Thaís Araújo com H: a história real que poderia virar enredo de filme ou novela e já tem nome de protagonista


Inspirada pela força e representatividade de Taís Araújo — hoje protagonista de ‘Vale Tudo’, no horário nobre —, Thaís Araújo, estudante da Baixada Fluminense, enfrenta o racismo estrutural, a burocracia e o luto pessoal para transformar sua história em potência. Com nome de protagonista e enredo de superação, sua jornada real emociona e inspira como só as grandes novelas conseguem — mas, nesse caso, é a vida que escreve o roteiro, que pode, inclusive, ganhar uma versão audiovisual

Nem atriz, nem personagem. Thaís Araújo — com H — é estudante de Odontologia, tem 30 anos, mora na Baixada Fluminense, e é dona de uma história que poderia muito bem ser trama de novela. Por hora, o que sabemos, é que já tem gente do audiovisual de olho na vida da jovem da periferia do Rio de Janeiro e na sua luta para se tornar cirurgiã-dentista. A coincidência com o nome da atriz Taís Araújo, protagonista do atual folhetim das nove da Globo, ‘Vale Tudo‘, vai além da grafia quase idêntica: é inspiração e referência. Assim como sua xará famosa deu rosto e voz a personagens negras marcantes, a ‘Xica da Silva’ da novela homônima, a Preta de ‘Da Cor do Pecado’, a Helena de ‘Viver a Vida’, e a Verônica de ‘Aruanas’, a Thaís desta história, também protagoniza uma jornada potente de enfrentamento, superação e sonho, digna do horário nobre.

A estudante cresceu alimentando o desejo de ser dentista. Mulher negra, periférica, primeira da família a entrar na universidade, ela carrega nos ombros o peso e o orgulho de abrir caminhos. Filha da empregada doméstica Diana Araújo, e do estoquista José Luiz dos Santos — que morreu tragicamente, atingido por uma bala perdida —, Thaís nasceu e foi criada em Queimados, município cujo nome carrega um passado cruel: ali, escravizados foragidos eram queimados como forma de punição exemplar.

Em 2014, ela ingressou em uma universidade particular para estudar Odontologia, com bolsa de 50% pelo Prouni e o restante financiado pelo FIES — programas fundamentais para a inclusão de estudantes de baixa renda no ensino superior. O último, um fundo estudantil que permite o pagamento após a conclusão do curso. Tudo parecia seguir o roteiro da conquista. Mas a vida, ao contrário da ficção, nem sempre respeita os planos. A permanência da estudante no curso foi marcada por dificuldades financeiras, falta de apoio institucional e desafios de saúde mental que quase a fizeram desistir.

Com jaleco e coragem, Thaís Araújo, a estudante, transforma sua trajetória em símbolo de resistência, inspiração e potência real — nome de protagonista, história de heroína

Com jaleco e coragem, Thaís Araújo, a estudante, transforma sua trajetória em símbolo de resistência, inspiração e potência real — nome de protagonista, história de heroína

Na faculdade, Thaís percebeu logo que os custos com materiais especializados são altíssimos, e os auxílios oferecidos pelo governo não davam conta das exigências específicas do curso. Quando quase tudo parecia ruir, entrou em cena uma figura fundamental que, se o roteiro audiovisual sair do papel, também deve ocupar um lugar nas telas: a fotógrafa e artista visual Claudia Elias — o ponto onde duas narrativas se cruzam, já que ela dava aulas no campus onde Thaís era aluna. Professora conhecida por abraçar causas dos alunos em situação de vulnerabilidade; e ex-integrante do time do Jornal do Brasil, onde, aliás, Heloisa Tolipan brilhou com sua coluna por muitos anos, Claudia enxergou em Thaís sua potência. Escreveu cartas, buscou apoios e conseguiu, em 2015, que uma das maiores empresas de material odontológico para estudantes do país, fizesse uma doação completa de equipamentos. Para estudante, o que ficou do período foram muitos aprendizados e o sentimento de motivação:

