“Torto Arado” estreia no Rio celebrando o Brasil profundo e exaltando ancestralidade e mulheres negras


O musical chega ao Rio de Janeiro após temporadas arrebatadoras em Salvador e São Paulo, com sessões lotadas e crítica entusiasmada. A montagem adapta livremente o premiado romance de Itamar Vieira Junior, trazendo à cena um Brasil profundo e ancestral. Dirigido por Elísio Lopes Junior, o espetáculo aborda temas como racismo, espiritualidade afro-indígena, luta por terra e o protagonismo feminino negro. A trilha sonora original de Jarbas Bittencourt valoriza a música nordestina. O elenco reúne 22 artistas, incluindo Larissa Luz, Bárbara Sut e Lilian Valeska. O espetáculo equilibra lirismo e vigor dramático em uma experiência sensorial. Mais que entretenimento, é um rito de memória e pertencimento. Segundo um dos diretores, Elísio Lopes Junior, “O espetáculo evidencia que não é natural para o brasileiro viver com ódio. Não somos uma nação formada pelo ódio, mesmo que existam casos isolados”

Torto Arado – O Musical ” não apenas encena uma história: ele a entoa, a dança, a incendeia com o sopro quente das ancestralidades vivas. Ao unir palavra, corpo e som em um rito de memória, o espetáculo convida o público a atravessar as paisagens invisibilizadas do Brasil profundo — onde o sagrado e o terreno se entrelaçam, onde a dor pulsa com a mesma força que a esperança. Em cada gesto, em cada canto, em cada silêncio compartilhado no escuro da plateia, reverbera a pergunta essencial: quem somos, afinal, quando ouvimos com o coração aberto as vozes que sempre estiveram entre nós, mas que o país oficial insistiu em calar? Essa é a travessia que Torto Arado propõe — e dela ninguém sai ileso, porque é impossível não se reconhecer, ao menos em parte, nesse espelho lírico e feroz que nos devolve o Brasil que pulsa sob a terra.

Consagrado pelo público brasileiro após temporadas de estreia arrebatadoras em Salvador e São Paulo — com sessões esgotadas e crítica efusiva — Torto Arado – O Musical chega agora ao Teatro Riachuelo, no Rio de Janeiro. A temporada carioca tem início no dia 17 de maio e segue em cartaz até 15 de junho, com 22 apresentações distribuídas de quinta a domingo. Trata-se de uma adaptação teatral livre da obra homônima de Itamar Vieira Junior, romance celebrado internacionalmente e vencedor do Prêmio Leya, que aqui ganha vida em uma proposta estética que conjuga lirismo, vigor épico e densidade poética.

Sob direção de Elísio Lopes Junior, que também assina a dramaturgia ao lado de Aldri Anunciação e Fábio Espírito Santo, o espetáculo mergulha nas camadas mais profundas do sertão baiano, explorando uma narrativa de ancestralidade, resistência e redenção. Em cena, um Brasil que raramente encontra espaço nos palcos tradicionais: questões urgentes como o racismo estrutural, o trabalho análogo à escravidão, a disputa pela terra, a luta por direitos e a força das espiritualidades afro-indígenas se entrelaçam a uma tessitura dramatúrgica que emociona, inquieta e convoca à reflexão.

Mais do que uma transposição cênica de um best-seller, “Torto Arado – O Musical” é o resultado do encontro criativo entre dois artistas baianos de sensibilidade singular — os escritores Itamar Vieira Junior e Elísio Lopes Junior — que, juntos, oferecem ao público uma leitura potente e sensível do Brasil profundo, invisibilizado e plural. “A grande procura por essa montagem revelar uma sede de reconexão com nossas origens, com o Brasil real e histórico”, afirma Elísio. “Sinto que o público está em busca de conhecer sua trajetória, seus territórios de memória e de pertencimento. E o teatro tem sido esse lugar de reencontro”.

Monatgem é baseada em livro de sucesso de Itamar Vieira Junior (Foto: Divulgação)

O diretor destaca ainda um dado revelador sobre a recepção da peça: o equilíbrio quase perfeito entre espectadores que já haviam lido o livro e aqueles que tiveram o primeiro contato com a história por meio da encenação. “Isso nos surpreendeu. Esperávamos que a maior parte da plateia fosse composta por leitores do romance, mas o que vimos foi um público heterogêneo, igualmente impactado, e que ao final sai com o desejo de conhecer ainda mais.”

A espiritualidade, elemento fundante da narrativa de Itamar, encontra eco na encenação e ressoa de forma intensa no espetáculo. “A religiosidade dos personagens é central. Temos, por exemplo, o pai do protagonista como curador — figura análoga a um mestre espiritual, representante da religião Jari, um sincretismo nascido na Chapada Diamantina que mistura referências do catolicismo, do candomblé, da umbanda e do espiritismo. Essa diversidade de expressões da fé é a cara do Brasil. E o público se conecta com isso, independentemente de sua crença pessoal”, conclui Elísio.

