Teatro & Pensata

Prêmio Cesgranrio de Teatro homenageia Nathália Timberg e coloca os musicais no centro do palco. Vem saber como foi a festa!

Profissionais de teatro são premiados em doze categorias em uma noite especial no Copacabana Palace e Tânia Brandão, uma das juradas, destaca: “O Cesgranrio faz com que o teatro apareça como uma festa, uma grande arte”

Publicado em 19/01/2016 | Por Karina Kuperman

Todos os aplausos para Nathália Timberg! A atriz, que estreia o teatro que leva seu nome na próxima sexta-feira, 22, já começou a semana bem! Ela foi a grande homenageada na terceira edição do Prêmio Cesgranrio de Teatro, o maior do gênero no país, na noite dessa segunda-feira, 18. Mas não foi a única que saiu comemorando, já que a premiação se estendeu pela classe artística como um todo em categorias como “melhor figurino”, “melhor cenografia”, “melhor iluminação”, “melhor ator”, “melhor ator em teatro musical”, “melhor atriz”, “melhor atriz em teatro musical”, “melor direção”, “melhor direção musical”, “melhor texto nacional inédito”, “melhor espetáculo” e “categoria especial”. O charmoso evento, apresentado por Marcos Caruso e Claudia Raia, ocupou dois dos principais salões do Copacabana Palace e teve uma banca de jurados composta por grandes nomes como Tânia Brandão, Carolina Virgüez, Daniel Schenker, Macksen Luiz, Jacqueline Laurence, Mirna Rubim e Lionel Fischer.

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O carinho de Nathália Timberg e Bibi Ferreira no Prêmio Cesgranrio de Teatro (Foto: Reginaldo Teixeira)

Os premiados foram Carol Lobato, pelo figurino de “Kiss me Kate: o beijo da megera”, Bia Junqueira pela cenografia de “A santa Joana dos matadouros”, “Meu saba” e “Santa”, Aurélio di Simoni pela iluminação de “Meu saba”, Bruce Gomlevsky como melhor ator por “Uma ilíada”, José Mayer como melhor ator de musicais por “Kiss me Kate: o beijo da megera”, Claudio Lins na categoria especial pela adaptação da obra de Nelson Rodrigues para o teatro musical, Ana Paula Secco como melhor atriz por “O pena carioca”, Alessandra Verney como melhor atriz de musicais por “Kiss me Kate: o beijo da megera”, Marco André Nunes pela direção de “Caranguejo Overdrive”, Marcelo Alonso Neves pela direção musical de “Amargo fruto – a vida de Billie Holiday”, Pedro Kosovski pelo texto nacional inédito de “Caranguejo Overdrive” e “Krum” como melhor espetáculo.

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Marcos Caruso e Claudia Raia foram os mestres de cerimônia da noite (Foto: Reginaldo Teixeira)

“Esse prêmio é o que tem mais glamour atualmente. Antigamente nós tivemos uma época com muitas premiações nos anos 60, 70 e até 80. Nesse momento, o Cesgranrio é o que presenteia com o maior valor, que são R$25 mil. Os outros também tem muita importância porque trazem outras discussões, como, por exemplo, o Prêmio Shell, que já foi de muita projeção e hoje é mais jovem e inventivo. Todos são importantíssimos, cada um com um recorte. O Cesgranrio faz com que o teatro apareça como uma festa, uma grande arte”, analisou Tânia Brandão, durante uma conversa com HT em que destacou, ainda, a importância de prestigiar os musicais com categorias específicas. “Em 1961, o teatro musical entrou em crise e ficou em uma penumbra até praticamente o final dos anos 80. A partir daí, veio num ritmo de recuperação surpreendente e se chegou a um estágio de qualidade como temos hoje, em que o Brasil é o terceiro produtor mundial de musicais em um nível técnico e qualidade que só dá orgulho. Eu acho que o musical é o teatro do futuro, essa linguagem tende a crescer”, afirmou. A mestre de cerimônias da noite concordou: “Fico muito feliz de ter um prêmio desses para o teatro e que tenha os musicais incluídos nisso. Sou uma pessoa do palco, embora achem que sou mais de novela. Não! Eu sou filha do teatro e adoro fazer isso, ser mestre de cerimônia, brincar, me divertir, falar com a minha classe”, destacou Claudia.

