Teatro & Pensata

‘Treino com garotas de 17 anos e nunca perdi competição’, diz a atriz e campeã de kickboxing Letícia Karneiro

A artista vai contar histórias cômicas de seu casamento com o ator e músico João Marcelo Di Marino na comédia ‘O Primeiro Stand-Up de Casal do Mundo’, que estreia no dia 16 de novembro no Teatro dos Grandes Atores. “Não só na família e entre amigos. Acontece muito de as pessoas me perguntarem se já fui agredida pelo meu marido, como se eu treinasse para me defender dele. É como se uma mulher não pudesse praticar artes marciais porque quer, sem objetivo definido”, afirma a atriz

Publicado em 10/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Há um ano, a vida do casal de atores Letícia Karneiro e João Marcelo Di Marino deu uma guinada de 180 graus. Uma virada daquelas que abalam a realidade como um terremoto e te obrigam a se reinventar praticamente do zero. E tudo começou da maneira mais trivial possível, quando Letícia resolveu treinar kickboxing para ter uma atividade física que não exigisse passar horas e horas em uma academia. “Comecei por hobby. O professor achou que eu tinha capacidade e me botou para competir. Na primeira vez que disputei, ganhei o Campeonato Estadual na minha categoria, musical forms, mais artística, em que me apresento com duas foices”, conta Letícia, com voz animada e aquele sotaque cariocaço da gema. “Com isso, os papéis lá em casa se inverteram, o João passou a acordar cedo para preparar o meu café, arrumar a casa, torcer por mim”.

Essa e muitas outras histórias estão no roteiro da comédia “O Primeiro Stand-Up de Casal do Mundo”, que estreia no dia 16 no Teatro dos Grande Atores, na Barra. No palco, o casal, que se conheceu na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) há nove anos e nunca mais se desgrudou, mostra cenas de seu casamento, entre outras vivências a dois. “Falamos de família, casa, vitórias e fracassos, bastidores do mundo artístico e dos esportes, campeonatos, viagens”, revela a atriz, que também escreveu a peça, com supervisão de texto de Suzana Pires. “Eu e João sempre trabalhamos juntos em teatro, cinema, televisão e dando aulas para crianças. Uma vez encontramos a avó de um aluno numa sex shop e foi hilário”.

Letícia é campeã brasileira de kickboxing feminino na categoria ‘musical forms’ (Foto divulgação)

Letícia jura que situações como essa vivem acontecendo na vida do casal e dão uma agilizada no casamento. “Não tivemos filhos. Nem podemos, temos vidas muito agitadas. De manhã, eu sou atleta, depois do meio-dia tenho meu trabalho artístico de atriz, diretora e escritora. O João também é ator e ainda tem uma banda”, diz a atriz, que é treinada em balé (“Minha mãe me inscreveu na dança e botou meu irmão no judô. Eu babava olhando para ele”), escreve (em 23 de novembro, ela estreia sua peça infantil, sobre uma menina que tem medo de se apresentar em público, no Teatro dos Grandes Atores), dá aulas para atores-mirins e já trabalhou em novelas como a global “Sol Nascente”, de 2017.

O kickboxing veio para abalar as estruturas. Letícia não venceu apenas o Campeonato Estadual: em apenas um ano, ela arrebatou nove troféus. Com uma idade em que a maioria das mulheres (e dos homens também, por que não?) costuma encarar atividades mais convencionais, como ginástica ou musculação, ela foi se interessar justamente por uma arte marcial aos 34 anos. “É incrível, todo mundo me diz que eu devia ter começado quando era menina, com 10 anos, por aí. Sou uma das mais velhas da minha turma, treino com garotas de 17, 18 anos, e nunca perdi uma competição”, ressalta. “A gente não compete por faixa etária, mas sim por modalidade. É com essas meninas muito novas que eu disputo”.

A artista/esportista conta que no começo rolou muito preconceito: “Já tinha notado isso quando eu e o João fomos morar juntos sem ter uma renda fixa, estável. Mas, conforme fomos trabalhando e nos sustentando, ganhamos o respeito das famílias. Com o kickboxing, o preconceito foi em relação à inversão de valores, com o fato de ele cuidar da casa enquanto eu treino e disputo campeonatos”, lamenta. “Não só na família e entre amigos. Acontece muito de as pessoas me perguntarem se já fui agredida pelo meu marido, como se eu treinasse para me defender dele. É como se uma mulher não pudesse praticar artes marciais porque quer, sem objetivo definido”.

