Taís Araújo faz primeiro solo no teatro, fala de liberdade criativa, novas narrativas e desejo de voltar às novelas


Em cartaz no Rio de Janeiro com ‘Mudando de Pele’, seu primeiro monólogo, a atriz mergulha em temas como identidade, pertencimento, ruptura de padrões e transformação ao dar vida a uma mulher em travessia aos 40; Taís reflete sobre autonomia e liberdade criativa na construção de narrativas autorais, defende a urgência de ampliar histórias de mulheres negras para além da dor e afirma que pretende voltar à TV: “Amo fazer novela, amo verdadeiramente fazer televisão. Não sei quando, mas vou fazer outra novela quando for arrebatada por uma personagem e a história dela”

*Por Brunna Condini

De volta aos palcos, Taís Araújo está em cartaz com seu primeiro monólogo, ‘Mudando de Pele’, no Rio. Em cena com o texto de Amanda Wilkin dirigido por Yara de Novaes, a atriz mergulha em temas como pertencimento, identidade e ruptura de padrões. A montagem é resultado de sua busca por contar histórias diversas e originais sobre o feminino negro. “Estou há anos procurando um texto que fale sobre histórias de mulheres pretas que não passe pela questão da sobrevivência ou da dor. E essa peça é uma reflexão com temas universais”, afirma.

Com o espetáculo, ela reafirma um caminho que cruza criação e consciência, ainda que sem fórmulas rígidas. Esse solo nasce mais como um gesto artístico ou como um posicionamento político inevitável? “Às vezes consigo separar as duas coisas e acho importante separar, porque acredito que não precisam caminhar juntas. Mas também podem andar lado a lado. E essa tem sido a identidade dos meus trabalhos mais autorais. Eles têm o que acredito no mundo. Passam pelo ser político que sou e pelo o que acredito”.

Aos 47 anos, sendo 33 dedicados ao ofício, grande parte à teledramaturgia; Taís mantém o desejo de continuar se desafiando também na TV. Apesar da atual imersão no teatro, a atriz não descarta um novo trabalho em novelas: sua última e elogiada performance foi na pele da resiliente Raquel no controverso remake de Vale Tudo (2025).

Amo fazer novela, amo verdadeiramente fazer televisão. Não sei quando, mas vou fazer outra novela quando for arrebatada por uma personagem e a história dela – Taís Araújo

Taís Araújo retorna aos palcos com o solo 'Mudando de Pele' e vive nova fase autoral entre teatro e o desejo de ser arrebatada por uma nova história na TV (Foto: Pedro Napolinário)

Taís Araújo retorna aos palcos com o solo ‘Mudando de Pele’ e vive nova fase autoral entre teatro e o desejo de ser arrebatada por uma nova história na TV (Foto: Pedro Napolinário)

Potência da maturidade 

Na trajetória de Mayah, personagem de Taís na peça, uma virada aos 40 surge como libertação, uma chave que, para a atriz, dialoga diretamente com a experiência de muitas mulheres hoje: “Acho, que atualmente, chegar aos 40, é uma libertação, né? É a descoberta de que a gente pode muitas coisas”.

Esse mesmo impulso move a artista fora de cena. Ao encarar seu primeiro monólogo como mais uma ‘primeira vez’ na carreira, ela transforma o ineditismo em motor criativo: “Ah, ele é combustível, né? Gosto de ser desafiada e de me desafiar. É importante esse lugar. E mais do que me desafiar, é poder explorar outros lugares, que naturalmente não me seriam dados. Acho que eu posso criá-los. Isso é fundamental para mim”.

Trabalhei tanto, cheguei até aqui, o que eu quero fazer mais? Não vou ficar esperando. Vou criar – Taís Araújo

"Gosto de explorar outros lugares, que naturalmente não me seriam dados. Acho que eu posso criá-los. Isso é fundamental para mim" (Foto: Pedro Napolinário)

“Gosto de explorar outros lugares, que naturalmente não me seriam dados. Acho que eu posso criá-los. Isso é fundamental para mim” (Foto: Pedro Napolinário)

Ao atravessar temas como pertencimento e transformação, o espetáculo também provoca uma reflexão mais ampla sobre o olhar lançado ao mundo, especialmente quando se trata de romper ciclos. E frisa que essa mudança passa por perspectiva: “Esse trabalho fala de uma forma de ver o mundo. E ela é bonita. O mundo pode ser bonito. É aquela frase da Fernanda Torres: ‘a vida presta’. A vida é muito difícil, sim. Muito mais difícil para umas pessoas que para outras. Mas precisamos entender que há beleza na vida. E jogar luz nisso. Porque muda muito a nossa perspectiva, mas não de forma Ingênua. A vida é duríssima, ainda assim, há beleza nela. E a beleza está no outro. Está nos nossos também. A beleza da vida está nas pessoas, na natureza, na nossa relação com o mundo, nas relações de forma geral”.

