*por Vítor Antunes
Tocar em um clássico é sempre algo que desperta especulações e, por que não dizer, tensões. A missão é prazerosa, mas também pode ser ingrata. É justamente nessa linha fina que se insere a nova montagem de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, clássico de Jorge Amado (1912–2001), já diversas vezes adaptado para o cinema e o teatro, e que agora chega aos palcos lisboetas. O espetáculo estreia em Portugal sob a direção de Sérgio Modena, com adaptação assinada por Vítor Rocha, realizada com total liberdade concedida pela família do autor baiano. Sobre o projeto e a chegada da peça à Europa, ele adianta: “Estamos podendo falar que, neste ano, a gente terá uma grande estreia. A peça conta com três grandes nomes no elenco: Vítor Hugo, Bruno Cabrerizo e Sofia Ribeiro.”
O autor também relembra como se deu o primeiro contato com os familiares de Jorge Amado e a condução do processo de autorização da obra. Segundo ele, desde o início houve clareza e abertura para a atualização do texto, respeitando sua essência: “Eu lembro que falei: ‘Olha, a única coisa que eu queria entender sobre esses direitos com vocês é o que pode ou não pode fazer’. E a resposta deles foi a de que tratássemos essa obra com muito carinho, mas com liberdade para colocar a nossa cara nessa nova versão, especialmente por ser uma versão que vai estrear em Portugal. Então, já é um olhar que a gente tem que trazer do Brasil, porque quem vai ver não é daqui. Mas o mais importante era conseguir atualizar sem perder a essência. Foi tranquilo também com a família, não teve nenhuma restrição”.
Sinto que existe uma poeira imaginária que esses títulos muito famosos guardam. Tudo que é muito clássico gera muita opinião. As pessoas têm muitas referências do que já foi feito. Então é aquela coisa: se a gente faz algo muito inspirado no que já existe, vão criticar dizendo que copiamos, que é mais do mesmo, que foi óbvio. Ou, se a gente faz algo muito diferente, dizem: ‘Mas por que mexer no que estava ótimo?” – Vítor Rocha

“Dona Flor” vai ser encenada em Portugal (Foto: Divulgação)
Segundo ele, há perdas e cobranças que são inerentes ao processo de adaptação de uma obra literária, especialmente quando se trata da transposição de linguagem do livro para o palco. A necessidade de síntese, as escolhas dramatúrgicas e os limites do formato acabam impondo cortes inevitáveis ao conteúdo original. É a partir dessa consciência que o criador assume um ponto de vista autoral claro sobre o que permanece e o que se transforma na encenação:
“eu fiz escolhas. A gente nunca consegue adaptar, ainda mais um livro do Jorge Amado, na sua totalidade para outro formato. Perde-se muita coisa, a gente sabe disso. Então eu pensei: estou fazendo as escolhas da peça que eu gostaria de assistir. Vou fazer a peça que eu gostaria de ver a partir dessa história. E é isso que eu tenho a oferecer.”
Além dessa montagem, Vítor também está à frente de outros projetos no teatro, entre eles “Donatello” e “O Mágico di Ó”, espetáculo que retorna aos palcos paulistanos para mais uma temporada, impulsionado pela forte resposta do público nas apresentações anteriores. Sobre a recepção mais recente, ele observa: “a nossa última temporada que a gente fez acabou sendo superabraçada, até mais do que as outras”.

Vítor Rocha: “Adaptei a peça de acordo com aquilo que eu sempre quis ver” (Foto: Julio Ararack)
MINEIRIDADE
Ao falar de identidade, o ator reflete sobre o que permanece de Minas Gerais em sua formação pessoal e artística, mesmo sendo alguém de trajetória marcada pela circulação entre diferentes territórios e referências culturais. Nascido em Pouso Alegre, no interior mineiro, e criado em diálogo constante com o interior paulista, ele reconhece uma mistura de influências que moldaram seu olhar e sua maneira de estar no mundo.
“Eu nasci em Pouso Alegre, mas vivi a vida toda em Jacutinga, uma cidade bem pequenininha, já na divisa com o estado de São Paulo, bem no Sul de Minas. Eu percebo mais essa mineiridade misturada com a influência paulista. Ao longo da minha vida, as pessoas até brincavam. Eu me formei em Campinas: morava em Minas, estudava em Campinas, depois me mudei para São Paulo. Muitas vezes falavam: ‘Você só usa o CEP de Minas para dizer que come doce de leite, porque de resto é tudo paulista, é tudo interior de São Paulo’. Mas eu acho que existe ali uma coisa da cultura do interior que junta um pedacinho de Minas com o interior de São Paulo. É algo que não corresponde ao imaginário do paulista urbano, do paulistano. Eu sempre falo que é essa vida um pouco mais rural, essa cultura mais simples no melhor sentido da palavra, da cidade pequena, dos diálogos simples, da cultura muito caseira”.