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O presidente da fundação Cesgranrio, Carlos Alberto Serpa, subiu ao palco para homenagear os premiados (Foto: Reginaldo Teixeira)

Com tanto destaque para o gênero, quem melhor do que os grandes premiados José Mayer e Alessandra Verney, para comentar o assunto? A dupla, que levou, respectivamente, troféus de melhor ator e de melhor atriz de musicais pelo casal bem-sucedido que formam no palco em “Kiss me, Kate: o beijo da megera”, de Charles Möeller e Claudio Botelho, também ressaltou a importância do reconhecimento do gênero e falou sobre as diferenças entre produções nacionais e internacionais. “Ganhar esse prêmio é uma sensação de vitória muito grande. Foi um mês intenso de dedicação que ou dávamos tudo ou corria o risco de não ter bom resultado. É um presente enorme fazer uma peça de riqueza tão incrível, texto, personagens, partituras. Foi feita com carinho e amor então não tem como dar um resultado diferente. Esse acolhimento da crítica e do público e as indicações para prêmios só acalentam a alma e fazem ter certeza que foi o caminho certo”, disse Verney, emendando que o teatro musical, que por muito tempo chegou a ser definido como “subteatro” é uma união de artes.

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Alessandra Verney ganhou o troféu de “melhor atriz de musicais” por seu papel em “Kiss me Kate: o beijo da megera” (Foto: Reginaldo Teixeira)

“Não é um gênero fácil, tem que ter preparação e muita dedicação para atingir objetivos. Ter um prêmio com a categoria de musical valoriza o gênero, que muita gente acha que é mais superficial, mas, pelo contrário: precisa muito estudo. Tem que ser bom ator também para entrar nessa seara, se não o público não compra o personagem, a peça”, garantiu. A sensação de ganhar um troféu ao lado do parceiro de cena – com direito até a selinho carinhoso de comemoração, também foi destacada pela atriz. “Foi emocionante vencer ao lado do Zé, porque tivemos uma química enorme nos ensaios. No primeiro dia fizemos um pacto de estudar muito e nos jogar de forma plena. Criamos uma cumplicidade enorme e isso passa para a plateia. Um mês é muito pouco tempo para construir isso, mas ele foi de generosidade maravilhosa e pensamos muito parecido”, disse. O parceiro de cena foi além: “Construímos uma obra de arte tão linda num prazo tão curto. Na minha longa carreira nem fazendo teatro só de texto, de palavra, consegui isso: em 32 dias começar do zero e chegar ao público. Acho que isso tem a ver com a excelência da junção Shakespeare e Cole Porter, depois Charles e Claudio. E eu e Verney, que tivemos essa parceria intensa e fizemos um pacto de qualidade, esforço e entrega um com o outro”, analisou Zé.

O pré-conceito da classe artística com produções internacionais também foi tema da conversa e Verney garantiu: “Teatro musical é teatro musical em qualquer lugar do mundo. Não gosto da separação de brasileiro, americano, inglês ou de onde quer que venha. Por mais que tenha origem, o que vale é qualidade do texto e música. Acho válido o esforço de criar musicais originais brasileiros mas não tem que haver essa competição. Um acrescenta ao outro. O que interessa é ter mercado forte. Qualidade é universal, não interessa a origem”, defendeu a atriz, endossada por Zé: “O grande projeto, a longo prazo é a criação do teatro musical brasileiro, mas nós não temos competência dramatúrgica e musical ainda para a verdadeira concretização dessa ideia. Estamos no caminho! O próprio musical americano é o resultado de décadas e décadas de aprimoramento. É ridículo ignorar a qualidade e consistência da dramaturgia musical americana. É bom tê-los como referência! Sempre que eu tiver um convite pra fazer um bom musical americano farei. Como farei brasileiro também, como foi o caso do meu primeiro musical, produzido por mim mesmo em 2007 (“O cartuno da paixão cearense”). Mas não execro o americano porque não sou xenófobo e não acho que tem que ser essa recusa porque é estrangeiro somente. É preciso ser antropofágico. A gente pega as referências, digere e cria um produto brasileiro”, disse.