Claudia sonhava que um dia eu tivesse uma madrinha com meu lugar de fala. Alguém que entendesse as minhas batalhas e me inspirasse a ser apoio para outras mulheres como eu no futuro – Thaís Araújo

Thaís Araújo, a estudante, segura uma capa do Caderno B do Jornal do Brasil, fotografada por Claudia Elias, com uma de suas inspirações estampada: a atriz Taís Araújo

Thaís Araújo, a estudante, segura uma capa do Caderno B do Jornal do Brasil, fotografada por Claudia Elias, com uma de suas inspirações estampada: a atriz Taís Araújo

Ultrapassado esse obstáculo, a história ainda teria mais um revés: por um erro técnico na comprovação do aditamento semestral do FIES — então um processo burocrático e pouco acessível — Thaís foi desligada do curso. A falta de um simples comprovante de cerca de R$ 50 a tirou da faculdade e a lançou em uma depressão profunda. A pandemia agravou ainda mais a situação. Sua mãe adoeceu, o tempo passou, e o sonho pareceu se dissolver.

“A faculdade anterior até se prontificou a me receber de volta, mas meu corpo não conseguia mais entrar no campus. Tinha crises de ansiedade. Perdi contatos, empregos, concursos…não consegui nem participar da minha própria formatura. Já tinha até feito as fotos da colação. Foi muito doloroso assistir meus colegas se formando pelas redes sociais”, conta Thaís, que ficou quatro anos afastada dos estudos.

"Quero ser apoio para outras mulheres como eu no futuro"

“Quero ser apoio para outras mulheres como eu no futuro”

O que parecia um destino doloroso, mas previsível para tantos jovens periféricos e negros no Brasil — o abandono do sonho às vésperas da formatura — começa agora a tomar contornos de realização: tanto pelo desfecho que se aproxima, uma segunda chance, quanto pela possibilidade concreta da formatura e o início da sonhada vida profissional. Entre jovens de origem periférica, a evasão universitária é uma realidade dura e silenciosa. Segundo o INEP, mais de 50% dos estudantes que abandonam a universidade alegam motivos financeiros ou pessoais. No caso de Thaís, o que faltava não era capacidade — seu rendimento curricular é de 9,4 — mas estrutura, acolhimento e saúde mental. Ela, como tantos outros, teve que suportar a exigência da excelência em meio ao caos.

O retorno só foi possível graças a uma nova instituição, que a acolheu com empatia. E também, mais uma vez, à política pública, que permitiu a renegociação da sua dívida com a universidade através de um programa do governo federal (o Desenrola). Hoje, faltando apenas quatro disciplinas para conquistar o diploma de cirurgiã-dentista, Thaís encara novos desafios financeiros, mas segue firme.

A poucos passos da graduação, sua história, cheia de altos e baixos, representa muito mais do que a busca por um diploma: é a oportunidade concreta de ter instrumentos para reescrever o próprio destino. Porque ‘Vale Tudo‘ só gostamos de ver na ficção e com a Taís Araújo, a estrela da novela, protagonizando. Na vida, na contramão do país do ‘vale tudo’, ver a educação transformando realidades, apesar de todos os revezes, é o que podemos chamar de esperança. E essa história, que torcemos que tenha ainda muitos ‘finais felizes’, antes de ser uma bela inspiração para um roteiro, no cinema ou na TV, é a vida real de Thaís, a estudante. Seu caminho foi traçado com sonho, bolsa, financiamento, resistência. Depois, veio a queda: o sistema falhou, a burocracia venceu, o corpo adoeceu. Mas, como toda heroína que carrega um firme propósito, Thaís atravessou o deserto, refez o percurso, voltou à estrada, e agora luta para cruzar a linha de chegada.

Faltando apenas quatro disciplinas para conquistar o diploma de cirurgiã-dentista, Thaís encara novos desafios financeiros, mas segue firme

Faltando apenas quatro disciplinas para conquistar o diploma de cirurgiã-dentista, Thaís encara novos desafios financeiros, mas segue firme