Para ele, essa identidade se constrói justamente na naturalidade do percurso e na soma de referências absorvidas desde cedo. É a partir dessa vivência ampliada que ele identifica o lugar da mineiridade em sua escrita e na sua visão de mundo:
“A minha mineiridade, dentro disso tudo, aparece muito na prosa, na cadência da escrita, que é muito mineira. Então, de alguma forma, essa mineiridade se expressa ali, mas, mais do que isso, o que fica mais latente é essa coisa de ser do interior. Desde muito cedo, tive contato com expressões e formas de cultura do Brasil inteiro. Cultura do Norte, como o Festival de Parintins, por exemplo, que não são tão presentes para quem não é de lá, mas que, por conta desse trabalho da escola, eu conheci desde cedo. O Nordeste entra muito nesse lugar também. Ainda na escola, fui apresentado muito cedo ao cordel: ler cordel, estudar cordel, praticar, tentar escrever literatura de cordel. Acabei desenvolvendo uma afinidade pela cultura brasileira. É até prepotente dizer isso, porque a cultura brasileira é infinita, mas eu fui estimulado a conhecer um pouco do Norte, do Nordeste, do Sul, do Centro-Oeste, e isso fez de mim ainda mais brasileiro”.
É por isso que eu defendo tanto a presença dessas identidades nos trabalhos, especialmente em peças autorais e musicais originais, que ainda se fazem pouco. Eu sinto que essa é uma forma de espalhar um pouco mais essas expressões, porque o Brasil, sendo um país tão grande, acaba ficando muito dividido. Muitas vezes ficamos presos à cafonice da ideia de uma cultura brasileira de sotaque neutro ou de sotaque paulista – Vítor Rocha
Uma das montagens escritas por Vítor é “Donatello”, espetáculo que aborda o Alzheimer a partir de uma perspectiva sensível e profundamente pessoal. O tema, segundo ele, não surgiu de forma abstrata ou apenas conceitual, mas a partir de uma vivência concreta, que atravessa tanto seu interesse recorrente pela memória quanto uma experiência familiar marcante. Ao falar da origem do projeto, ele contextualiza: “Com relação ao Alzheimer, esse tema surgiu um pouco por tudo isso. Eu acho muito importante falar sobre memória. É um tema que sempre me tocou, pessoalmente. Sempre me interessei por como a memória funciona, como as lembranças são criadas, repetidas e transmitidas. Existe a parte social, desde filmes que falam da memória coletiva até histórias que tratam da memória em um campo mais humano e individual. Mas houve também um episódio específico: eu perdi meu pai em 2023, e ele teve um tumor no cérebro. O avanço do tumor trouxe sequelas muito parecidas com o Alzheimer, como confusão mental, esquecimento, troca de palavras”.
A vivência desse processo, segundo o dramaturgo, deslocou seu olhar para além da doença em si, ampliando a atenção para o impacto emocional sobre quem acompanha de perto o adoecimento. A experiência pessoal se tornou, assim, matéria dramatúrgica e ponto de partida para refletir sobre vínculos, cuidado e afeto: “Eu vivi intensamente essa fase. Mais do que o Alzheimer em si, o que ficou para mim foi esse misto de sentimentos vivido por quem convive com alguém doente. Qualquer doença — Alzheimer, câncer, Parkinson — faz a gente pensar muito. Na dramaturgia, muitas vezes o foco está apenas no drama de quem enfrenta a doença. Vivendo isso na pele, percebi que existe toda uma aventura emocional de quem convive com quem recebe o diagnóstico: os filhos, a esposa, tudo o que se passa na cabeça dessas pessoas. Você lida com culpa, às vezes com felicidade, com a responsabilidade de cuidar de alguém que antes cuidava de você, com a necessidade de animar alguém que tem um tempo de vida limitado. Vivendo tudo isso, eu pensei que era importante falar sobre esse assunto, trazer esse tema, porque talvez mais pessoas se identifiquem com essa vivência do que apenas aquelas que foram diagnosticadas. Foi esse episódio específico, somado a um tema que sempre me encantou, que me levou a isso.”

