Jogo do Amor – 2 páginas

  26. Ninho da Serpente – 2 páginas
  27. Pão Pão Beijo Beijo – 2 páginas
  28. A Gata Comeu – 0 páginas

  29. A Conquista – 0 páginas

Sonia Braga e Paulette, no clímax da trama de “Dancin Days”. Novela teve 26 páginas de capítulos censuradas (Foto: Divulgação/TV Globo)

Novelas com Mais Capítulos Censurados

Fonte: Arquivo Nacional

  1. Transas e Caretas – 60 capítulos

  2. Vereda Tropical – 55 capítulos

  3. Champagne – 50 capítulos

  4. Sol de Verão – 45 capítulos
  5. Partido Alto – 41 capítulos
  6. Amor com Amor se Paga – 30 capítulos

  7. Elas por Elas – 28 capítulos

  8. Louco Amor – 25 capítulos

  9. Final Feliz – 22 capítulos

  10. Guerra dos Sexos – 20 capítulos

  11. Paraíso – 20 capítulos
  12. Voltei pra Você – 14 capítulos
  13. Água Viva – 12 capítulos

  14. Um Sonho a Mais – 10 capítulos
  15. Sétimo Sentido – 9 capítulos
  16. Amor Cigano – 9 capítulos

  17. Pão Pão beijo Beijo – 2 capítulos
  18. Ninho da serpente – 1 capítulo

Daniel FIlho era o diretor de “Espelho Mágico” , novela de Lauro César Muniz” (Foto: Divulgação/Globo)