Susana Vieira faz do humor ato de resistência e prova que envelhecer é continuar: com voz, afeto e fúria


No especial ‘Falas da Vida’, da TV Globo, Susana Vieira reafirmou a vitalidade e a coragem de quem não aceita o apagamento. Com humor, lucidez e uma presença que atravessa gerações, a atriz transforma o envelhecer em gesto de liberdade, desarma preconceitos com ironia e prova que o tempo, longe de ser limite, pode ser reinvenção, continuidade e potência

*Por Brunna Condini

“Acho que o humor talvez seja uma maneira de me manter viva. Minha cabeça sempre está trabalhando. Eu não dei mole para a vida, eu estou sempre ativa!”, disse Susana Vieira no especial ‘Falas da Vida’, exibido pela TV Globo. E, de fato, há algo de insurgente nessa fala. De caso pensado ou não, entre a gargalhada e a reflexão, Susana transformou o ato de envelhecer em um gesto de afirmação, uma forma de existir com voz própria, contrariando quem espera silêncio ou recato do tempo. Há décadas, ela se recusa a caber nas gavetas sociais da idade, prefere rir delas.

Aos 83 anos, Susana não reivindica o título de ‘inspiração’, tampouco almeja a ‘juventude eterna’. O que ela propõe é mais simples e mais natural: envelhecer é continuar. Aliás, o especial ‘Falas da Vida’ nasce justamente desse princípio, não como um programa nichado sobre a ‘melhor idade’, mas como uma manifestação bem-humorada contra o apagamento. Ao lado de Luiz Fernando Guimarães, a atriz conduziu a atração com ironia, afeto e a mesma energia de quem ainda tem muito a viver. “O programa quer dar às pessoas o direito de envelhecerem da maneira que elas quiserem e não colocar ninguém em nenhuma caixinha”, sintetiza. É sobre isso: o direito de existir fora das molduras.

Luiz Fernando Guimarães e Susana Vieira no especial 'Falas da Vida' (Foto: Divulgação/Globo)

Luiz Fernando Guimarães e Susana Vieira no especial ‘Falas da Vida’ (Foto: Divulgação/Globo)

Há quem veja em Susana um exagero. Talvez seja o preço de quem nunca aceitou a contenção. Ela sabe que sua voz causa ruído, e prefere assim. Usa o humor como ferramenta de sobrevivência e de provocação. “O fato de ser alegre, meio criançona ou ser meio sarcástica me mantém muito esperta”, declarou. Essa esperteza é o oposto da adaptação dócil: é a astúcia de quem aprendeu a negociar com o tempo sem se entregar a ele. Em entrevistas recentes, ela mesma reforçou a ideia de continuidade. “É muito difícil como a pessoa vai envelhecendo e vai sendo deixada de lado. É como se a gente virasse um sapato velho. Mas a gente é ser humano. Tem coisa pra falar, história pra viver, cabeça boa pra fazer as coisas”. Há firmeza e ternura na mesma sentença, a consciência de quem sabe que o olhar social ainda tenta reduzir o velho ao resto, e a recusa de quem não aceita o papel.

Não se trata de negar o tempo, mas de dialogar com ele. Susana fala de medos, do corpo, do trabalho, da solidão, e não disfarça nada. “Tenho pavor, tenho medo, tenho pena de morrer… porque eu ainda estou bem, eu ainda preciso fazer bastante coisa”, disse em outra entrevista. Não é contradição: é vitalidade. Quem teme o fim é justamente quem ainda deseja o futuro. Em vez de fingir que a morte não existe, ela confessa o medo, mas o transforma em movimento. Segue trabalhando, criando, vivendo. É isso que a torna tão humana e tão política.

Aos 83 anos, Susana Vieira reafirma sua vitalidade e humor em 'Falas da Vida', especial da TV Globo que celebra o envelhecer como ato de liberdade (Foto: Divulgação/Globo)

Aos 83 anos, Susana Vieira reafirma sua vitalidade e humor em ‘Falas da Vida’, especial da TV Globo que celebra o envelhecer como ato de liberdade (Foto: Divulgação/Globo)

Há também a Susana que desarma o discurso acadêmico e devolve o tema ao povo. “Não vou usar o termo ‘etarismo’ porque acho chato pra caceta. Vou falar sobre a velhice, como é envelhecer no Brasil… Você acha que vou ficar quietinha? Não!”, disse durante o lançamento de sua biografia. Nessa fala, entre o deboche e o desabafo, há algo precioso: a tradução da causa para a vida real. Ela sabe que o preconceito contra a idade não se resolve em eufemismos, e que é preciso falar sobre velhice de frente, com o vocabulário da rua, sem floreios.

Ao longo da carreira, ela aprendeu a converter o julgamento em performance. Quando ri de si mesma, não é fazendo pouco caso: é domínio de cena. Quando ironiza o próprio tempo, não é vaidade: é consciência do lugar que ocupa. Ser uma mulher de mais de 80 anos, com contrato ativo, fala livre e humor ácido em um país que glamouriza a juventude, é um gesto político em si. O simples fato de estar ali, viva, em cartaz, em rede nacional, já é um enfrentamento.

No 'Falas da Vida': “Acho que o humor talvez seja uma maneira de me manter viva. Eu não dei mole para a vida, eu estou sempre ativa!” (Foto: Divulgação/Globo)

No ‘Falas da Vida’: “Acho que o humor talvez seja uma maneira de me manter viva. Eu não dei mole para a vida, eu estou sempre ativa!” (Foto: Divulgação/Globo)

Talvez a maior lição de Susana Vieira não esteja apenas nas palavras, mas no gesto contínuo de permanecer. Ela não ensina como envelhecer bem; ensina a não pedir desculpas por envelhecer. Entre novelas, palcos e entrevistas, construiu uma ‘pedagogia da presença’: estar ativa, curiosa, imperfeita e viva é sua forma de resistência. E, em tempos em que o etarismo ainda se disfarça de cuidado ou gentileza, ela oferece outra narrativa: a da mulher que não aceita o silêncio como prêmio. ‘Falas da Vida’ confirma o que Susana pratica há décadas: rir é verbo de sobrevivência. Viver, para ela, é não “dar mole” para o tempo. Porque o que a faz eterna não é desafiar a idade, é continuar lindamente, e perigosamente viva.