*por Vítor Antunes
Neste 25 de abril, Janete Clair (1925-1983) completaria 100 anos. A autora, que ficou conhecida como a “Unidora de Sonhos”, permanece como um dos nomes mais reverenciados da teledramaturgia brasileira. Detentora de recordes históricos de audiência no então horário nobre da TV Globo — o clássico “horário das oito”, hoje chamado de “horário das nove” — Janete foi consagrada como “Nossa Senhora das Oito”, um título carinhosamente cunhado por Carlos Drummond de Andrade (1902–1987).
Falecida em 1983, Janete partiu enquanto escrevia a novela “Eu Prometo”, deixando uma lacuna profunda e difícil de preencher na dramaturgia nacional. Desde então, a televisão brasileira tentou por diversas vezes revisitar seu legado por meio de remakes. No entanto, nenhuma dessas adaptações conseguiu reproduzir com fidelidade o impacto das versões originais. Apesar da estrutura dramática permanecer, a essência de Janete — sua capacidade de tecer tramas com emoção, suspense, heroísmo e humanidade — parecia sempre escapar pelos dedos dos adaptadores. E daí, os fracassos.
Em 2008, o SBT adquiriu os direitos de 35 obras da autora, incluindo roteiros radiofônicos. No entanto, apenas uma foi adaptada: “Vende-se um Véu de Noiva”, exibida em 2009, inspirada na radionovela homônima dos anos 1950 e na novela “Véu de Noiva” (1969). Ainda assim, o resultado não alcançou o sucesso esperado. Após essa experiência, a emissora decidiu não seguir com novos projetos, considerando que os textos originais exigiriam reformulações profundas para dialogar com o público contemporâneo.
A HBO Max, por sua vez, chegou a anunciar o remake de “Pai Herói” (1979), com adaptação assinada por Renata Dias Gomes, neta de Janete e também roteirista. O projeto, porém, ainda não saiu do papel oficialmente.

Elizabeth Savalla foi Carina em “Pai Herói” (Foto: Divulgação/Globo)
Veja a lista de novelas de Janete Clair que tiveram remakes na TV brasileira:
Irmãos Coragem
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Original: 1970 (TV Globo)
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Remake: 1995 (TV Globo)
Em comemoração aos 30 anos da emissora, a Globo regravou “Irmãos Coragem”, história de três irmãos enfrentando um coronel do sertão. A nova versão, escrita por Marcílio Moraes, não teve o mesmo impacto da original. O diretor Luiz Fernando Carvalho foi substituído por Reynaldo Boury após desentendimentos com Dias Gomes, viúvo de Janete Clair. A versão de 1995, exibida às 18h, não empolgou o público como a poderosa versão das 20h de 1970.

Marcos Winter foi o jogador de futebol Duda, em “Irmãos Coragem” (1995) [Foto: Jorge Baumann/Globo]
Selva de Pedra
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Original: 1972 (TV Globo)
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Remake: 1986 (TV Globo)
Tentando repetir o êxito da primeira versão, a Globo lançou o remake em 1986, com Fernanda Torres no papel principal — uma experiência tão difícil para a atriz que ela declarou jamais querer protagonizar outra novela. A produção foi marcada por polêmicas, inclusive envolvendo insinuações homoafetivas que resultaram na demissão de Walter Avancini. A trama teve problemas de bastidores, várias trocas de direção e uma recepção morna do público, apesar de manter a Globo na liderança do horário.

Fernanda Torres e Tony Ramos em “Selva de Pedra”, 86 (Foto: Nelson di Rago/Globo)
Pecado Capital
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Original: 1975 (TV Globo)
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Remake: 1998 (TV Globo)
A primeira versão foi um sucesso criado às pressas após a censura de “Roque Santeiro”, e se tornou um marco com Francisco Cuoco e Betty Faria. A reinterpretação, adaptada por Glória Perez, sofreu com a mudança de horário — originalmente às 20h, foi exibida às 18h — e conflitos nos bastidores. Cuoco, desta vez, viveu outro personagem, e desentendimentos com Carolina Ferraz impactaram o desenvolvimento do enredo. Apesar da direção de Wolf Maya e a presença de veteranos, a novela não vingou, sendo rejeitada até mesmo pelo canal Viva para reprise.

Pecado Capital, de 1998. Brigas entre Francisco Cuoco e Carolina Ferraz ganharam mais força que a trama, de audiência pífia (Foto: Jorge Baumann/TV Globo)
O Astro
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Original: 1977 (TV Globo)
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Remake: 2011 (TV Globo)
Considerado o remake mais bem-sucedido, a nova versão de “O Astro” foi exibida em formato compacto com 64 capítulos. Superou a meta de audiência e conquistou o Emmy Internacional de Melhor Novela. Adaptada por Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, a produção provou que, com o tom certo e respeito à obra original, era possível atualizar Janete com dignidade.

Rodrigo Lombardi em “O Astro”. Novela de Janete Clair que teve melhor sorte ao ser adaptada (Foto: divulgação/Globo)
Vende-se um Véu de Noiva
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Original: radionovela dos anos 1950 / novela de 1969 (TV Globo)
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Remake: 2009 (SBT)
A única adaptação realizada pelo SBT a partir do pacote adquirido, escrita por Íris Abravanel, não correspondeu às expectativas. Apesar da boa produção e elenco dedicado, a novela obteve apenas médias de 4 a 5 pontos na Grande São Paulo, sendo considerada um fracasso de audiência.

Nando Rodrigues Thais Pacholek em “Vende-se um Véu de Noiva” (Foto: Divulgação/SBT)
Bônus
Duas novelas escritas por outros autores fizeram sucesso utilizando argumentos originais de Janete Clair. A TV Globo, em 1987, produziu “Direito de Amar”, folhetim de Walther Negrão, inspirado no argumento de “A Noiva das Trevas”, uma história desenvolvida por Janete nos anos 1970 e nunca antes levada ao ar. Antes disso, houve também a produção de “Jogo da Vida” (1981), escrita por Sílvio de Abreu, baseada em uma sinopse original de Janete Clair. A novela trouxe para o horário das 19h um tom mais leve e cômico.
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