"O que eu quero fazer mais? Não vou ficar esperando. Vou criar" (Foto: Pedro Napolinário)

“O que eu quero fazer mais? Não vou ficar esperando. Vou criar” (Foto: Pedro Napolinário)

Ao olhar para a própria trajetória, de protagonista que abriu caminhos na TV a uma atriz que tem escolhido as histórias que deseja contar, Taís reconhece uma conquista que vem sendo construída ao longo dos anos. “Foi muito tempo para chegar a esse lugar. Isso é de uma liberdade, é bonito. O poder é ter essa liberdade de escolha. Cheguei até aqui e agora estou construindo esse caminho. Isso já vem desde o espetáculo ‘O Topo da Montanha’ (2015-2020), do filme ‘Medida Provisória’ (2022), e até da ‘Caixa de Areia’ (2014), a peça que fiz com o Jô Bilac, muito construindo uma identidade da atriz que eu quero ser”, observa.

Essa autonomia, faz sentir que ser livre para poder construir o que desejo verdadeiramente, artisticamente, tem um valor gigante – Taís Araújo

“Foi muito tempo para chegar a esse lugar. Isso é de uma liberdade. É bonito. O poder é ter essa liberdade de escolha" (Foto: Fernando Thomaz)

“Foi muito tempo para chegar a esse lugar. Isso é de uma liberdade. É bonito. O poder é ter essa liberdade de escolha” (Foto: Fernando Thomaz)

Nos atravessamentos entre vida e arte, ela destaca que o movimento de ‘mudar de pele’ é uma experiência profundamente humana e recorrente em sua própria trajetória: “Quando li essa peça, pensei: ‘Nossa, me identifico tanto, já passei por esse processo de ou não caber mais em um lugar, ou de estar em um lugar que sonhava estar, olhar e falar: “Talvez não seja mais assim nesse modelo que quero”. Já senti a necessidade de ‘mudar de pele’ algumas vezes. Quando a gente muda de ideia, já estamos ‘mudando de pele’, porque muda a perspectiva”

E é justamente desse impulso de transformação que nasce também o desejo de seguir ampliando narrativas. Ao olhar para o futuro, a atriz reforça uma busca contínua por histórias que ainda não ganharam espaço: “A pesquisa é essa. Quero contar muitas histórias de mulheres que já passaram por aqui, de mulheres que não passaram, histórias que a gente pode inventar, mas sempre com a nossa identidade”.

Novas narrativas 

A criação de ‘Mudando de Pele’ nasce desse impulso ativo de Taís em não apenas reconhecer lacunas, mas agir sobre elas. E mais do que a falta de espaço ou de escuta, o que é a urgência de fazer. “Me inquieta saber que hoje essas histórias podem ser contadas. Então, vamos produzir, vamos falar tudo que foi silenciado, vamos criar novas narrativas. Tudo o que não podíamos fazer, agora a gente pode. É o momento, vambora!”.

Esse movimento se desdobra em uma pesquisa extensa por dramaturgias de mulheres negras, conduzida como um gesto de construção e visibilidade: “O que mais me emocionou nesse processo de escolha dos textos para o solo, foi ver que temos muita coisa boa pra ser contada”. E convoca:

Se o mercado não evidencia, temos que fazer acontecer. Estou muito neste momento da seta que vai pra frente. Isso é o que vai levar a gente adiante – Taís Araújo

Taís Araújo na estreia de 'Mudando de Pele' (Foto: Reprodução/Instagram)

Taís Araújo na estreia de ‘Mudando de Pele’ (Foto: Reprodução/Instagram)

Solo coletivo

Em cena, ela encarna Mayah, uma mulher à beira dos 40 anos, que rompe com estruturas que já não a sustentam e inicia uma jornada de autoconhecimento, guiada por encontros femininos, percurso que também se revela no figurino de Teresa Nabuco, construído em camadas que acompanham sua transformação. O espetáculo se define como um “solo coletivo”, já que, no palco, a atriz contracena com duas musicistas: Dani Nega, que assina a direção musical, e Layla, responsável por executar ao vivo instrumentos como a kora africana, uma harpa pouco difundida no Brasil, mas tradicional na África Ocidental.

“Tenho duas multiartistas comigo. A condução da história, sim, é feita 100% pela minha personagem. É um solo coletivo, não só porque não estou sozinha em cena, mas porque foi construído por muitas mãos, obviamente com a Yara como nossa maestrina. Foi uma construção quase utópica, muito horizontal. Fomos conduzidas com muita amorosidade, respeito por nós e por tudo o que acreditávamos”.

"Se o mercado não evidencia, temos que fazer acontecer. Estou muito neste momento da seta que vai pra frente. Isso é o que a gente vai levar adiante" (Foto: Fernando Thomaz)

“Se o mercado não evidencia, temos que fazer acontecer. Estou muito neste momento da seta que vai pra frente. Isso é o que a gente vai levar adiante” (Foto: Fernando Thomaz)