33 anos hoje: “De Corpo e Alma” foi pioneira em abordar troca de bebês, transplante de órgãos e sexo na maturidade


A novela de Gloria Perez completa hoje 33 anos e foi marcada pela tragédia do assassinato de Daniella Perez (1970-1992). Mas é importantíssimo ressaltar o legado da trama, que foi pioneira ao abordar temas como liberdade sexual da mulher madura, transplante de órgãos, troca de bebês e cultura gótica. Explorando dilemas éticos e sociais com profundidade, também evidenciou o machismo e o etarismo ainda presentes na sociedade. A novela influenciou debates importantes sobre doação de órgãos e ganhou destaque pelo impacto real que causou. Neuza Borges foi premiada por sua atuação, e o personagem gótico de Eri Johnson gerou polêmica e fascínio. Quase reprisada nos anos 2000, a obra deve chegar ao Globoplay até 2027

*por Vitor Antunes

Há obras que, embora atravessadas por episódios trágicos, resistem ao tempo pela potência das discussões que propuseram. “De Corpo e Alma“, novela de Gloria Perez exibida em 1992, é um desses casos. Marcada indelevelmente pelo assassinato de atriz Daniella Perez (1970–1992), filha da autora e intérprete da personagem Yasmin, a novela é frequentemente lembrada por essa perda irreparável. No entanto, seu valor artístico e social é enorme. A trama é a primeira incursão solo de Gloria Perez no horário nobre da TV Globo – ela já havia coassinado “Partido Alto” (1984) com Aguinaldo Silva -, e estreou com a ousada proposta de discutir temas que, até então, eram pouco ou nada abordados nas telenovelas brasileiras. Hoje, quando a novela completa 33 anos – estreou em 03/08/1992 -, vale revisitar as camadas mais profundas da trama e lembrar como ela abriu caminhos para debates que, ainda hoje, seguem em pauta.

A obra falava de liberdade sexual da mulher madura, transplantes de coração e órgãos, cultura gótica, espiritualidade e relações afetivas que desafiavam convenções sociais, e tinha uma estrutura assumidamente folhetinesca, com um enredo carregado de paixão, dilemas morais e contrastes entre o luxo e o subúrbio — marca registrada de Glória Perez. A direção, um tanto mais soturna que em outras obras da autora, contribuía para a atmosfera densa da trama. A protagonista Paloma (Cristiana Oliveira, em seu primeiro trabalho na Globo após “Pantanal“), moradora do Méier, dividia espaço com personagens ligados a universos até então pouco explorados na dramaturgia nacional.

“De Corpo e Alma” completa 33 anos e com discussões ainda muito modernas (Foto: Divulgação/Globo)

Entre eles, talvez o mais ousado tenha sido Estela, ricaça vivida por Beatriz Segall (1926-2018). Uma mulher madura, elegante, que frequentava o Clube das Mulheres — espaço de streaptease masculino, inspirado em casas reais que existiam no Brasil nos anos 1980 e 1990. Lá, jovens como Juca (Victor Fasano) e Gino (Guilherme Leme) se apresentavam para um público majoritariamente feminino, desafiando normas sobre desejo, poder e autonomia da mulher – Tanto que o nome inicial da novela era, justamente, “Clube das Mulheres“.

Victor Fasano em cena. “De Corpo e Alma” foi exibida pela SIC, co-produtora da novela (Foto: Reprodução/YouTube)

Estela não apenas frequentava o clube: ela se envolvia afetiva e sexualmente com Juca, homem bem mais novo. Na época, Beatriz Segall tinha 66 anos; Victor Fasano, 34. A diferença de idade causou furor e resistência em parte do público, e esse relacionamento — tratado com dignidade pela trama — foi alvo de debates intensos. Ainda hoje, mais de três décadas depois, o tema continua provocando desconforto em certos setores da sociedade.

Curiosamente, a novela apresentava outro casal com grande diferença de idade: Diogo (Tarcísio Meira, com 57 anos), e Paloma (Cristiana Oliveira, com 29). Na história, ela havia recebido o coração da ex-amante dele, Betina (Bruna Lombardi), por meio de um transplante. O elo quase místico entre os dois dava contornos sobrenaturais à paixão que surgia, e mesmo sendo uma situação ética controversa e muito folhetinesca, o relacionamento foi amplamente aceito pelo público e tratado com naturalidade — ao contrário da relação entre Estela e Juca, que era constantemente questionada.

Essa diferença de reações diz muito sobre os tabus que a novela ajudou a expor. A sociedade brasileira da época (e, em certa medida, a de hoje) ainda via com olhos enviesados a mulher que desejava, que escolhia, que se permitia amar fora dos padrões. “De Corpo e Alma” escancarou esses dilemas, abrindo espaço para o debate sobre o etarismo, o machismo e a autonomia feminina – há 33 anos!

