Teatro & Pensata

”Quem ainda luta fazendo arte no Brasil é mais do que guerreiro. É quase mágico”, frisa Regina Casé

Depois de 25 anos longe dos palcos, a atriz vive a história de uma mulher convidada para uma palestra sobre literatura brasileira em Harvard e, assim, divide seus medos e aflições com o público

Publicado em 16/04/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

São quase 25 anos longe dos palcos e, agora, Regina Casé volta à cena teatral em um projeto especial: o monólogo “Recital da onça”. “É impressionante porque não parece que fiquei esse tempo todo longe. Eu achava que tinha uns dois ou três anos só. Estava à frente de projetos na TV que foram muitos prazerosos e atingiam um grande público. O teatro, no Brasil, ainda é para quem consegue comprar um ingresso. Mas, nesses 25 anos, eu continuo a mesma Regina que pisou no palco em ‘Nardja Zulpério‘: animadíssima, cheia de improviso… quem viu vai sentir”, frisou, referindo-se à peça que foi sucesso de público e crítica entre 1990 e 1994.

Regina Casé em cena com “Recital da onça” (Foto: João Pedro Januário)

“Pra que eu inventei isso?”. É com essa indagação que Regina dá início à história em “Recital da onça” e é nesse clima, meio Regina, meio personagem, que o público vê o desenrolar da peça e do problema da personagem, convidada de Harvard para inventar um novo formato para palestras sobre literatura brasileira para estudantes estrangeiros. Nesse contexto descontraído e interativo, o público tem a tarefa de ajudá-la a escolher os textos mais adequados, enquanto ela confessa o seu pavor de aeroportos, da imigração americana e do frio congelante do inverno no local. “Recital da onça” nada mais é do que o ensaio de suas propostas antes da viagem – a partir de textos de grandes autores. Com isso, foi possível incluir alguns dos nomes favoritos de Regina e Hermano Vianna, cocriador na história. Entre eles, Jorge Amado, Clarice Lispector, Paulo Leminski, Mario de Andrade, entre outros. “A ideia era mesmo mergulhar nas obras dos autores que a gente mais gosta e até apresentá-las ao público. Não gosto e nunca trabalhei com a distinção de alta e baixa cultura. Sempre busquei ser uma mensageira entre esses dois mundos, entre classes e interesses opostos”, assegurou.

A intensidade quer permeia sempre Regina Casé em seus trabalhos (Foto: João Pedro Januário)

E tem mais: a cada cidade por onde a peça passa, Regina e Hermano incluíram novos autores. Para as sessões no Festival de Curitiba foram inseridos trechos do paranaense Dalton Trevisan, por exemplo. Já no Rio de Janeiro o público poderá viajar nas obras de Vinícius de Moraes e Fausto Fawcett, por exemplo. “O Hermano foi o curador dos textos. O que é legal é que temos uma estrutura que, assim que eu puder fazer temporada grande, vai mudar todo dia, porque a peça permite isso. Acho que, no futuro, dá até para fazer segunda como foi em Curitiba, terça-feira, em Salvador, quarta-feira no Rio e por aí vai”, disse ela, que abriu espaço na agenda para essa imersão nos palcos. É que Regina já está comprometida com a próxima trama das 21h, “Amor de mãe”, de Manuela Dias.

“Eu e Hermano já queríamos fazer algo para o teatro, mas era grande, tínhamos que esperar patrocínio e tudo o mais. Daí surgiu a novela, não daria tempo, mas o Estevão, que é casado há 23 anos comigo, nunca tinha me visto em cena e queria muito”, contou ela, que trabalha praticamente em família: Estevão Ciavatta assina a direção ao lado de Hamilton Vaz Pereira. Luiz Zerbini, pai de sua filha Benedita, é responsável pelo cenário e a própria Benedita Zerbini é a assistente de direção. “Eu sempre trabalhei assim e adoro. Não é pelo afeto só. É pela afinidade de ideias, propostas, estética. Para ficar tantas horas da vida trabalhando, tem que levar a família junto”, disse.

Regina conta com a parceria de toda a família nesta empreitada nos palcos (Foto: João Pedro Januário)

Nada melhor para uma peça nascida de uma enorme vontade. “Construí tudo com improvisos meus. Resultou da vontade grande, de mesmo sem tempo, tomar coragem. Era algo pequeno, para 100 pessoas, foi crescendo, agora está sendo uma aventura enorme levar para o Casagrande um trabalho com zero divulgação. Estamos indo com a cara e com a coragem, na Semana Santa. Eu queria tanto fazer que topei a data”, contou. Voltando ao teatro, Regina comparou a arte no Brasil dos anos 90 com a atual: “Fiz teatro a minha vida toda não dependendo de patrocínio. Só com a bilheteria. Hoje em dia, a conta não fecha. Tudo mudou e é muito difícil. Quem ainda luta fazendo arte é mais do que guerreiro, é quase mágico”.

Aproveitar o pequeno intervalo na agenda foi mais do que desejo. Tem um enorme significado. “Quando a gente começa a fazer TV é um ritmo industrial. Agora é que eu tive esse pequeno hiato entre o ‘Esquenta’ e a novela. Fazendo programa semanal era impossível voltar aos palcos, ter tempo de gestação para criar o espetáculo”, explicou ela, que volta às raízes. “Quando me dei conta de que, há tanto anos não me permitia exercitar o que faço de melhor, que é atuar, eu puxei o freio de mão, pausei. Por exemplo, o filme ‘Que horas ela volta?’ ganhou as telas da TV esses dias e o tanto de mensagem e elogios que eu recebi… é incrível. E é um absurdo eu não estar vivendo isso. Se eu tenho esse dom de atuar… é até errado não aproveitar”. Arrasa, Regina! Nossos aplausos.

(Foto: João Pedro Januário)

FICHA TÉCNICA
Regina Casé em ‘Recital da Onça’
Criação – Hermano Vianna e Regina Casé
Direção Geral – Estevão Ciavatta
Direção Cênica – Hamilton Vaz Pereira
Produção – Pedro Tourinho

Cenário – Luiz Zerbini
Figurino – Claudia Kopke e Gilda Midani
Iluminação – Renato Machado
Trilha – Berna Ceppas e Hermano Vianna
Assistente de Direção – Benedita Zerbini

Assessoria de Imprensa – Factoria Comunicação
Fotos e vídeos – João Pedro Januário
Arte – Alberto Pitta
Produção Gráfica – Lucas Moratelli

Chefe de Palco – Gerson Porto
Cenotécnico – Andre Salles
Preparação Vocal – Débora Feijó
Operador de Luz – Rodrigo Maciel
Operador de Som – Arhtur Ferreira
Camareira – Maninha Xica

Produção Executiva – Pitti Canela e Cristina Leite
Direção de Produção – Alessandra Reis
Produtores Associados – Pedro Tourinho, Estevão Ciavatta e Regina Casé
Colaboração Concepção – Sandra Kogut
Agradecimentos – Fundação Gregório de Mattos , Espaço Cultural da Barroquinha , Prefeitura de Salvador, Lucia Riff.

Agradecimentos – Fundação Gregório de Mattos , Espaço Cultural da Barroquinha , Prefeitura de Salvador, Lucia Riff.

SERVIÇO
Temporada Oi Casa Grande – Rio de Janeiro
De 19 de abril a 12 de maio
Sextas e sábados, às 20h. Domingos, às 18h.
Ingressos: R$100 (plateia), R$80 (balcão 1), R$70 (balcão 2)
Duração: 100 minutos
Classificação: 12 anos

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