*Por Brunna Condini
De volta aos palcos, Taís Araújo está em cartaz com seu primeiro monólogo, ‘Mudando de Pele’, no Rio. Em cena com o texto de Amanda Wilkin dirigido por Yara de Novaes, a atriz mergulha em temas como pertencimento, identidade e ruptura de padrões. A montagem é resultado de sua busca por contar histórias diversas e originais sobre o feminino negro. “Estou há anos procurando um texto que fale sobre histórias de mulheres pretas que não passe pela questão da sobrevivência ou da dor. E essa peça é uma reflexão com temas universais”, afirma.
Com o espetáculo, ela reafirma um caminho que cruza criação e consciência, ainda que sem fórmulas rígidas. Esse solo nasce mais como um gesto artístico ou como um posicionamento político inevitável? “Às vezes consigo separar as duas coisas e acho importante separar, porque acredito que não precisam caminhar juntas. Mas também podem andar lado a lado. E essa tem sido a identidade dos meus trabalhos mais autorais. Eles têm o que acredito no mundo. Passam pelo ser político que sou e pelo o que acredito”.
Amo fazer novela, amo verdadeiramente fazer televisão. Não sei quando, mas vou fazer outra novela quando for arrebatada por uma personagem e a história dela – Taís Araújo

Taís Araújo retorna aos palcos com o solo ‘Mudando de Pele’ e vive nova fase autoral entre teatro e o desejo de ser arrebatada por uma nova história na TV (Foto: Pedro Napolinário)
Potência da maturidade
Na trajetória de Mayah, personagem de Taís na peça, uma virada aos 40 surge como libertação, uma chave que, para a atriz, dialoga diretamente com a experiência de muitas mulheres hoje: “Acho, que atualmente, chegar aos 40, é uma libertação, né? É a descoberta de que a gente pode muitas coisas”.
Esse mesmo impulso move a artista fora de cena. Ao encarar seu primeiro monólogo como mais uma ‘primeira vez’ na carreira, ela transforma o ineditismo em motor criativo: “Ah, ele é combustível, né? Gosto de ser desafiada e de me desafiar. É importante esse lugar. E mais do que me desafiar, é poder explorar outros lugares, que naturalmente não me seriam dados. Acho que eu posso criá-los. Isso é fundamental para mim”.
Trabalhei tanto, cheguei até aqui, o que eu quero fazer mais? Não vou ficar esperando. Vou criar – Taís Araújo

“Gosto de explorar outros lugares, que naturalmente não me seriam dados. Acho que eu posso criá-los. Isso é fundamental para mim” (Foto: Pedro Napolinário)
Ao atravessar temas como pertencimento e transformação, o espetáculo também provoca uma reflexão mais ampla sobre o olhar lançado ao mundo, especialmente quando se trata de romper ciclos. E frisa que essa mudança passa por perspectiva: “Esse trabalho fala de uma forma de ver o mundo. E ela é bonita. O mundo pode ser bonito. É aquela frase da Fernanda Torres: ‘a vida presta’. A vida é muito difícil, sim. Muito mais difícil para umas pessoas que para outras. Mas precisamos entender que há beleza na vida. E jogar luz nisso. Porque muda muito a nossa perspectiva, mas não de forma Ingênua. A vida é duríssima, ainda assim, há beleza nela. E a beleza está no outro. Está nos nossos também. A beleza da vida está nas pessoas, na natureza, na nossa relação com o mundo, nas relações de forma geral”.

“O que eu quero fazer mais? Não vou ficar esperando. Vou criar” (Foto: Pedro Napolinário)
Ao olhar para a própria trajetória, de protagonista que abriu caminhos na TV a uma atriz que tem escolhido as histórias que deseja contar, Taís reconhece uma conquista que vem sendo construída ao longo dos anos. “Foi muito tempo para chegar a esse lugar. Isso é de uma liberdade, é bonito. O poder é ter essa liberdade de escolha. Cheguei até aqui e agora estou construindo esse caminho. Isso já vem desde o espetáculo ‘O Topo da Montanha’ (2015-2020), do filme ‘Medida Provisória’ (2022), e até da ‘Caixa de Areia’ (2014), a peça que fiz com o Jô Bilac, muito construindo uma identidade da atriz que eu quero ser”, observa.
Essa autonomia, faz sentir que ser livre para poder construir o que desejo verdadeiramente, artisticamente, tem um valor gigante – Taís Araújo

“Foi muito tempo para chegar a esse lugar. Isso é de uma liberdade. É bonito. O poder é ter essa liberdade de escolha” (Foto: Fernando Thomaz)
Nos atravessamentos entre vida e arte, ela destaca que o movimento de ‘mudar de pele’ é uma experiência profundamente humana e recorrente em sua própria trajetória: “Quando li essa peça, pensei: ‘Nossa, me identifico tanto, já passei por esse processo de ou não caber mais em um lugar, ou de estar em um lugar que sonhava estar, olhar e falar: “Talvez não seja mais assim nesse modelo que quero”. Já senti a necessidade de ‘mudar de pele’ algumas vezes. Quando a gente muda de ideia, já estamos ‘mudando de pele’, porque muda a perspectiva”
E é justamente desse impulso de transformação que nasce também o desejo de seguir ampliando narrativas. Ao olhar para o futuro, a atriz reforça uma busca contínua por histórias que ainda não ganharam espaço: “A pesquisa é essa. Quero contar muitas histórias de mulheres que já passaram por aqui, de mulheres que não passaram, histórias que a gente pode inventar, mas sempre com a nossa identidade”.
Novas narrativas
A criação de ‘Mudando de Pele’ nasce desse impulso ativo de Taís em não apenas reconhecer lacunas, mas agir sobre elas. E mais do que a falta de espaço ou de escuta, o que é a urgência de fazer. “Me inquieta saber que hoje essas histórias podem ser contadas. Então, vamos produzir, vamos falar tudo que foi silenciado, vamos criar novas narrativas. Tudo o que não podíamos fazer, agora a gente pode. É o momento, vambora!”.
Esse movimento se desdobra em uma pesquisa extensa por dramaturgias de mulheres negras, conduzida como um gesto de construção e visibilidade: “O que mais me emocionou nesse processo de escolha dos textos para o solo, foi ver que temos muita coisa boa pra ser contada”. E convoca:
Se o mercado não evidencia, temos que fazer acontecer. Estou muito neste momento da seta que vai pra frente. Isso é o que vai levar a gente adiante – Taís Araújo

Taís Araújo na estreia de ‘Mudando de Pele’ (Foto: Reprodução/Instagram)
Solo coletivo
Em cena, ela encarna Mayah, uma mulher à beira dos 40 anos, que rompe com estruturas que já não a sustentam e inicia uma jornada de autoconhecimento, guiada por encontros femininos, percurso que também se revela no figurino de Teresa Nabuco, construído em camadas que acompanham sua transformação. O espetáculo se define como um “solo coletivo”, já que, no palco, a atriz contracena com duas musicistas: Dani Nega, que assina a direção musical, e Layla, responsável por executar ao vivo instrumentos como a kora africana, uma harpa pouco difundida no Brasil, mas tradicional na África Ocidental.
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