Estela e Juca, personagens de Beatriz Segall e Victor Fasano, em “De Corpo e Alma’ (Foto: Duvulgação/Globo)

Outros desses temas foi a troca de bebês na maternidade. Na ficção, os personagens Bia (Maria Zilda Bethlem) e Caíque (José Mayer), membros de uma família rica, criavam Júnior (Aron Hassan [1982–2007]) acreditando ser seu filho biológico. Mas o menino era, na verdade, filho de Terê (Neuza Borges), que, por sua vez, criava o verdadeiro herdeiro do casal, apelidado de Pinguim (Eduardo Caldas). A história comovente e cheia de nuances emocionais acabou destacando o talento de Neuza Borges, que recebeu o Prêmio APCA de Melhor Atriz pela sua atuação sensível e potente. Tristemente, o ator mirim Aron Hassan, que interpretava Júnior, faleceu em 2007, aos 25 anos, vítima de um câncer de fígado.

Apesar de fazer parte da dramaturgia de 1992, o tema da troca de bebês segue atual. Em 2024, um caso ocorrido em Maceió — em que duas mães descobriram, por teste de DNA, que seus filhos haviam sido trocados na maternidade — ganhou destaque nacional, sendo tema de reportagem no “Fantástico”. Isso demonstra o quanto a novela estava conectada com questões profundas e reais, antecipando, na ficção, dramas que continuariam acontecendo no país.

Neusa Borges em cena. “De Corpo e Alma” falou sobre troca decrianças na maternidade (Foto: Nelson di Rago/Globo)

Outro eixo temático importante de “De Corpo e Alma” foi a abordagem inédita, na época, sobre transplantes e doação de órgãos. Essa escolha narrativa dialogava com um contexto legislativo em transformação. Em 18 de novembro de 1992, poucos meses após a estreia da novela, foi sancionada a Lei nº 8.489, que regulamentava a retirada e o transplante de órgãos e tecidos no Brasil. Até então, o tema era cercado de dúvidas, mitos e resistência social. A repercussão de “De Corpo e Alma” foi tamanha que, na semana de estreia da novela, o Instituto do Coração (Incor), em São Paulo — que estava há dois meses sem receber doações -, registrou a entrada de nove órgãos para transplante. A televisão, nesse caso, não apenas refletiu a sociedade, mas contribuiu para transformá-la. Mais tarde, essa legislação seria substituída pela chamada Lei dos Transplantes (Lei nº 9.434/1997), marco legal que até hoje regula a prática no país. Mas o papel da novela no amadurecimento do debate público sobre o tema foi, sem dúvida, decisivo.

Outro ponto que gerou controvérsia — e também curiosidade — foi a introdução da cultura gótica na trama, representada pelo personagem Reginaldo, vivido por Eri Johnson. Figura caricata e exuberante, Reginaldo virou ícone pop da novela e chegou a estampar a capa da trilha sonora internacional da obra. No entanto, a representação dividiu opiniões.

Góticos da vida real criticaram a maneira, segundo eles, estereotipada como o universo da subcultura foi abordado. Ainda assim, a estética e a presença de Reginaldo ajudaram a trazer visibilidade a um grupo até então invisibilizado na TV aberta. A repercussão foi tamanha que a Revista Manchete publicou uma matéria provocativa com o título: “A senhora gostaria de ter um filho gótico?”, tentando explicar ao grande público quem eram os jovens que se vestiam de preto,  muito além do personagem de Eri Johnson.

José Mayer foi Caíque em “De Corpo e Alma” (Foto: Divulgação/Globo)

Por fim, é interessante lembrar que “De Corpo e Alma” quase foi reprisada. No início dos anos 2000, a TV Globo chegou a solicitar ao Ministério da Justiça a reclassificação indicativa da novela. Em despacho publicado no Diário Oficial de 24 de maio de 2000, a liberação foi concedida, desde que cortes fossem realizados em algumas cenas mais sensuais — consideradas inadequadas para o horário vespertino. A ideia era incluí-la na tradicional “Vale a Pena Ver De Novo”. No entanto, diante da complexidade dos temas e da densidade da obra, a emissora recuou e optou por reprisar “A Próxima Vítima”, de Silvio de Abreu.

Ainda assim, os planos de resgate da novela não foram abandonados. Segundo matéria publicada em 2024 com exclusividade pelo site Heloísa Tolipan, há uma estimativa interna de que “De Corpo e Alma” seja finalmente disponibilizada no Globoplay até 2027, permitindo ao público revisitar – ou conhecer pela primeira vez – uma das novelas mais corajosas e marcantes da teledramaturgia brasileira, fruto do olhar visionário de Glória Perez. Porque algumas histórias merecem, e precisam, ser lembradas por tudo o que trouxeram à tona, e não apenas pela dor que deixaram para trás.