O espetáculo evidencia que não é natural para o brasileiro viver com ódio. Não somos uma nação formada pelo ódio, mesmo que existam casos isolados. Quando se conta uma história que aborda a fé de forma ampla, o mais importante não é a religião em si, mas a crença, a conexão com algo maior. Isso cria identificação. Mesmo que inicialmente alguém possa rejeitar ou discriminar os personagens por suas características, ao longo da história, percebe que há um sentimento humano em comum – Elísio Lopes Junior

Na adaptação cênica de “Torto Arado”, o diretor Elísio Lopes Junior lança luz sobre a presença determinante das mulheres negras na construção histórica do Brasil. Para ele, essa atuação vai muito além das contribuições concretas ao cotidiano: é a própria espinha dorsal de uma narrativa ancestral que estrutura e sustenta a identidade nacional. “O espetáculo aborda histórias femininas de forma marcante. O Brasil é um país que se mantém de pé, em grande parte, por causa das mulheres, especialmente as mulheres pretas. É uma saga ancestral, onde as histórias das mulheres do passado influenciam e possibilitam o futuro de outras”.

Elísio Lopes Junior diz: ‘Essa é uma das forças de conexão do espetáculo e reflete muito o que somos no Nordeste” (Foto: Caio Lírio)

Com um elenco robusto composto por 22 profissionais — entre eles, seis músicos e 16 atores de reconhecida trajetória artística — Torto Arado – O Musical se desenrola ao longo de duas horas e vinte minutos, em uma encenação que entrelaça a densidade poética do texto original de Itamar Vieira Junior com o vigor da cultura popular brasileira. A trama gira em torno das irmãs Bibiana e Belonísia, marcadas por um acidente brutal na infância e aprisionadas em condições de trabalho análogo à escravidão numa fazenda do sertão baiano. Na versão teatral, uma personagem inédita ganha protagonismo: a avó Donana, que atua como elo simbólico entre as gerações.

No núcleo principal do elenco, destacam-se três artistas que transitam com desenvoltura entre a música e o teatro. Larissa Luz — cantora e apresentadora reconhecida — dá corpo e voz à combativa Bibiana. Ao seu lado, Bárbara Sut, atriz, cantora e dramaturga, interpreta Belonísia, formando com Larissa a dupla de netas de Donana, papel vivido por Lilian Valeska.

A direção musical leva a assinatura de Jarbas Bittencourt, também responsável pelas composições inéditas que pontuam o espetáculo com ritmos e sonoridades nordestinas. “Torto Arado – O Musical” é, em essência, uma celebração da música popular brasileira, com forte ligação ao cancioneiro sertanejo do interior do Nordeste. Cada personagem ganha vida nas melodias e harmonias concebidas por Bittencourt, num processo de criação profundamente sensorial e interpretativo. “Fazer música para um personagem é aquele momento em que você abre um espaço em você, assim como faz o ator, e se deixa ser outro; deixa que outra voz lhe cante a música que está criando”, completa.

Larissa Luz é uma das atrizes que protagoniza o espetáculo (Foto: Caio Lírio)

Elísio Lopes Junior compartilha suas impressões. “Foram dois meses em cartaz na capital baiana e a sensação de ter estreado “Torto Arado” em Salvador, na Bahia, perto do lugar onde essa história foi concebida e perto das pessoas que entendem esse universo, nos deu uma sensação de pertencimento. A entrada do público foi mais um elemento dentro dessa contação de história e a gente percebeu que “Torto Arado” tem humor, tem dor, tem poesia, e isso tudo extraído do livro a partir do convívio desses personagens em cena. Os personagens de Torto Arado nos ensinam e agora partimos para novos palcos, novas plateias, mantendo a nossa musicalidade, nosso sotaque e a nossa identidade, esperando que o olhar de quem é de fora também consiga captar a poesia dessa aridez, esse humor e essa dor que a narrativa de Itamar Vieira Júnior nos oferece e que conseguimos transpor para o palco com o desejo de mostrar um pouquinho mais para o Brasil quem é o Brasil”, destaca o diretor.

A movimentação cênica, por sua vez, é orquestrada por Zebrinha, diretor e coreógrafo responsável pela Direção de Movimento. Sua criação coreográfica é inspirada no Jarê, expressão religiosa enraizada na Chapada Diamantina, e que impregna toda a dramaturgia da montagem. “O que estou tentando fazer com a estética e o vocabulário do movimento no espetáculo é tornar contemporânea essa visão e apresentar o que há de mais bonito e mais plásticos dentro dos rituais do Jarê”, comenta ele.  A encenação ainda conta com cenografia de Renata Mota, figurinos concebidos por Bettine Silveira e coordenação geral de Fernanda Bezerra — que também assina a idealização do projeto.