Outro sintoma do preconceito: os maridos das colegas de equipe não vão aos campeonatos. “É inacreditável a falta de apoio. As meninas todas vão sozinhas, os maridos simplesmente não aprovam e não torcem por elas. Por outro lado, quando o lutador é homem, a família comparece em peso, mulher, mãe, filhos… O João faz questão de ir a todos os campeonatos. Dizem que ter uma mulher nas artes marciais fragiliza o homem, mas isso é clichê. Eu preciso demais da força dele quando me apresento”, conta, lembrando de uma situação cômica criada por João: “Ele leva um tambor para torcer. Uma vez se empolgou e gritou ‘Vai, Lelê, porra!’. Um dos organizadores correu para avisar que havia uma equipe evangélica no local e ele, imediatamente, bateu o tambor e começou ‘Lelê abençoada! Lelê abençoada!’”, conta Letícia às gargalhadas.

Letícia Karneiro e João Marcelo Di Marino fazem rir contando casos de seu casamento (Foto divulgação)

O esporte, por sinal, inspirou bons momentos de “O Primeiro Stand-Up de Casal do Mundo”. “Quando disputei o Brasileiro, em Sorocaba, dividi um uber com as meninas entre o hotel e o ginásio. Fomos conversando, todas falando ao mesmo tempo, essas coisas. Ganhei o campeonato e, só então, na premiação, soube que o árbitro era o motorista do uber! Ele se apresentou e perguntou se eu me lembrava dele. Lembrava, claro. Na mesma hora pensei nas conversas no carro. Tínhamos reclamado o caminho inteiro da comissão, que era desorganizada…”. Ops!

Voltando ao tema do preconceito, Letícia comenta que não sentiu problema com o pessoal do esporte quando começou a treinar. “Sou uma artista no meio de atletas. Levo um olhar novo para eles, que me acham maluca. Mas eu acho que eles, sim, são os malucos! Imagina, começar a fazer algo às cinco e meia da manhã quando se pode fazer de tarde! Isso é loucura”, brinca. “Falando sério, eles me respeitam muito. Levei amor para os treinos. O mestre me acha doida porque quando chego abraço todo mundo. Eu digo que estou lá pelo amor e só depois pela luta. O pessoal gosta do meu jeito de fazer piadas, também, e costuma dizer que eu entrei para animar o ambiente. Vários já deram parabéns para o João”.

Curiosamente, o mesmo kickboxing que gerou tanto preconceito acabou sendo responsável por uma aura de respeitabilidade totalmente inesperada na vida de Letícia e João: “A gente ia dormir às cinco, cinco e meia da manhã. Hoje, eu acordo às cinco para começar a treinar às seis. Só por conta disso as pessoas me acham mais respeitável”, diz Letícia, rindo. “Eu e o João passamos a ser vistos como um casal adulto, cumpridor de deveres, responsável. Também é preconceito achar que quem dorme tarde é relapso e não quer trabalhar”.

Letícia Karneiro (Foto: Juliana Lopes)

A verdade é que trabalho não assusta a artista. O curta que ela protagonizou para o Concurso Cultural de Cinema Feminino, promovido pela grife Arezzo em parceria com o Instituto Dona de Si, de Suzana Pires, acabou de estrear, dentro do projeto “Mulheres Brasileiras”. A ideia é contar histórias reais de mulheres empoderadas. Letícia estrela “O Homem no Escuro”, de Samira Ramalho, do Piauí, é um dos cinco finalistas do concurso (que também tem as atrizes Lea Garcia, Luana Xavier, Tatá Lopes e Julie Nakayama no páreo). “A ideia é acelerar cinco autoras desconhecidas das cinco regiões do Brasil”, conta Letícia.

Outro momento de trabalho duro vai acontecer no último dia da peça. O espetáculo, que começa às 23h, termina por volta de meia-noite. Depois vem a troca de roupa, a conversa no camarim, a comemoração… Ou seja, a noite se alonga. A questão é que, no dia seguinte, Letícia precisa ativar o lado atleta bem cedo: “Tenho de estar no Parque Olímpico às seis e meia da manhã, pois vou competir no Panamericano! Não sei se vai dar para dormir”, especula.

Então? Na hora de escolher é esporte ou teatro? “Sempre dou preferência ao lado artístico, mas não posso ignorar a atleta. Quando entrei para o kickboxing não foi para extravasar agressividade ou coisa assim. Foi para trabalhar o corpo, uma vez que eu já trabalhava a mente fazendo meditação. Faltava algo para complementar o meu lado guerreiro, o meu lado mais yang. A meditação me levou à arte marcial, tudo se complementa. E isso me ajuda a ser uma artista melhor”.

SERVIÇO

“O Primeiro Stand-Up de Casal do Mundo”

Teatro dos Grande Atores: Av. das Américas 3.555, Barra – 3325-1645

Estreia em 16 de novembro

Sábado, às 23h

R$ 60

60 minutos

16 anos

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