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Marcos Caruso, Nathália Timberg e Claudia Raia: emoção no palco (Foto: Reginaldo Teixeira)

O casal Isaac Bernat e Letícia Isnard – indicada como “melhor atriz” por “Marco Zero”, foi além e analisou a dificuldade de viver de arte no Brasil. “É complicado, mesmo quando está bom. Mas a dificuldade é estimulante e instigante. Quantas linguagens não surgem a partir das dificuldades? Na minha companhia de teatro mesmo, ‘Os Dezequilibrados’, a gente desenvolveu uma linguagem de pesquisa em espaços não-convencionais, porque não tinha patrocínio, então começamos a fazer em lugares alternativos. O artista está sempre subvertendo, porque a gente não faz teatro para pagar as contas, faz porque precisa. Essa necessidade de expressão, de elaboração do mundo que vivemos que supera tudo. É uma doença”, brincou a atriz, que não chegou a vencer na categoria em que concorria, mas, ainda assim, ressaltou a importância da existência de um evento tão grandioso voltado para a área. “Ser indicada já está valendo, é tanta gente boa”, disse. Isaac fez coro: “É um prêmio que dignifica o teatro, com certeza. É tão difícil fazer teatro no Brasil que premiar quem faz é muito importante”, analisou. Com tanta dificuldade e o glamour da televisão, o que ainda prende nos palcos? “É o lugar onde mais nos realizamos como performers. Eu escolho o que dizer e com quem quero trabalhar. Na TV estamos a serviço de um produto muito maior. O teatro é o lugar da nossa expressão mais pessoal e isso nunca vai deixar de ser. O encontro com o público, ao vivo, é muito específico e não morre nunca!”, defendeu Letícia.

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Elenco e equipe de “Krum”, o melhor espetáculo da noite, subiu junto ao palco para receber o troféu (Foto: Reginaldo Teixeira)

E ela compartilha a opinião com a grande homenageada da noite. Ao subir ao palco para receber sua medalha de honra Cesgranrio, Nathália Timberg ressaltou: “É incrível poder dizer a todos que acreditam que podemos nos comunicar através do teatro, fazer crescer nossa gente através da arte, da cultura, acreditar, estar aqui construindo com nossa fé, força e alma”, disse, visivelmente emocionada. Após o abraço na veterana no palco, Claudia Raia comentou seu amor por Nathália. “Sou louca por ela, por sua sabedoria, como ela encara o ofício, da maneira delicada que ela transmite ensinamentos para nós, atores de outras gerações. Nós estamos atrás dela, seguindo, precisando, bebendo dela. O ator é um grande ladrão, rouba as melhores coisas e armazena. A Nathália é toda informação que precisamos como atores”, afirmou, durante bate-papo com HT.

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Bruce Gomlevsky ganhou o prêmio de melhor ator por “Uma ilíada” (Foto: Reginaldo Teixeira)

A mestre de cerimônias não foi a única a declarar sua admiração pela grande musa do teatro. Isaac Bernat destacou o fato de a atriz, mesmo tão consagrada, continuar sempre disposta a arriscar: “Ela é ícone do teatro, passou por tantas épocas, fez de tudo! Televisão, palcos, trabalhou com grandes autores, diretores e nunca para de se desenvolver. É um monstro sagrado”, disse ele, endossado por Letícia Isnard: “Ela é referência e sobrevivente. Quem vive de arte nesse país é um pouco herói também, ela é fantástica”, elogiou, com razão da própria homenageada, que ressaltou as dificuldades até chegar onde chegou.

“Vim somando essa batalha com uma gente que luta para poder se expressar, que enfrenta todas as dificuldades que é estar nesse ofício. A todos vocês, meus pares, meus amigos, colegas: esse carinho que vocês expressam e que nesse momento estou vivendo, de receber esse reconhecimento de um trabalho que me propus a fazer, é uma honra!”, agradeceu, emendando: “Com todas as alegrias que o teatro me trouxe, e as dificuldades e problemas, tenho que agradecer a cada um que confirmou para mim que esse era o caminho a percorrer, era a única maneira que eu tinha de estar no mundo. A cada um que eu cruzei eu devo o que está em mim agora. Fui abençoada!”, concluiu, ovacionada pelos presentes. Nós é quem fomos, Nathália.

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