Vítor Rocha: Um mineiro-brasileiro-plural (Foto: Julio Ararack)
Ao mesmo tempo, Vítor destaca que seu interesse dramatúrgico não se limita à abordagem do Alzheimer, mas também passa por questões ligadas à diversidade, incluindo a temática trans. Para ele, no entanto, esse debate precisa ser conduzido com equilíbrio, evitando que a militância se sobreponha à construção narrativa e à força da história. É a partir dessa perspectiva que ele explicita sua posição artística: “Eu sempre coloquei para mim, enquanto dramaturgo, enquanto produtor, enfim, que eu não gostaria de criar projetos que se defendessem apenas pelas pautas. Eu queria pensar em projetos que existissem e se defendessem enquanto projetos, enquanto histórias que falassem sobre temas e valores humanos inerentes a qualquer pessoa, mas batalhando para que a diversidade estivesse ali presente. Então é isso: nos meus espetáculos, nenhum personagem que está ali — embora a gente tenha tido atores e atrizes pretos, trans, gays, de vários tipos de diversidade, de lugares diferentes do nosso país, com seus sotaques, enfim, toda a diversidade que a gente conseguiu reunir — estava ali para defender o que eles são. Toda a gente é a história, e a simples presença deles ali é o que, para mim, era político dentro dessa história toda, era o que defendia. Uma atriz trans fazendo Mundareu de Mim, que foi a Marina Matei: ela fazia uma personagem mulher, que é o que ela é, uma mulher trans, mas ela não precisava, em nenhum momento, se defender através dessa pauta. E a gente não precisava vender o espetáculo como um espetáculo estrelado por uma mulher trans. Não. Ela era uma atriz, e a presença dela ali já era diversa e significava o suficiente do que a gente estava querendo dizer. Então, eu acho que essa é uma das coisas — e você foi muito certeiro no que falou — que vai muito ao encontro do que eu acredito: como é que a gente traz a diversidade sem querer apontar o dedo na cara de quem talvez não seja tão familiarizado ou a favor disso agora?”
A gente tem que trazer isso não como o nosso diferencial. O diferencial é a história ser boa, o diferencial é a criatividade que a gente vai trazer para esse projeto. A presença dessas pessoas ali só reforça o que elas são, independentemente de quem elas sejam, por conta do talento, por conta do trabalho – Vítor Rocha
Para o artista, o debate contemporâneo sobre diversidade atravessa um momento paradoxal. Ao mesmo tempo em que se impõe como uma pauta cada vez mais urgente e necessária, ele também enfrenta barreiras crescentes de diálogo, marcadas por resistências, ruídos de comunicação e polarizações que dificultam a escuta. É nesse cenário que ele reflete sobre a forma como essas discussões têm sido conduzidas e sobre a necessidade de repensar estratégias de aproximação com públicos ainda pouco familiarizados com o tema – já que a diversidade LGBT é um dos temas de “Nesta Data Querida“, filme que foi escrito e protagonizado por ele: “É impressionante o quanto a gente vive um momento em que cada vez mais é necessário discutir assuntos de diversidade sob os mais variados matizes. E, ao mesmo tempo, tem havido uma grande resistência a qualquer abordagem ou discussão relacionada a isso, por conta de alguns ruídos de comunicação. A gente não fala com as pessoas com quem precisa falar e talvez abrir a cabeça para pensar diferente, batendo o pé, cruzando os braços e dizendo: ‘É assim, tem que ser e nós vamos resistir’. Temos que resistir, mas eu acho que a gente tem que resistir justamente mostrando que a gente precisa estar aqui para além de quem nós somos. Quem nós somos não define onde a gente tem que estar ou não”.

Vítor Rocha preza pelo equilíbrio entre o que deve ser dito e problematizado (foto: Vítor Rocha)
E eu acho que esse é um movimento que, em alguma medida, cansou. Agora está saturado. Ninguém quer mais nada que seja sobre isso, ou, se é sobre isso, não querem bancar, não querem produzir, porque dizem que não tem público, que todo mundo está cansado. Então acho que agora a gente vai dar uma volta e dizer: ‘Olha, não é fazer tudo ser sobre isso, mas é ter isso junto com tudo o que a gente tem que fazer’, que já é trabalho para caramba.” – Vítor Rocha
Ao transitar entre a releitura de um clássico incontornável da literatura brasileira, reflexões sobre identidade, memória e diversidade, e projetos autorais que dialogam diretamente com o tempo presente, Vítor Rocha reafirma uma trajetória guiada menos por fórmulas ou bandeiras isoladas e mais pela força das histórias que escolhe contar. Seja ao levar “Dona Flor e Seus Dois Maridos” aos palcos portugueses, seja ao transformar experiências íntimas em matéria dramatúrgica ou ao defender uma diversidade que se impõe pela presença e pelo talento, o artista aposta na criação como espaço de escuta, complexidade e encontro — um gesto que, no teatro, segue sendo tão político quanto profundamente humano.
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